A irreparável dor em meu coração perdidamente apaixonado e sozinho, essa, apenas tornou-se reparável quando finalmente comecei a acreditar que algum belo dia, você, ó meu bem, retornaria do outro mundo de volta para a minha vida. E mesmo que não volte, a esperança que cultivei tão bem como Deméter quanto ao seu regresso em um belo fim de tarde, é o que ainda faz-me sentir isto. Ouça bem, eu francamente não sei dizer o que sinto de verdade quando estou com você. Apenas sei que simplesmente sinto. E como sinto! Sinto o meu coração estremer e o peito doer. Minhas pernas amolecem ao te ver andando em meu encontro. Quando enxergo-te, uma indescritível sensação de conforto e satisfação inundam o meu peito. E meus olhos, que embora sejam pequenos, conseguem ver por através e muito além da sua beleza.
Quando nos apaixonamos ficamos a mercê de uma bifurcação entre a vida ou a morte. Apaixonar-se é escavar duas sepulturas lado-a-lado, desejar morrer primeiro e acordar antes ao além da vida, só para ter o prazer de receber-te de braços abertos. É a sensualidade, magia e luxúria que tomam posse do teu corpo transformando-te em Freya. É miragem de verão onde mato da minha sede desperdiçando saliva ao fazer-te promessas de amor. É encarar o fundo do poço na beirada da sacada mais alta, da torre mais alta, pronta para atirar-me, tomada por um desejo incontrolável de perder-me em queda para me encontrar no acalento dos teus abraços. É desacreditar de todas as minhas superstições astrológicas, do meu sol em capricórnio, da minha ascendência em áries e passar a crer que a minha Vênus é regida por nada mais nada menos que, apenas por ti. E não pela Deusa casamenteira, Hera de aquário. É esforçar-me para tentar parecer tão perfeita quanto aos teus olhos, mas acabar entregando-me às circunstâncias do meu frágil corpo. Uma boca que gagueja e fala baixo por timidez, que lambe e mordisca os próprios lábios. É fraquejar e enfraquecer-me diante a uma guerra mesmo que eu fosse Atena, ou, conformar-me com a derrota vestida em pele de Nice. Apaixonar-se, meu bem, é conseguir ligar as terras aqui abaixo com os ares. É levar todas as fases da maré aos céus, viver e mover-se com a graça e leveza dos ventos ao seu favor tão bem quanto Ísis fazia, desde a profundeza dos sete mares até as profundezas dos mundos subterrâneos de Hades. É permanecer-se vivaz e arrebatar a morte na presença de Thanatos. É ser para a morte, o seu par perfeito, a boa-morte. É transformar-me em Macária e jurar promessas de amor que jamais serão concretizadas sobre o Rio Estige. É trazer-te até meus entre-laços da morte, com toda doçura do meu amor. O meu amor de Macária.
