Por trás das Digital Rails

Uma entrevista com Barão di Sarno

Na semana passada, apresentamos nosso mais recente estudo sobre mobilidade urbana, Digital Rails, em um painel que discutiu "O fim dos carros ou um novo começo" no What Design Can Do 2017.

Designer, músico, cenógrafo, ativista e vice-presidente do Instituto A Cidade Precisa de Você, Barão di Sarno é também um dos sócios fundadores da Questtonó e idealizador de Digital Rails, um projeto pensado para a transição entre os tempos atuais e a era dos carros autônomos, que prevê uma convivência harmônica entre diversos modais.

Na entrevista a seguir, ele esclarece alguns pontos chave sobre o desenvolvimento do projeto, além de questionamentos apontados pelo público durante o evento.

Confira:

Como surgiu a ideia e por quê utilizar a biomimética — ou seja, aplicar respostas dadas pela natureza a problemas análogos enfrentados pelo homem — à questão da mobilidade urbana?

A realidade atual exige que nós encontremos soluções sistêmicas e o funcionamento da natureza é, sem dúvida, uma grande inspiração para nós. Imagina a complexidade que é um ecossistema natural e, no entanto, ele é capaz de atender às demandas de milhares de seres vivos diferentes de maneira sustentável, em perfeito equilíbrio.

No caso do transporte em grandes metrópoles, a gente se inspirou na capacidade na natureza de deslocar grandes massas por longas distâncias de maneira eficaz. As correntezas dos rios, as correntes de ar, o sistema gravitacional e até a circulação humana. Em todos esses contextos, existe uma orientação externa que define o deslocamento. É a correnteza que arrasta a matéria orgânica no rio ou o pulso do coração que define o deslocamento das partículas pelo corpo.

Esta foi a nossa maior inspiração: a autonomia dos deslocamentos nas grandes vias da cidade não deveria ser dos carros, mas da via em si.

Como seriam os veículos aptos a rodar nas Digital Rails? Por que são padronizados? E se as montadoras começarem a fazer veículos autônomos diferentes, isso seria um entrave?

Os veículos adaptados às Digital Rails precisam ser mais estreitos que os convencionais. Em seu interior existe um assento com dimensões equivalentes às de um banco de ônibus, onde é possível acomodar uma ou duas pessoas. Este pré-requisito dimensional é necessário para que possamos instalar as duas faixas necessárias para o funcionamento do sistema em apenas uma única via da rua. Uma delas é dedicada à formação de comboios, um dos 3 pilares que sustentam o projeto, e a chamamos de “faixa de transição”, que é usada pelos carros autônomos para entrar e sair dos comboios que se formam nas Digital Rails.

A ideia central do projeto é que diversos modais convivam e circulem em harmonia, independentemente das Digital Rails, mas apenas os veículos que atendam ao padrão proposto poderão circular nas Digital Rails e usufruir de suas vantagens.

Quais seriam as atribuições do poder público e da iniciativa privada na aplicação das Digital Rails?

A prefeitura precisaria desenvolver o sistema de dados abertos (open API), definir os seus parâmetros de uso e fazer certas adaptações estruturais na cidade para receber o sistema de vias digitais. Entre as necessidades de infraestrutura estão a determinação das faixas exclusivas e a instalação de semáforos inteligentes coordenados pela API.

Já a atribuição da iniciativa privada seria o desenvolvimento de veículos adaptados aos parâmetros das Digital Rails. Estes veículos podem atender a diversas demandas de uma cidade. Podem ser veículos utilitários para os indivíduos, assim como veículos de serviço, como por exemplo carga, ambulâncias, caminhões de lixo e toda uma gama de novas possibilidades que podem surgir a partir deste sistema.

Quais os desafios reais para viabilizar o projeto?

Acredito que o cenário político pode ser um dos grandes entraves, pois, para investir nos novos veículos, a iniciativa privada precisaria de uma garantia de continuidade do projeto a longo prazo, sem grandes mudanças políticas geradas pela alternância de poder, por exemplo.

Do ponto de vista tecnológico não vemos grandes desafios a princípio, pois as ferramentas que usamos para desenvolver este conceito já existem. Mas, para evoluirmos ainda mais as possibilidades de uma possível implementação, estamos em contato com universidades em busca de parcerias para criar simulações virtuais do sistema, com o objetivo de analisar todos os pontos sensíveis e ver se ainda existem possíveis gargalos que precisem ser ajustados.

Quais seriam os custos aproximados para sua implantação?

Na fase em que o projeto se encontra, ainda não temos condições de precisar os custos, mas podemos garantir que são muito inferiores aos de qualquer outra solução de transporte para grandes massas. Isso se dá porque o projeto prevê o aproveitamento da infraestrutura já instalada nasmruas e avenidas.

As adaptações para criação de semáforos inteligentes e novas sinalizações são muito pequenas, se compararmos às escavações necessárias para a instalação de metrô, construção de trilhos, pontes e estações que um trem de superfície exige, por exemplo. Estimamos que seu custo seria equivalente à construção de corredores de ônibus, por exemplo.

As vias que seriam transformadas em Digital Rails perderiam os corredores de ônibus, por exemplo? De que forma poderiam ser usadas pelo transporte público?

Seria uma atribuição do poder público de cada cidade decidir quais vias iriam dar lugar à instalação de Digital Rails, a partir das suas demandas específicas. No entanto, nós acreditamos que a maioria das faixas adaptadas viriam de vias utilizadas por carros de passeio, sobretudo porque a eficiência do sistema reduziria drasticamente a necessidade de vias exclusivas para carros. Além disso, se nos atentarmos ao fato de que um carro fica parado mais de 90% do tempo, podemos concluir que, se a população optar por utilizar veículos compartilhados, a quantidade de veículos para atender a mesma demanda de deslocamentos cai drasticamente.

Enxergamos uma enorme possibilidade de instalar Digital Rails em faixas hoje ocupadas por carros estacionados. As Digital Rails não são um contraponto ao transporte público e sim um sistema que otimiza a integração dos sistemas de transporte público e privado.

Se estamos falando em transição de um mundo sem para um com veículos autônomos, as Digital Rails tendem a se tornar desnecessárias depois que essa transição passar?

Quando os carros guiados por seres humanos deixarem de circular dentro das cidades, todas as vias destinadas a carros poderão ser Digital Rails. No entanto, isso significa que uma grande área que hoje é ocupada predominantemente pelos carros poderá ser destinada para o usufruto da população, como parques lineares e até áreas de cultivo.

Eu acho muito interessante pensar que o maior legado que os carros podem deixar para as cidades do futuro são os espaços das ruas, pois, num futuro próximo, isso pode significar cidades muito mais humanas, cheias de espaços públicos para a população usufruir.

Também acho importante dizer que já existem muitas cidades planejadas sendo construídas hoje no mundo, atendendo aos novos padrões de sustentabilidade. Nessas cidades, nosso sistema já poderia ser instalado desde o princípio como solução exclusiva para o transporte individual, além de ser complementar ao sistema público.

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