A bicicleta furtada — sob a perspectiva da PM

(Uma história verídica)

(Fila Única em um sistema que não permite desentendimento)

Fui aos Correios enviar algumas cartas e um postal. Naquela noite sonhei que estava preso, acordei rindo, com a graça da viagem e da técnica de acordar em algum sonho ruim. Mas eu sonhei de verdade, só não esperava a ocorrência:

Dona Sonir me emprestou a bicicleta do Zaga para que eu chegasse em tempo na agência aberta, já era quase fim de tarde. A tranca da bicicleta estava um pouco enferrujada e indiquei o óleo de cozinha, com a falta do óleo de máquina.

Vi uma pena branquinha pelo chão e enfiei no envelope pra família do Rodrigo, em Niterói. {A pena me renderia uma pressão na nuca.}. Fui de bicicleta até o calçadão do centro, na Avenida Getúlio Vargas. Parei na esquina com a visão embaçada da miopia e resolvi perguntar para a moça que fiscalizava as vagas. Indicou-me o final da rua e segui.

Entrei na fila 16:33.

16:49 fui atendido no Guichê 05. Mas na hora de malotar as correspondências, simples, a atendente notou um objeto no envelope. Quando é assim eu coloco os pequenos suvenires da viagem entre a dobradura do papel para passar despercebido, mas não o fiz e a moça percebeu. Desisti de enviar aquele envelope e coloquei no bolso esquerdo da bermuda xadrez que usava ,uma doação feita em Joinville. Quando retornei pra pegar a bicicleta a chave não entrava mais, tentei, tentei e tentei… Fui até o chaveiro e ele me emprestou um alicate.

Na tentativa veio um rapaz da rua e começou a me ajudar. Parei olhei no fundo do olho dele e contei a situação. Ele chegou com tanta gana que imaginei que teria uma técnica, que, rapidamente, abriria, mas não. Ficamos ali conversando e tentando abrir.

Até que, obviamente, chegou a PM. Um casal. Parei e aguardei ele, vindo do banco do carona, chegar. Aí foi aquele festival de pergunta, como se ele tivesse idade de cabeça reduzida e colocasse todas para estourar com o milho na pipoqueira. Respondi todas muito rápido, mas respondi, com honestidade, que a bicicleta não era minha, disse meu nome, de Dona Ivone (a mãe questionada por ele) e de Dona Sonir;- a dona da bicicleta. Me mediu com os olhos e tirou rapidamente do bolso esquerdo o envelope que havia desistido, minutos antes, de enviar pelo correio. Até ali estava calmo e tranquilo. No instinto por presar a escrita raptei da mão do policial o envelope e joguei os papéis no chão…joguei tudo no chão. Ele me olhou furioso e perguntou:

“Você está maluco?”
“Eu sou maluco, “meu parceiro”. O papel estava no meu bolso e você tirou!”
“Eu estou educadamente falando com você!” — crescendo a voz

“Se fosse educado teria pedido pra eu te mostrar…” — me arrependi por um lapso da resposta.

De repente ele me empurrou e falou pra encostar na parede. Perdi um chinelo, senti a nuca arder. Mas tirei tudo do bolso e deixei o pano pra fora. Abri as pernas — descalço e pus as mãos na parede da agência dos Correios que naquela altura já tinha fechado.

-“Não vai achar nada.” — disse com sorriso catimbau de cara com a parede.

Aqui a palavra nada tem um sentido específico. Ele só queria que eu estivesse errado, se fosse me levar pra delegacia…que levasse por algo “errado” pra não entrar nas estatísticas falsas e rasurar o boletim na frente da delegada ou do inspetor.

Ele desistiu da “averiguação” e percebi que as lojas todas do calçadão assistiam o possível furto do envelope que fechava carta aos amigos de Niterói, inclusive, observava a cena Getúlio Vargas — o tal ditador. Lembrei do rapaz da rua, mas já tinha ido.

Eles cruzaram os braços e disseram que iam me dar uma chance. Aí o rádio tocou alertando que minha mãe não constava no registro deles.

-“Vocês estão procurando quem, afinal?” — pensei que aquele sistema só poderia ser burro.
-“Dona Ivone não mora aqui!” — relatei sério.

Perguntaram de onde eu era, se eu sempre carregava um alicate comigo, até implicaram com a miopia. O celular que eu uso não funciona mais pra ligação e não consegui ligar pra ninguém. A loja de sapatos inteira cruzava os braços esperando que eu assumisse o furto.

-“Então vamos pra delegacia…” — disse a policial.

Eu tava pouco me lixando de ir pra delegacia, minha ficha não é suja e eu não estava furtando a bicicleta, ia ficar o tempo necessário para Dona Sonir voltar da pedalada que tinha ido fazer (pensei que poderia até declamar uns poemas na sala de espera). Aí perguntaram o que ela fazia… Imagino que eles acharam que eu era ou fofoqueiro ou “aviãozinho” pra saber da vida de todo mundo, mas fui pontual: “Aposentada”.

Descrevi toda a cena, com os horários comprovados na notinha do envio das cartas…até da fila do correio, e lembrei da moça que cuidava do estacionamento na rua.

De repente ela virou a esquina, mas não sabia se era, realmente,ela. Aí a policial com voz de não acreditar em mim, nem em nada que pudesse ser verdade disse:

“E você não reconhece ela?”

“Não senhora, sou míope! Sonhei que fui preso hoje…”

Eles se olharam desacreditados de estarem ali, no calor do verão, tendo que interrogar um desregulado de tranca enferrujada na mão. Com muito mal humor ela disse que seria a ultima pessoa com quem conversaria pra não me levar pra delegacia. [Como se ali fosse o purgatório, e, ela, assistente de São Pedro, com o molho de chaves na mão]. Enquanto isso veio um rapaz falar com o policial e ele ofereceu um carro a venda, com kit gás, revisado, ar, novinho… “zero bala”. Eu relaxei e aceitei que iria pra delegacia acompanhado da bicicleta verde-musgo. Mas imagino, agora, que eles queriam me apertar até o final… e me tacar no pátio do inferno.

A moça atravessou a rua e disse que conversou comigo, minutos atrás. Que eu estava de bicicleta, sim. Antes de partir o policial assoprou baixinho:

“Recebemos dez ligações…Sabe como é né? Tempos difíceis…tem que andar na linha!”

Todos continuavam me olhando… Mas passei como se fosse uma rainha com um colar de perolas e esmeralda, em um pomposo cavalo musculoso pela Avenida Getúlio Vargas, segurando a corrente cortada. Segurando a prova que me esconde dentro de um sistema e uma caixa blindada.

Araranguá não é mais a mesma, as cores mudaram. A farda dos policiais ofuscou mais ainda a miopia.

(De pouco adianta identidade quando o mundo é avesso)

PS: Queria saber o nome do policial pra estampar aqui, da mesma forma que ele estampou a mão na minha nuca.