Partícula de Pó

PIA00452: Solar System Portrait — Earth as ‘Pale Blue Dot’ Credito: NASA/JPL

Quase invisíveis, quase confundidos com o ruído da imensidão do vazio, vagueamos sozinhos pela infinita escuridão.

Em 1990, no ano em que nasci, há 26 anos atrás, a pedido do astrónomo Carl Sagan e a mais de 6 biliões de quilómetros de distância a Voyager 1 fazia esta imagem. Quase como que em despedida ao Sistema Solar, antes de iniciar a sua viagem interestelar. Tornando- se no mais distante objeto, a ser construído e lançado da Terra.

O nosso planeta com os seus 12 756 quilómetros de diâmetro (fonte: NASA) ocupa menos de 1 pixel, nesta imagem. Nós estamos ali, naquele pequeno ponto azul no lado direito, daí esta imagem ter sido chamada “Pale Blue Dot”, ou em português, “Pálido Ponto Azul”.

Em 1994 Sagan disse no discurso que fez na Cornell University, acerca desta imagem:

(…) That’s us. On it everyone you love, everyone you know, everyone you ever heard of, every human being who ever was, lived out their lives.(…)” (Sagan, 1994)

Quando, pela primeira vez, vi esta imagem e ouvi as palavras dele senti-me, estupefacto. É claro que sabemos desde a escola primária quantos planetas constituem o sistema solar, e mais tarde vamos aprendendo acerca das distâncias que os separam, bem como o nosso lugar na imensidão do universo. Mas ver-nos assim, a nu, numa fotografia…

Depois da admiração, e ao ouvir as palavras de Sagan, não pude deixar de sentir alguma revolta, em relação a nós, Homo Sapiens Sapiens. Nós estamos ali, sempre estivemos ali, naquela ínfima partícula de pó azul, a flutuar na imensidão do vazio. E no entanto, desde que nos levantámos e começámos a andar direitos, até termos adquirido o conhecimento para contrariar a força da gravidade que nos “prendia” a este nosso mundo, tornámo-nos uma das espécies mais versáteis a habitar esta partícula de pó. Dirão alguns que somos a mais “inteligente”, mas será que somos?! Com certeza seremos a única espécie a conseguir realizar complicados cálculos matemáticos, a única a conseguir escrever romances e poesia, a única capaz de compor incríveis sinfonias, a única capaz de amar… talvez não.

Toda a nossa história, foi marcada por guerras. Por um qualquer rei querer expandir o seu território, por ideologias, por dinheiro e poder, por alguém acreditar que um “deus” ou “deuses” serão mais importantes e deverão ser sobrevalorizados em detrimento de todas as outras crenças, de todos os outros povos.

Mesmo vivendo sós, na imensidão negra do vazio, continuamos a encontrar mais e mais motivos para nos separar, uns dos outros. As razões que foram sendo invocadas ao longo dos tempos, das quais apontei algumas, apesar do conhecimento que temos atualmente, ainda persistem.

Porque seremos assim tão “diferentes” uns dos outros?

Será que somos realmente?

Como poderão todos os incríveis feitos e conhecimentos que adquirimos ao longo desta era ter valor, quando continuamos a repetir erros do passado. Quando continuamos a dividir-nos e a destruir a única “casa” que conhecemos no processo.

Ainda não conhecemos a existência de ninguém, que habite entre as estrelas, que nos possa salvar de nós próprios. Não conhecemos mais nenhum lugar onde possamos ir num futuro próximo, este pequeno ponto azul é tudo o que temos.

Certamente, continuará a girar em torno do Sol. Certamente reparará todos os danos que lhe foram feitos por nós, na nossa sede de energia. Certamente continuará aqui até o Sol “queimar” o último átomo de hidrogénio. Muito certamente continuará aqui muito tempo depois de nós nos extinguirmos.

É o nosso grande desafio neste século, que decidirá se continuamos, como espécie ou se nos juntaremos a tantas outras que já vaguearam pela mesma terra, mar e ar que nós.

Teremos a capacidade de encontrar formas de energia alternativa, que permita a este nosso planeta, começar a reparar alguns dos danos?!

E mais importante ainda, teremos a capacidade de ultrapassar as diferenças que nos separam e separaram durante tantos séculos?!

Essa será, talvez, no futuro mais próximo a maior ameaça à nossa continuidade, nesta partícula de pó.

À distância desta imagem, não se veem espécies. Não se veem fronteiras, não se veem cores de pele, religiões ou dinheiro. A esta distância somos todos, sem exceção, um ponto azul, ténue e fraco, à deriva no ruído do silêncio, perdido na infinita escuridão.

Joaquim Ramos, 2016

Fontes:

Wikipédia: https://en.wikipedia.org/wiki/Pale_Blue_Dot. Obtido a 23 de Fevereiro de 2016

Nasa/JPL: PIA00452: Solar System Portrait — Earth as ‘Pale Blue Dot’. Obtido a 23 de Fevereiro de 2016, de photojournal.jpl.nasa.gov através do link: http://photojournal.jpl.nasa.gov/catalog/PIA00452

Nasa/JPL: Voyager: The Interstellar Mission. Obtido a 23 de Fevereiro de 2016, de voyager.jpl.nasa.gov através do link: http://voyager.jpl.nasa.gov

Nasa/Goddard Space Flight Center: The Cosmic Distance Scale.Obtido a 21 de Fevereiro de 2016, de imagine.gsfc.nasa.gov através do link: http://imagine.gsfc.nasa.gov/features/cosmic/earth_info.html

Discurso de Carl Sagan, no Youtube, no canal de CarlSaganPortal, através do link: https://www.youtube.com/watch?v=wupToqz1e2g