Pra ver a banda cantar, passando coisas de amor

Saímos pra passear pelo mundo, pra aprender a palavra dita. Saímos pra ouvir o mundo falar e, deixar de ouvir o que os poderosos falam do mundo. 
Cremos que muitos nem saibam que partimos sem despedida, e que troquei o nome da minha identidade.

O primeiro destino traçado com antecedência foi Buenos Aires. Curiosamente antes de partir um ciclista argentino (Maximo Gorosito) foi morto em uma das avenidas que eu circulavamos bastante; na cidade que nos expulsou — Avenina Suburbana. Atropelado por um ônibus!

Ficamos muito sentidos pela simbologia daquilo que envolveu outros ciclistas da cidade e a família do rapaz assassinado de forma brutal. Ele fez essa pernada três vezes se não me engano (veio, foi e veio) de bicicleta da Argentina para o Brasil.

Até aqui, ao longo desse curto trajeto de aproximadamente pedalando uma bicicleta-esperança de tração leve e corpo pesado percebemos muitas coisas, inclusive que poderíamos voltar pra casa, pois as histórias que chegaram no pequeno período de viagem eram tão fantásticas pensamos nisso;- no retorno do próximo acesso. Mas descobrimos que a nossa casa era o nosso próprio corpo — um templo.

Chega a ser engraçado esses causos. Porque pensamos que não é possível dilatar ainda mais a alegria de conhecer histórias, grandiosamente, fantásticas que temos guardado em um caderninho, notas e rascunhos de papel de pão, afinal nos programamos pra gastar todo o dinheiro antes de partir pelas estradas. E o papel as vezes se torna escasso com tantos contos que a rádio do mundo narra.

Foi o caso desse menino, que batizamos de Gui Arrastão, amigo do Beira Mar outra criança de Paraty, que nos hospedou em sua casa e nos acolheu com muito amor e carinho, sabendo da Cicloteca e da viagem pela América Latina -que ainda não é latina, nem nacional…afinal tem pouco tempo que cruzamos a divisa do Rio com São Paulo.

Gui Arrastão toca trompa, mora na Ilha das Cobras — periferia de Paraty. Fomos acompanhar a Folia de São Benedito, um cortejo que a Banda Municipal da cidade reveza música com os cirandeiros durante o percurso, levando a bandeira de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Mendigam, ainda, uns trocados.

Gostamos dos encontros não marcados por causa disso, a potência que uma história tem em nos deixar embasbacados!

Seguimos retratando o cortejo e quando chegamos em uma esquina assistimos um menino com um instrumento esperando a banda passar e o andar desengonçado. Ele estava acompanhado por uma senhora com a camisa da Folia, que, na hora, carregava uma muleta. O menino arrastava a perna direita e deixou uma curiosidade no ar. Perguntamos pra senhora o que tinha acontecido e ela respondeu muito orgulhosa:

“Hoje é o primeiro dia que ele voltou a tocar com a banda! Completou 8 meses que ele foi atropelado!”

Nosso coração deu um pulo e precisamos ficar solo, olhar a força que o Gui carregava no seu sopro. No final do cortejo tiramos uma foto do menino carregando com a mão esquerda a trompa e com o braço direito se equilibrava na muleta. Abri a lente pra registrar a placa de trânsito. Não era, exatamente, essa foto que gostaríamos de mostrar. Porque nessa foto ele ficou pra trás dos músicos, sua perna ficou pesada. A platina ainda está sendo reconhecida pelo seu corpo e não é esse momento que desejamos compartilhar.

O motorista que atropelou o Gui Arrastão levou um pedaço do sorriso do menino, levou uma porção da grande quantidade de correria que brincaria o menino na cidade - do chão de pé de moleque.

A procissão chegou então na igreja e o menino estava suando um esforço pra ficar perto do maestro da banda e todos os adultos da composição.

OREMOS: Quando você for conversar com Deus peça para muito além das crianças se safarem de acidentes com livramento divino. Rogue também pra velocidade das nossas vidas diminuir, mas por favor, sem muletas e anti-corpos de metal, sem lágrima de acidente no sorriso das crianças, sem atropelar uma vida; que agora arrasta na memória a dor da pressa.

Viva São Benedito e Gui Arrastão!

Viva!