Bolsonaro por Walter Benjamin e Carl Schmitt

Raphael Rigoni
Sep 4, 2018 · 8 min read

I.

É notável e compreensivo que momentos de crise tragam à tona os mais extremistas atos políticos, mesmo a revolução francesa com seus slogans de Liberdade, Igualdade e Fraternidade acabou dando origem ao Terror de Robbespierre[1]. Os períodos de crise decerto são suficientes para a ascensão de líderes populistas, sejam eles de esquerda ou de direita, como no Chile, onde a situação política da década de 60 e 70 viu um presidente da esquerda, do centro e da direita, além de um ditador qual a agencia de inteligência foi apelidada de “Gestapo Chilena”[2]. O Brasil atual não se vê menos propenso a tais atos. Nele vemos uma grande ascensão de movimentos de direita favoráveis ao retorno da ditadura e representados na figura do político Jair Bolsonaro. Mas, o que faz com que principalmente a partir do século XX governos extremistas apareçam pelo mundo e por que seus efeitos ecoam até hoje? Em A Obra de Arte Na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica Walter Benjamin vai argumentar que:

“A metamorfose do modo de exposição pela técnica de produção é visível também na política. A crise da democratização pode ser interpretada como utopia crise nas condições de exposição do político profissional. As democracias expõem o político de forma imediata, em pessoa, diante de certos representantes(…)O rádio e o cinema não modificam apenas a função do intérprete profissional, mas também a função de quem se representa a si mesmo diante desses dois veículos de comunicação, como é o caso do político. Esse fenômeno determina um novo processo de seleção, uma seleção diante do aparelho, do qual emergem, como vencedores, o campeão, o astro e o ditador. ” Walter Benjamin –A Obra de Arte Na Era De Sua Reprodutibilidade Técnica Exposição Perante a Massa

A partir desse trecho pode-se dizer que o político profissional, faz uso das inovações tecnológicas para difundir seus ideais e isso seria especialmente danoso em períodos de crises democráticas, uma vez que dentro do sistema que Benjamin analisa, a arte como produto, essa situação alavancaria um populista ao estado de um astro, de um mito. Assim podendo notar a relação do Fascismo e do Capitalismo na criação de uma técnica de imagem, Benjamin argumenta que o fascismo tem por objetivo organizar essa massa de trabalhadores sem necessariamente alterar a norma corrente de sociedade. Seja por meio de desfiles, comícios ou outras gravações os objetivos são os mesmos, a ligação do movimento com as massas[3]. Citando Parandello, Benjamin dirá que a representação do homem perante o aparelho transforma a alienação em algo criador. Ela seria a mesma reação perante as massas da sua visão diante a um espelho, só que destacável e transportável a uma medida que ela possa ser vista pelo maior número de indivíduos possível. Assim, seria papel do interprete saber que sua relação é simbiótica com a massa[4].

Podemos ver semelhante pensamento surgindo de Pierre Bourdieu em Poder Simbólico quando diz que os símbolos são instrumentos de integração social formando um consenso de mundo que reproduz determinada ordem social. Partido de uma abordagem marxista de função política o autor ainda fala do papel da cultura dominante para integração de classes, mesmo que distinguindo os primeiros do restante, que através da cultura ideológica é capaz de unir com intermédio de comunicação e alienação (Falsa consciência) uma legitimação de ordem hierárquica, mas que também separa, legitimando as diferenças e compelindo que elas se pareçam com a cultura dominante[5]. Nas palavras de Bourdieu “A classe dominante é o lugar de uma luta pela hierarquia dos princípios de hierarquização: As frações dominantes, cujo o poder assenta no capital econômico, tem em vista impor a legitimidade de sua dominação por meio da produção simbólica” (BOURDIEU, 2007. P.12).

As classes dominantes podem alterar de país para país, de terratenentes, expressivos principalmente na América espanhola, passando por oligarquias urbanas industriais chegando até mesmo em Estados que dizem ser proletários. Não existe uma homogeneidade para o Poder, a não ser que ele representa o político e por consequência o Estado. O político é o Estado[6]. Em Schmitt, a diferenciação do poder é dialética, relação amigo-inimigo. Uma relação autônoma, que define a base da política. Essa relação pode ser observada também como poder e oposição, uma vez que uma das partes da dialética, amigo ou inimigo, vai possuir maior apoio popular que o outro. O inimigo é simplesmente o outro desconhecido, aquele que basta a existência para se diferenciar, entretanto como a relação existe no caráter político, ela não é expressa em termos econômicos ou individuais, mas sim se expressa em vantagens políticas, das quais alianças entre plataformas diferentes, como esquerda e direita, são os melhores exemplos.

Desse princípio, Schmitt continua dizendo que o Estado, monopólio do poder político, concentrou em si o direito a guerra, dessa forma, o direito de mandar sobre o corpo do outro. Surgindo daí uma dupla possibilidade: Exigir do próprio povo a prontidão de morrer e a de matar. Indo além, o autor ainda diz que em seu desempenho normal é papel do Estado ser o mantenedor da “tranquilidade, segurança e ordem”. Essas capazes de criar normas jurídicas de eficácia absoluta[7]. Em outras palavras, o Estado através de um Jus Belli tem a decisão de guerra, caso o inimigo paire o estado. Isso, entretanto, não impede situações excepcionais quando o inimigo é encontrado dentro dos limites do Estado, nesse contexto a “guerra” assume outra forma, mas ainda é regida por um conceito de normalidade e ordem, dizendo “Em situações críticas, esta necessidade de pacificação intra-estatal leva a que o Estado, como unidade política, enquanto existir, também determine, por si mesmo, o “inimigo interno”. ” (SCHMITT, 2008).

Não é à toa que os textos de Schmitt foram, e ainda são, as bases do entendimento de um Estado de Exceção, pois segundo ele mesmo a democracia “pode excluir uma parte da população dominada pelo Estado, sem deixar de ser democracia” (Schmitt, 1996a)” . A relação do amigo e do inimigo e a homogeneização do Estado fazem parte de seus escritos. E A partir dessas três diferentes concepções, serão buscados os entendimentos e os alvos (amigo-inimigo) do discurso político de Jair Bolsonaro no Roda Viva.

II

Ao ser questionado no programa Roda Viva, do dia 30 de Julho de 2018[8], sobre qual gostaria que fosse sua marca de governo caso eleito, Jair Bolsonaro responde “Um redirecionamento do brasil no tocante da sua política, nós cansamos da esquerda, queremos um Brasil Liberal (…) que respeite as famílias (…), jogue pesado contra o MST e melhore seu comercio com países melhores que nós”. E seguidamente ao ser indagado ao homenagear o General Ulstra, responde “Naquele momento o mundo vivia um clima bastante complexo (…) E esse pessoal que se “diz” torturado (…) o dizem para conseguir indenizações, piedade, votos e poder(…) Se tivéssemos perdido a guerra naquele momento, hoje com toda certeza seriamos uma Cuba”. Essas duas afirmações ocorrem com menos de cinco minutos de entrevista e demonstram claramente o posicionamento ideológico do candidato.

Entretanto, cabe analisar não só o que foi dito, mas também, o que isso representa. Além de uma cegueira da realidade, o conteúdo ideológico do candidato é alinhado à direita liberal, ele reconhece o Brasil como um país de segunda classe, que deveria se alinhar “aos países melhores que ele”, ou seja, os países do centro econômico liberal. Além de justificar as torturas, e relacionar a situação do país nas décadas de 60 a 80 como um período de guerra. Historicamente, sua figura se assemelharia a de Pinochet[9]. Retornando ao aporte teórico, o período de crise política e econômica brasileira foram o terreno fértil para ascensão de radicalismos, a internet e a TV, ainda muito recente nos tempos de Benjamin, representaram a fusão do rádio e do Cinema, presentes em cada residência como o primeiro e ao mesmo tempo contem a ação das imagens do cinema. Elas também se tornaram aparelhos. Dessa forma, a representação do candidato não é simplesmente da pessoa, mas de uma estrela, de uma figura pública. Alguém capaz de agir de “espelho” da um comum que assiste de sua residência[10]. Essa massa de telespectadores é levada a uma falsa consciência dos problemas reais do Brasil, através de uma figuração de um “inimigo vermelho”. Inimigo, necessariamente também nas palavras de Schmitt.

O discurso de Bolsonaro é claramente um discurso de “nós” e “eles”, um discurso de diferenciação. A culpabilização dos grupos terroristas e o brando tratamento ao terrorismo de Estado da ditadura são recorrentes não só nessa entrevista, mas uma faceta de anos. Nesse sentido podemos olhar Schmitt quando diz: “a diferenciação entre amigos e inimigo tem o propósito de caracterizar o extremo grau de intensidade de uma união ou separação, de uma associação ou dissociação, podendo existir na teoria e na prática, sem que, simultaneamente, tenham que ser empregadas todas aquelas diferenciações morais, estéticas, econômicas e outras. O inimigo político não precisa ser moralmente mau, não precisa ser esteticamente feio. Ele é o outro (Schmitt, 2008). Em outras palavras, a relação Amigo-Inimigo, é o nível máximo de aproximação ou distancia política, ele não é necessariamente real, baseado em critérios morais, ele simplesmente representa outro ponto dialético de uma mesma realidade. Isso é extremamente relevante na situação política do Brasil, uma vez que ela parece estar dividida em termos Schmittianos, onde “Tucano” e “Petista” se tornaram xingamentos.

A ascensão e a crise política no Brasil atingiram ápices muito devido ao amplo aparelho de reprodução de notícias. Se Benjamin observava uma civilização de rádio e cinema. Hoje em dia a internet comporta tantos os dois citados, como também a TV, os jornais e outros meios de comunicação, sem que necessariamente os substitua. Em outras palavras, a capacidade de propaganda em tempos atuais é maior do que ela jamais foi. E sem ela seria impossível analisar como Jair Bolsonaro chegou e a maneira com que ele chegou.

O candidato não teve uma ascensão como a de Allende, de deputado, para senador, para finalmente presidente, tampouco surge de um golpe como Pinochet. Até a candidatura à presidência, Bolsonaro era conhecido por suas opiniões controvérsias, essas que recebiam grande atenção da mídia. E que somente através delas ele poderia chegar ao estágio que chegou, em 27 anos de congresso Bolsonaro só conta com dois processos de sua autoria aprovados, mesmo com a média de 6,5 projetos por ano de mandato[11]. Ele não possui uma boa retorica, como é o caso de alguns populistas, nem mesmo um diverso conhecimento político, muito menos possui alianças com os demais centros de poder. Ele parece ser mais o produto de uma mídia, que mesmo acidentalmente achou um bastião para as ideias mais controvérsias da elite brasileira, que antes de sua ascensão não possuíam representante.

[1]https://www.britannica.com/event/Reign-of-Terror

[2] WINN, Peter. A Revolução Chilena. 1º. ed. São Paulo, Editora Unesp, 2010.

[3] BENJAMIN, W. A Obra De Arte Na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica. Estética da guerra

[4] BENJAMIN, op. Cit. O intérprete cinematográfico

[5] BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. 11° ed. Rio De Janeiro , Bertrand Brasil,2007 P.10–11

[6] “The concept of state presupposes the concept of the political”. Carl Schmitt, (2007, P.19).

[7] Da Silva, F. A Destruição do Inimigo Inomado: Uma Interpretação do Político em Carl Schmitt. Revista de la Facultad de Derecho (Facultad de Derecho — Universidad de La Republica — Uruguay), №43, jul.-dic. 2017, 259–286

[8] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lDL59dkeTi0

[9] WINN. Op. Cit. 182–191.

[10] BENJAMIN, op. Cit. O intérprete cinematográfico

[11] Bolsonaro aprova dois projetos em 26 anos de Congresso. Estadão, São Paulo, 23 Jul.. 2017. disponível em: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-aprova-dois-projetos-em-26-anos-de-congresso,70001900653

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