Quezia Balmant
Nov 3 · 3 min read

O dia de finados

Eu nunca, antes de conhecer melhor teologia, havia observado o dia de finados. Crescida em uma família totalmente 'ante católica', fui criada com o pensamento de que "dia dos mortos é coisa de católicos, protestantes refletem sobre a vida e não sobre a morte. Aos mortos não há mais o que ser feito".

O que vim aprender mais tarde, é que o dia de finados é para os vivos e não para os mortos, e que protestantes refletem sim sobre a morte, ou pelo menos deveriam.

A morte, esse personagem enigmático e temido por muitos é, nas palavras de João, o último inimigo a ser vencido, talvez por isso ela é tão temida.

Mas devemos mesmo ter medo da morte?

Como meus pais me ensinaram (e nisso acertaram muito) não há porque temer a morte, apesar de ainda não vencida, já podemos considerá-la como tal (o tal do já e ainda não, sabe?)

Mas a verdade é que, mesmo considerando-a vencida, mesmo sabendo que ela não tem mais poder sobre nós, nós ainda a enfrentaremos, ela ainda passará por nós (ou nós por ela), mas com um detalhe...

Quando Deus ordenou a Adão e sua mulher que comessem de todos os frutos do Jardim, mas que da árvore que se encontrava no meio dele não comessem, Ele fez também um alerta:

"[...] porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás."

[Gênesis 2:17]

Essa morte alertada por Deus, não era somente a morte espiritual, mas também a física. Antes da queda, tínhamos acesso à árvore da vida, depois da queda do homem, já não temos mais. Nossa queda trouxe morte!

E agora?

Os filhos de Deus, de agora em diante, deveriam enfrentar a morte. A obra prima do Criador, criados para a vida eterna, seriam derrotados pela morte.

Seria esse o fim? Certamente, não.

Mas o que Deus faria?

Uma vez ao contar essa história para um amigo, ele me perguntou se Deus não poderia simplesmente desfazer a sentença de morte. Acabando com ela ali mesmo, acabaria com o problema!

Mas não é tão simples assim.

Deus não é homem para que minta, nem filho do homem para que se arrependa [Números 23:19].

Ao invés disso, Ele faz melhor...

Na história de Ester, quando o rei Assuero, influenciado por Hamã, decreta que todos os judeus fossem mortos,

Ester convida o rei e Hamã para alguns banquetes, até que por fim ela revela o motivo dos banquetes e clama junto ao rei por seu povo que seria morto por causa da promulgação.

Ester, temendo pelo fim de seu povo, pede ao rei que revogue seu decreto e desfaça o mal destinado a eles; mas o rei lhe explica que não é tão simples assim, um decreto feito pelo rei, não poderia ser desfeito.

Ao invés disso, ele emite outro decreto autorizando que no dia marcado para a morte, todos os judeus se armassem e, defendendo-se da morte, salvarem-se.

Quando o povo de Israel estava prestes a se livrar do cativeiro egípcio, Deus decreta a última praga: a morte. Mas ele não faz com a que morte desvie dos judeus, antes, faz com que eles sacrifiquem um cordeiro e passem seu sangue nos umbrais das portas de suas casas. Quando o anjo da morte passasse por ali naquela noite, ele não entraria, pois aquela casa estaria a salvo, e a morte não teria poder sobre eles.

Quando Deus prometeu a Eva que de sua descendência viria o Aquele que esmagaria a cabeça da serpente, ele estava ali decretando o fim da morte. Deus não simplesmente desfaz sua sentença de morte, mas, ao mandar Seu filho, decreta a morte da morte na morte de Cristo (citando John Owen).

Deus já decretou a derrota da morte.

Pela fé no Cordeiro imolado antes da fundação do mundo, podemos crer que ela não tem mais poder sobre nós, no entanto, ela ainda passará por nossas portas, nós ainda a enfrentaremos no dia marcado, mas estamos armados com armaduras da fé e nossos umbrais estão aspergidos com o Sangue do Cordeiro.

Não há o que temer! A morte não é o fim para nós!

Parafraseando um outro puritano, a morte pode nos tomar da vida, mas Cristo nos tomará da morte.

Aleluia!

    Quezia Balmant

    Written by

    "Fides quaerens intellectum" - Anselmo de Cantuária