SXSW e Questtonó: tudo a ver!

Nosso CEO Levi Girardi esteve em Austin nas semanas mais agitadas do mês de março e compartilha suas impressões sobre o maior festival de criatividade do mundo.

Nesse tipo de evento focado em (muito) conteúdo, sempre é possível eleger o assunto da vez. E indiscutivelmente o que mais se falou em Austin em 2018 foi: inteligência Artificial. O quanto a AI pode ser relevante na nossa vida, o que já está sendo feito, se vamos ter controle sobre isso no futuro e se afinal, já não estamos sob o controle dela.

O fato é que os algoritmos já estão por toda parte, direcionando muito do que fazemos ao longo do dia sem que possamos nos dar conta disso. Há a questão central sobre o equilíbrio entre a comodidade de "algo" decidir por nós e a nossa privacidade. A AI só consegue “pensar” a partir de dados que vamos fornecendo, muitas vezes sem nos dar conta e que no final nos apresentam sugestões ou direções para a melhor forma de fazermos nossas atividades do dia a dia. Isso vale para o caminho que vamos seguir, para o que vamos assistir e sobre o que achamos que nossos amigos estão pensando.

Devemos ter medo ou só relaxar?

Até nossas escolhas pessoais no Pinterest para temas como a decoração para nossa casa nova ou algumas ideias sobre a roupa que vamos usar numa festa são capturadas e podem nos ser oferecidas não apenas como sugestões, mas sim como uma opção verdadeira na hora de escolher, por exemplo, a cor de tinta que vamos pintar a parede de casa. Neste caso a AI percebe nossas preferências, nos conecta a quem possa oferecer produtos ou serviços e já chega com aquilo que seguramente vamos gostar, pois nós mesmo demos todas as dicas antes. Comodidade ou invasão?

Inteligência Artificial, Inovação e Design

Ainda dentro das possibilidades de uso da AI em design e inovação, Yann Caloghiris (Imagination Agency) apresentou um conteúdo muito interessante sobre Experience Design. Ele falou sobre o uso de ferramentas de AI em pesquisa de comportamento para geração de insights de inovação, e ilustrou com projetos em inúmeras áreas, em especial na área automotiva. Seu discurso foi baseado em como as ferramentas podem potencializar as pesquisas de comportamento, uma vez que não precisaríamos deslocar pesquisadores para vários cantos do planeta para observar e analisar situações de uso de produtos ou serviços e com isso aumentaríamos em muito as amostras, baixaríamos os custos e, na promessa, aumentaríamos a precisão e quantidade de informação para geração de insights e oportunidades. Entretanto, a ausência do contato humano, do olho no olho, elimina o feeling e as entrelinhas.

Por isso, a conclusão ainda é que haja equilíbrio entre as novas ferramentas e a sensibilidade humana, para conseguirmos obter as melhores respostas.

A hora da estrela: Elon Musk

Um dos pontos altos prometidos no Interactive foi a aparição de Elon Musk (Tesla e Space-X). Prometido, porque no final das contas foi uma entrevista apenas ok, apesar de toda a complicação para conseguir estar lá. Mais de 2.500 pessoas, numa maratona de filas e um certo atraso no início da entrevista. Sim, foi um sessão de Q&A, algo que não é comum no festival.

O interessante é que o fato de ter sido apenas ok, no meu ponto de vista, é que isso me deixou muito mais confiante nesta figura que está colocando muita coisa já estabelecida em cheque. Seus carros autônomos e elétricos, que deixam uma indústria centenária de cabelos em pé, seu programa espacial que faz com que olhemos para a Nasa e nos perguntemos: por que vocês demoram tanto para fazer coisas que um cara com recurso privado faz muito mais rápido e ainda por cima dá um show de comunicação?

O fato é que Musk não é um showman! Levou a entrevista num ritmo lento, apesar de respostas muito boas, mas não foi capaz de causar grandes comoções num público ávido para isso. A única exceção ficou por conta do maravilhoso vídeo do lançamento recente do Space-X levando nosso Starman para o céu, ajudado e muito pela trilha de Bowie. E olha que quase todo mundo já tinha visto o vídeo no YouTube antes. Isso me deixou até feliz, porque ele mostrou ali que realmente está imerso no assunto de levar o homem a Marte e a tornar a vida das pessoas mais fácil com carros autônomos e baterias inteligentes, sem precisar de pirotecnia para convencer as pessoas.

https://www.youtube.com/watch?v=A0FZIwabctw

O show é dado pelas experiências efetivas, seja dirigindo um Tesla, seja vendo os foguetes voltando milagrosamente para a base (o que reduz significativamente os custos do programa espacial da Space-X). A melhor parte foi quando o entrevistador pergunta sobre os planos de negócio que ele tem para os seus projetos disruptivos e a reposta mais improvável e deliciosa foi: “mmmmm, I don’t have a business plan”! Claro que Tesla e Space-X devem ter milhares de planejamentos para tudo, mas quando você ouve da boca do cara que toca tudo isso que ele não tem um plano de negócios, isso mostra como deve ser o pensamento de inovação e disrupção.

Como dá para fazer um plano e considerar que em dado momento vamos ter um super insight e mudar o mundo? Não funciona assim, e o fato é que acabamos ficando condicionados pelos manuais de administração que tudo deve estar previsto e planejado. Tão previsto e planejado que corremos o risco de perder o momento, por não estar no plano, e assim perder uma oportunidade de ter um insight incrível.

Só isso valeu a viagem!

Muito além das palestras

Saindo das palestras gigantes e com filas idem, foram legais as sessões de pitch de startups. Uma delas, focadas na saúde das crianças (que aliás é um dos temas de pesquisa interna do nosso escritório) foi bem interessante. A maioria foi focada em aplicativos, sendo todas muito estruturadas no foco no usuário (as crianças, no caso), totalmente design driven, e várias num estágio avançado de desenvolvimento do negócio.

Dentre as apresentações que chamaram minha atenção, estavam um sistema de Eye Screening muito mais rápido e barato do que as tecnologias atuais, e uma empresa que promete uma incubadora para prematuros também muito mais barata e acessível, atendendo a todos os requisitos de segurança e normatização que esta área exige. Tudo isso parece muito promissor para países como o Brasil, que carece que soluções que não tenham sido criadas para os 5% mais ricos da população mundial. Uma última proposta bem legal foi um adesivo milagroso para acabar de vez com as agulhadas nas crianças. Elas agradecem!

Um ponto alto: John Maeda

Um dos pontos altos em todo o Interactive foi a apresentação Design Tech Report, relatório anual de John Maeda que trata sobre o universo do design como um todo (impacto tecnológico, negócios, a atividade do designer e por aí vai). Uma sequência dos excelentes reports dos anos anteriores, desta vez considerando a Índia (o país dos serviços), contrabalanceando com a China (o país dos produtos), além de considerar pela primeira vez a América Latina (sim, nós) no relatório geral.

No relatório de 2018 é introduzido um novo tema: Computational Design. Ele chega para acompanhar o Classical Design e o Design Thinking, como a nova fronteira que todos nós designers devemos prestar atenção (e se formos espertos, atuar aí).

Outro tema relevante abordado no relatório foi o envelhecimento saudável da população como uma área incrível de oportunidade. Os B(old)ers, que numa tradução livre significa mais ousado (bold) e mais velho (older), traduzem um novo perfil de comportamento, o qual John Maeda resume com a frase: “Nós não estamos nos tornando mais jovens, mas sim mais ousados”.

Antes do festival acabar: o que ficou

Dentro de todo o conteúdo apresentado e do clima geral do evento, o que dá para perceber é uma atitude em geral positiva para tudo o que vem por aí. Parte deste clima positivo foi dado sem dúvida pela quantidade enorme de brasileiros (sim, o português é definitivamente a segunda língua do SXSW). No entanto, em contraste com o número de participantes, achei pouco o conteúdo gerado por nós sendo apresentado. O Brasil tem muito a falar sobre inovação, principalmente pelo muito que conseguimos fazer com poucos recursos. Isto é uma habilidade inata nossa. E sabemos muito bem ser positivos e olhar para o futuro. Aliás, umas das frases mais marcantes do evento, numa tradução livre, é que não somos vítimas do futuro, mas estamos aqui para construí-lo. Com Inteligência Artificial ou não.

Até o SXSW do ano que vem!