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Por séculos, Jesus Cristo Crucificado era seu passaporte pelo mundo medieval, em tempos de guerras santas e fé cega, além de dialetos, línguas e culturas, a religião separava as pessoas. E por menos que soubessem, carregavam consigo de uma maneira ou de outra traços da corrente grega do Estoicismo, esse a visão mais relevante por romanos de todo o império e que, segundo Bruno Bauer, daria as bases para o cristianismo. A corrente difundida defendia acima de tudo, a vida da natureza, o desapego, um eu desprendido de bens materiais, o sábio é feliz mesmo no sofrimento, não carregar consigo os vícios, esse que são considerados o mal. Um dos maiores expoentes da corrente foi o imperador romano Marco Aurélio, sobre a corrente escreve o livro Meditações.

Da época em que imperadores eram mais próximos a deuses do que a homens, tal pensamento seria transmitido como uma regra não imposta, os homens e mulheres de todo o canto do império, sentiriam-se felizes a seguir os passos de tal divindade. Claramente existem diferenças entre as correntes estoicas e cristãs, mas as influências éticas da primeira reverberam na sociedade ocidental até hoje. Quando Deus manda seu único filho a terra, esse nasce junto aos animais, cresce em uma família pobre, por toda sua vida é considerado o mais sábio, desde jovem em discussões com mestres até seus últimos dias de vida. Jesus pregou a pobreza e além de tudo, era um sábio. Por muito, um sábio estoico, um sábio que vivia com o pouco e que mesmo crucificado profere “Pai perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem”.

Ser um estoico, passou a ser parte fundamental em se ser um romano, a corrente era exibida entre os patrícios e seguida por imperadores, como a burguesia exibia a Belle Époque na França da virada do século XIX para o XX. Assim, cada vez ela se enraizava na cultura romana. Com a rápida ascensão do cristianismo, trechos da bíblia como “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Trecho sobre o pagamento dos impostos e “Jesus, olhando-o, disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Pois mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus”. Logo seriam apropriados pelos romanos para o apaziguamento do seu começo de decadência imperial, uma vez que semelhantes ideais já fossem difundidos anteriormente.

A queda do Império Romano do Ocidente, representa um cessamento nas discussões de culturas greco-romanas, que só voltariam mil anos depois no renascentismo. Mas não representa o fim do cristianismo, muito pelo contrario, dos reis bárbaros que ocupavam as terras do antigo império, todos acabaram por se converter eventualmente ao cristianismo, Francos, Godos, Lombardos, Anglo-Saxões e Vândalos, para citar alguns. E a situação aqui se repete como no Império Romano. A Servidão voluntária, embaixo a um mesmo ideal, como os ricos romanos um dia eram estoicos e depois tornaram-se cristãos, os nobres germânicos eram cristãos e seu povo por consequência também. Os nobres viviam em castelos, caçavam, cobravam impostos, garantiam a expansão do cristianismo em suas terras, curvavam-se perante o Deus onipotente e garantiam que seus súditos fizessem o mesmo. E os súditos? Bem, nessa situação, conformavam-se. Erram os que dizem que essa influencia a de ter acabado junto com o período da penumbra da razão que precedia o iluminismo. Aos poucos a fé e a conformidade foram se alterando, a Fé em Deus, foi aos poucos se reinventando e se adaptando, estando presente até hoje.

Quando na década de 1940, Albert Camus escreve sobre o absurdo, não seria ele uma herança do cristianismo e por consequência do Estoicismo? O homem da sociedade moderna que cegamente leva uma vida de conformidade situacional e que sem pensar, continua sua vida. A fé em Deus, foi trocada pela fé na loteria, fé no trabalho, fé que as coisas podem mudar sem que nada aconteça. O pensamento de Camus, junto a de outros existencialistas confronta diretamente o pensamento cristão da vida cheia de sentidos. E assim o absurdo de Camus poderia ser propriamente dito em uma herança cultural ocidental, um discurso. Que nas palavras de La Boétie:

“e os que vêm depois, nunca tendo conhecido a liberdade, nem mesmo sabendo o que é, servem sem pesar e fazem voluntariamente o que seus pais só haviam feito por imposição. Assim, os homens que nascem sob o jugo, alimentados e criados na servidão, sem olhar mais longe, contentam-se em viver como nasceram” (LA BOÉTIE, 2003, p.43)