A escritora e o livreiro

Não passaram de três os encontros com a escritora, dizia-se amadora. Era uma espécie de locutora de palavra imaginária. Parava quando ela iniciava uma narrativa na bolsa a tira-colo. Jogamos em um tabuleiro da biblioteca, a primeira vez ofegantes e inseguros — depois da caminhada mais tranquilos.

A cada paço ela afirmava outra história de outro livro. Escolhia os cigarros pelo tamanho da força, acabara de aprender a fumar palavras.

Pelo que eu entendi ela dormia pouco e gostava muito de chá. Demorei a compreender nossas conversas; no balanço da praça.

Quando anunciei a partida achei que ela não me levou muito a sério. Virou as costas para o andarilho ao mesmo tempo que disse:

“Vivendo e aprendendo a jogar…”

Não sei porque mas a frase ecoou com força na minha cabeça, como muitas outras que falava de direito autoral. Assisti ela fechar o portão e parti. Entendendo a justificativa dos andarilhos e vira-lata não olharem pra trás nas despedidas. Pois permanecem a espera da melhor hora de encaminhar rumo, depois disso não se viram mais. Cuidado, pelas vezes, ao virar as costas -pode ser uma andarilho!

(os tacos da biblioteca pública do Estado)

Estava despido, entregue ao caminho. Dormi mal, sonhando que errava pelas ruas da capital (…) acordei cedo e não fui capaz nem se quer de deixar um bilhete. Bati a porta e ela se fechou.

Na rua encontrei o livreiro, escrevia mas se contentava em ser livreiro. Nasceu em Divinópolis e viajou o Brasil. Tomamos um café na Rooseveld, enquanto eu narrava Mario Quintana, um rapaz perguntou sobre o mapa do bairro:

- Sabem o nome dessa rua?

Gargalhamos nosso encontro, afinal achei, no centro da cidade, o primeiro llivreiro do instituto onde estudei em Niterói. Tinha as pálpebras pesadas de um acidente e sabia a grande distância entre as pessoas.

Entreguei Adélia ao livreiro e caminhamos por Navegantes. O senhor tinha um jeito curioso de andar pelas ruas, idêntico ao da escritora. No meio da rua, passos largados de pensamentos fundos; com fundamentos. Ele tinha a minha idade no futuro e me fez ouvir a escritora;-míope.

De repente coloquei as meias, as botinas e afirmei partida. Ele desentendeu tudo.

Interrompi sua fala e pedi que me compreendesse — não queria que ele virasse as costas pra mim. Queria zarpar — sumir da cidade que me fantasiava vozes e personagens, num cenário delicioso.

(o livreiro atravessando a Avenida Brasil)

Na ponte sobre o Guaíba — sem acostamento — com o vácuo dos caminhões veio um ardido me fazendo chorar. Ivone Lorota Anti-PT me fitava raivosa e ordenava:

- Engole a merda desse choro!

Com a pressão dos automóveis tentei obedecer e foi aí que lembrei de todo o carinho que toda gente me fez. Não parei com as lágrimas mas engoli o choro.