À Literatura, Parte I: Endoparasitus Littera

Escrever é uma força perigosa ela te rouba do mundo, te rouba de tudo. Nada é importante, só escrever.

Quando se escreve a realidade não é importante.

O ar-condicionado nem esquenta e nem resfria. Tanto faz. Escrever vai me fazer zerar a planilha. 
 O sapato apertado que ontem era uma tortura, desaparece quando a caneta encosta no papel. 
 As contas podem vencer. As cartas e os jornais acumulam por de baixo da porta. Batem palma, tocam a campainha e berram. Vão embora. Mas você sempre saiu atendê-los apenas 4 horas depois e eles já não estavam lá. Eles deveriam entender e esperar, oras você estava escrevendo.

Ligações?
 Você atende as importantes e se esquece logo depois do que se tratava ou quem era.

“Alô Amor, você pegou as crianças? ”

>>>>>>Modo Automático de Respostas ao Escrever: Ativado.

>>>>>>Identificando…..
 >>>>>>Identificação realizada com sucesso.
 >>>>>>Sua Mulher. Grupo: Família. Nível de Periculosidade: Alto. 
 >>>>>>Resposta Padrão: Claro Amor.

“Claro Amor”

Mas não, você não pegou as crianças. A escola te ligou 12 x e foi 12 x por você ignorada, afinal você não conhecia o número. Sua sogra os buscou. Isso é displicência? Não! Isso é escrever. 
 Os cães latem e são envenenados por ladrões que levam todos os seus eletrônicos, dinheiro e roupa do corpo, você pede ao menos para deixarem papel e caneta. Você fica de cueca, porém orgulhosamente escrevendo. A comida esfria. O café? Jamais. O café desce quente mesmo que você tenha gastrite. Ratos e baratas circulam seus pés, sobem em suas pernas, mordiscam. Todos os mosquitos te picam e você não coça ou coça até sangrar, mas não percebe.

Escrever é mais nocivo do que cigarro, do que o absinto e do que aquela Mulher de vestido preto. Se você é masoquista, escreva. Escrever é um câncer na mente. As letras são vermes que cavoucam de dentro pra fora e saem gordinhos e cheios de vida após se alimentarem da podridão interna. Escrever é um parto, dói, mas se está feliz porque deu à luz, a própria vida saiu de dentro de ti.

Escrever é a necessidade de estar só em uma sala cheia de gente que graças a deus nem se lembra que você está ali. Escrever é uma camisa de força. Escrever é um hospício, escrever é um quarto acolchoado, todo branco. Escrever te deixa são. Escrever é estar numa prisão e você mata o companheiro de cela só pra ir para a solitária. Lá você tem a solidão almejada para escrever nem que seja com as próprias fezes na parede. Escrever te faz livre. Te faz saltar do abismo de olhos bem abertos.

Deus não existe se você escreve. Ou melhor você é deus. É onisciente, onipotente, onipresente. Único. Insipido, inodoro e incolor. Transborda evapora chove. Transborda evapora chove. Transborda evapora, chove. É cíclico e sempre se renova. Escrever é ser possuído por um demônio. É estar rodeado por anjos. Querubins, serafins, arcanjos, toda uma legião.

A escrita é a sua única amiga. Sua única família. Sua única amada. A escrita te negará 3 vezes antes do galo cantar e te entregará ao seu inimigo por 30 moedas de prata, não sem antes te dar um beijo na face. Você é um cão, animal irracional, que nunca entenderá e nem refletirá por que ama tanto seu dono e abana o rabo para demonstrar isso. 
 A escrita te permiti mutilar pessoas, matar um ser ou toda uma cidade. 
 Você pode começar e termina quantos relacionamentos quiser sem se envolver de verdade, sem se ferir. Neste sentido é um alívio, um porto seguro aos que não querem nunca dar a cara à tapa.

Os ponteiros do relógio estão travados ou acelerados? Não importa quando escrevo. Escrever é autodestruir-me é fragmentar-me a cada página. Escrever é ver meu sangue saindo pela caneta. É carimbar minha alma no papel. A coluna pode curva-se a ponto de quebrar por cima da mesa. Pode a sede secar todo o organismo. O estômago pode autodigerir-se de tanta fome. A dor de barriga quase incomoda. As flatulências ficam livres para quem quiser cheirá-las. A merda sai e a urina escorre entre as penas. 
 Escrever é perigoso; penso no dia que nesta perigosa distração me esquecerei de respirar, o coração já desatento cessará seus batimentos. E só o cérebro fazendo a mão cadavérica do corpo de um morto-vivo ainda funcionar incessante até as últimas palavras serem postas no branco quase como um aviso:

“ESCREVER ME MATOU. ”

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