A naturalidade em dizer que “beleza é subjetiva” e o que tem de estranho nisso

Há suposições de que a leitura social é o que distingue o feio do bonito. Por fim, a opinião que vence é a predominante, mas não a majoritária.


Esvaziar os assuntos que vêm seguido das famosas hashtags, é uma pequena porcentagem do esmaecimento com que os símbolos de resistência têm sido esmagados. Todo o peso do saco sem fundo (costurado pela publicidade, capitalismo e por parte do poder acumulado) é despejado em um conceito que se banaliza na velocidade que cada gigabyte por user de internet pode oferecer. O termo "apropriação cultural" carrega essa bagagem que compõe um grupo de palavras, mas também, um grupo social.

A fixação pela estéticea apropriação com um problema semântico (numa tentativa falha de sinonímia) com "assimilação" e até "miscigenação" e a partir disto surge a falta de abrangência do sentido que rodeia a, milhões de vezes citada, “apropriação”: a questão do passado - antes dos tempos remotos da era do mundo sem a internet - que sobreviveu com os poucos símbolos que resistiram a perda de protagonismo. Portanto, a globalização não se confunde com com a apropriação, mas a confunde em seu sentido. Dentre as razões que sustentam um mundo que se cruza, está o capitalismo que não ressignifica, mas adapta os termos e os valores a um preço pelo qual a cultura paga caro. A analogia é a mesma que se faz com a arte: um objeto qualquer colocado em uma galeria, transforma-se em obra. Logo, um símbolo marginal e criminalizado por quem detém poder, mas se apropriado para o ambiente burguês - numa revista, por exemplo - é, agora, o belo.

A reflexão que se faz, então, é uma proposta de afastamento da questão puramente estética do turbante ou da grafia do grafite - como os mais latentes exemplos do momento - e a consequente aproximação da origem de tais movimentos. Assim, a apropriação cultural dialoga da formação de um indivíduo que depois da identificação é grupo e, por fim, formador de cultura. Para tanto, existe uma forte dependência da diferença com o outro para definir em suma o que se é. E aí está o centro de tudo: a leitura social.

Isso de definir o indivíduo é interessante. O caso do "quem sou" já foi resolvido - na perspetiva de alguns pensadores das mil áreas e humanas - como a negação do que se é, ou seja, somos a diferença do outro. Esse reconhecimento de alteridades, de primeira, deveria ser positivo e ocasionar o processo de comunicação. Porém e entretanto, o fenômeno de estranhamento parece mais latente, formando um abismo no lugar do diálogo e um consequente desequilíbrio: de um lado o superior e, na outra ponta, o que é enxergado, ali do alto, como inferior. Acabam-se as chances de comunicação e se intensificam as guerras de "quem é dono do quê". E, muito mais fácil seria transformar o movimento precário das margens sociais em belo para a minoria dominante, que conquista um pedacinho maior de terra e se enche de orgulho, dinheiro e status numa constante colonização até de identidade.

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