Silêncio

Rafaela Oliveira
Jul 30, 2017 · 3 min read

Insano aquele que ousa falar de sobrevivência sem antes se encontrar com a morte.

O que se espera de um filme de guerra é a emoção. O medo estampado na feição de cada combatente, o suspiro pesado sem a certeza se será o último. Medo, paralisia, a capacidade da mente em condensar uma vida inteira em questão de segundos — os últimos que se têm.

Barulho, sangue. O olhar trêmulo daquele que transpira frio, sente na pele o desejo de se agarrar à vida. Por vezes, sem saber o porquê. Não são pessoas afortunadas e por muitas vezes, o motivo que os levou pra batalha foi a simples incerteza, a simples falta de razão. Mesmo assim, se agarram. Se prendem à certeza de que se a vida for o único bem que possuem, não estão dispostos a se desfazer dele.

Dunkirk não é sobre isso. Sim, guerra. Mas não a faceta da explosão e do sangue correndo rápido, correndo frio. É um filme sobre a certeza de que a morte está à centésimos de distância, e que ela vem. É um filme sobre a certeza de que o silêncio corta, e que ele dura.

Insano aquele que ousa não valorizar o tumulto sem antes ser cortado pelo silêncio.

No filme, soldados britânicos e franceses se encontram encurralados na ilha de Dunkirk sendo atacados pelo inimigo por terra e pelo ar. A esperança encontra-se no mar: desesperados, fitam o horizonte esperando avistar o barco, avistar suas casas. Os poucos que conseguem embarcar, estão sendo atacados e encontram a morte antes mesmo de pensarem estar salvos.

O perigo encontra-se em todos os lados e esse sentimento de medo, confunde-se com a fina e fraca esperança de voltar pra casa. A história é abordada por três perspectivas: o molhe, o ar e o mar. Em todos, homens lutam pela sobrevivência e, por vezes, ouvem a morte chegando. Os aviões inimigos tinem, e com eles vêm as bombas. Aos serem avistados, causa tremor e a incerteza do destino gela.

Impossível não prender a respiração. Não se colocar no lugar do outro e se perguntar: “o que faria eu ali, ante a morte, frente a frente com o fim de todas as coisas?”. O medo não é do fim, e sim de vê-lo tão perto e inevitável. Sabemos que a morte é certa desde o primeiro sopro de vida que exalamos. E mesmo assim, não paramos para pensar no quão eminente é o último suspiro. À quem será dirigido o último olhar, quem vai ganhar o último pensamento de “eu te amo”.

Insano aquele que ousa pensar em todos os momentos do caminho sem antes saber onde será o fim.

Penso muito sobre a morte. Em todos os momentos, vejo a possibilidade perto de mim. Assim, acredito ser mais fácil banalizar o sentimento de fim, do findar. Mas ainda temo. Não a morte e sim, o fim de possibilidades. Afinal o que move o ser humano, é a incerteza.

O que faz aqueles soldados se sentirem paralisados e com medo do fim eminente, não é a morte em si — viram a mesma muitas vezes ao longo da vida, viram ali ao seu lado no campo de batalha. O que faz o medo subir a cabeça e fazer com que a pessoa seja completamente fria ante ao que acontece do lado, é o fim da incerteza. A vida é constante incerteza do que vai vir depois, do que vai ser do outro e de si mesmo daqui a minutos.

A incerteza, dessa forma, move. Faz com que o ser humano se deslumbre com a infinidade de possibilidades. Aos que possuem fortuna, a possibilidade de desfrutar mais do que a vida tem de melhor à oferecer. Aos que conhecem apenas a miséria e infelicidade, o deslumbramento, devaneios de que em algum momento, a sorte pode mudar. O lindo da vida, o mais importante que aqueles soldados não querem perder, é a incerteza que guarda possibilidades.

Insanidade é o que melhor nos define.

Pessoas que se prendem à falta de segurança e à mera incerteza, pelo simples prazer de se perder em devaneios de um futuro melhor. De uma vida com propósito, com razão. Com tudo aquilo que se quis mas não se conquistou até o momento do último suspiro. Os soldados tinham motivo para temer o som da avião carregando as bombas, o fim. E não era a morte: era o fim da incerteza, pois a morte é certa, findadora. Assim, a vida vivida até o momento do último suspiro, seria a única coisa da qual recordariam aqueles que ficam.

O que ficará quando você se for?

Música: “Sorrow”, Pink Floyd.