Uma análise interna da fundação e dos princípios do Partido Socialista Chileno e a eleição presidencial de 1958


Uma Análise tirada da leitura do Capitulo “O Partido Socialista do Chile” do livro A Dialética de uma Derrota de Carlos Altamirano[1] e do artigo El Efecto de Antonio Zamorano, El Cura de Catapilco, En La derrota de Salvador Allende En La Elección Presidencial de 1958 de Patricio Navia e Ignacio Soto Castro.
A quase cinquenta anos, numa noite de setembro de 1970, milhares de chilenos saiam as ruas das principais cidades do país para comemorar a eleição da Unidade Popular a presidência chilena, liderados pelo partido de esquerda Partido Socialista(PS), a frente ainda contava com a importante participação de socialistas cristãos, originalmente do partido democrata cristão, do Partido Comunista Chileno(PCCH) e de outros partidos de esquerda, no que Allende, o presidenciável, chamava de “união de todas as esquerdas”, antes até então, tirando as ameaças e campanhas de opositores financiadas pelo interesse estrangeiro, pouco se sabia que em outro dia de Setembro em 1973, o presidente seria assassinado por ordens da agencia de inteligência americana. Desde sua fundação no ano de 1933, o PS representava outra visão a dialética materialista, o mais antigo PCCH, estava ligado aos sindicatos e embora uma pequena participação na representação política do país, abrigava em seus setores partes dos obreros e campesinos chilenos, que representavam boa parte da população, o partido ainda estava ligado a terceira internacional e era a ala chilena do partido de Moscou. Diferente deles, os socialistas não acreditavam na ligação do seu partido a qualquer tipo de submissão internacional. Na declaração de seus princípios, aprovada em seu primeiro congresso, ficou estabelecida a luta anti-imperialista com o marxismo como método de análise da realidade, mas, entretanto, também dizia “A classe dominante organiza corpos civis armados e impõe sua própria ditadura com o fim de manter os trabalhadores na miséria e impedir sua emancipação”[2]. Esse pequeno trecho, acima de tudo enfatiza que desde o princípio o PS acreditava na via democrática que ficaria notável nos discursos de seu camarada mais importante o compañero presidente Salvador Allende. Mas afinal de contas, quem tem medo do partido socialista?
Muito antes de 1970, tanto o PS e PCCH eram extremamente ativos politicamente, os partidos de esquerda abrigavam os membros da sociedade que não faziam parte da emergente classe média ou da oligarquia, esses respectivamente divididos entre os partidos de centro e de direita. Os partidos socialistas fizeram parte da coligação da Frente Popular liderado pelo partido de centro Partido Radical(PR), que de 1938 até 1946 foi capaz de eleger três diferentes presidentes. Em uma união liderada pela classe média, mas que, entretanto, seria impossível sem a participação dos trabalhadores chilenos. A aliança se mostraria fraca, tanto na cisão entre as esquerdas, o PS não apoiou a indicação em 1946 do candidato radical-comunista González Videla, tanto nas diferenças de centro e esquerda, Videla seria o presidente vigente na instauração da Ley Maldita, que baniria o Partido comunista chileno de sua atuação política pública, que mesmo ilegal, apoiaria Allende nas próximas eleições em 1952[3].
O PS surge primeiro como um movimento operário, mas aos poucos vai recebendo em suas fileiras revolucionários das mais diversas áreas desde Marxistas-Trotskistas a Anarquistas, passando por sociais democratas e socialistas cristãos, o que faz com que no ano de 1957 seja realizado o Congresso da Unidade, que teve por objetivo sintonizar a esquerda chilena em torno a uma “Frente dos Trabalhadores”[4]. Isso quer dizer uma união da classe operária em âmbito social e político. Remarcando novamente o compromisso do partido com a união de todos os trabalhadores chilenos. Nesse mesmo ano, a conturbada relação socialista-comunista chilena torna-se uma aliança com base na igualdade e respeito a diferenças. No que nas palavras do próprio Altamirano, representou um momento singular, não somente na história chilena, mas também do socialismo mundial, seria esse o primeiro passo para uma união das esquerdas, que levaria a Unidade Popular ao poder no Chile 13 anos depois.
O Partido Comunista começara a perder força na aliança com os Radicais desde a eleição de Videla, que se mostrará anticomunista e buscava desculpas para exclui-los de seu governo. Quando em 1947 após uma visita ao Rio De Janeiro em uma convenção dos Estados Americanos Para Segurança Regional, o então presidente Videla endossara planos norte-americanos de cooperação em uma negociação que excluía o PCCH. Esse novo gabinete instituído por ele começou um programa que incluía um drástico corte de investimentos públicos, medidas contra greves e uma política de preços que aumentaria os custos de vida do chileno médio. As greves lideradas pelo PCCH contra esses atos levariam primeiro a uma política de oposição aos comunistas e subsequentemente banimento de seus atos públicos. A proibição de greves ilegais em 1946, o antigo presidente Ríos reagiu declarando que todo sindicato que promovesse greves não autorizadas no futuro teria sua personalidade jurídica cancelada, e o ostracismo eram combates em duas frentes políticas, na via pública continha o avanço das ideias de esquerda na população rural e urbana, as constantes greves levavam cada vez mais chilenos aos partidos de esquerda, que lutavam pela independência do país ante interesses capitalistas e na via política, eliminava o principal partido da esquerda da participação ativa nos rumos do país[5].
Em primeiro momento essa medida se mostrou eficiente, o apoio a esquerda foi das eleições municipais de 1947 onde comunistas e socialistas conseguiram 279 postos, contra 316 dos conservadores, 322 dos radicais, 242 dos liberais e 277 de outros partidos[6]. Esse resultado significa que aproximadamente 20% dos municípios chilenos escolheram um representante de esquerda, ou que um a cada 5 chilenos votava abertamente contra os interesses do capital estrangeiro no país. Para pouco mais de 5% de apoio a Salvador Allende do PS nas eleições presidenciais de 1952[7]. Entretanto, essa medida quase saiu pela culatra, quando nas eleições presidenciais de 1958 Salvador Allende fica a pouco mais de 3% do eleito Jorge Alessandri.
As eleições de 1958 mostram duas guinadas radicais aos movimentos de esquerda do Chile, se até então o PCCH era a referência política da esquerda a ascensão de Allende e sua surpreendente votação, botariam o PS definitivamente na vanguarda dos movimentos revolucionários democráticos chilenos e também, se até essa década Allende era representado como um líder populista, herdeiro político de seu avô, a década de 50 seria uma mudança não só dele, mas também de seu partido a uma visão mais ortodoxa da situação do Chile e do marxismo, apoiando visões de um mundo comunista transformado e as nacionalizações das riquezas chilenas[8]. Alessandri seria eleito presidente com 31,6% das intenções de votos, enquanto Allende amargurou o segundo lugar com 28,9% em uma eleição que ainda teve Eduardo Frei, futuro presidente, e a figura mais controversa dessa eleição, Antonio Zamorano, a Cura de Catalpico[9]. Sobre este último, muito se discute, Zamorano era um antigo padre vinculado ao PS, que para a eleição de 1958, após ter sua candidatura negada, decide concorrer à presidência por seu próprio partido, a Uníon Nacional Laborista, o candidato recebe aproximadamente 40 mil votos, em uma eleição onde a diferença entre o primeiro e segundo colocado foram pouco superiores a 30 mil votos. O historiador Paul Drake, coloca Zamorano como uma das três principais razões pelas quais Allende não foi eleito, além da presença de um candidato do PR e a baixa aprovação de Allende entre as mulheres[10].
Diversas acusações foram feitas a candidatura de Zamorano, inclusive de uma possível aliança desse mesmo com o candidato da direita Jorge Alessandri[11] para tirar votos de Allende. Mas pouco se pode provar sobre essas acusações, o partido de Allende era especialmente forte ao norte, onde era representado pelos mineiros de ferro e cobre e ao sul, onde os índios mapuches a quase um século tinham suas terras roubadas, enquanto a maioria dos votos de Alessandri veiram da região central do Chile[12]. Algo que pode ser relacionado é o fato de que Allende receberá mais votos em áreas mais densamente urbanizadas, enquanto a Cura de Catapilco se mostrou mais eficiente em áreas rurais ou de menor urbanização. Esse fato pode passar desapercebido, mas a eleição de 1958 foi a primeira eleição chilena onde as reformas eleitorais expandiram o voto secreto para regiões rurais do Chile. Zamorano pode ter tirado votos de Allende dessas regiões menos urbanizadas e centrais do Chile, mas pouco se acredita que tenha feito mais que isso durante as eleições, seu principal feito político então seria “Impedir a Eleição de Allende antes da Revolução Cubana”. Essa que faria uma mudança radical no compasso político latino. Essa seria a principal atribuição de Zamorano em um caso de rápida análise, entretanto se olharmos o “Efeito Zamorano”, com olhos mais profundos, veremos que além da derrota de 58, seu efeito repercutiu nas eleições presidenciais de 1970, quando Allende e Alessandri novamente se encontraram em um embate político.
Em sua obra El Diccionario de La Política Chilena, Alfredo Joignant, Francisco Javier Díaz e Patricio Navia definem o conceito de Catapilco, que seria “Um candidato que ocupa o terceiro lugar, mas que sua votação, por mais ínfima que seja, impede uma segunda maioria de ultrapassar uma primeira”[13]. Em outros termos, Catapilco, seria um membro de uma ala, esquerda ou direita, com menos poder e influência, que por sua existência acaba por ajudar ou prejudicar um dos lados a atingir uma maioria.
Pode-se notar facilmente a ascensão do PS fundado em 1933, que em 1970, se tornaria o principal partido do país como um marco para a história chilena. O Chile foi um até 1970 e foi outro depois de 1973 e existem poucas discussões sobre esse fato. Entretanto o que pouco se discute é porque tanto medo desses socialistas pacifistas, por não acreditarem na via armada. O partido desde sua fundação era anti-imperialista e as nacionalizações tirariam as empresas americanas do controle social e econômico do Chile, a reforma agraria daria acesso à terra a milhões de famílias que foram logradas eleições após eleições de seus direitos e a redistribuição de renda calariam as vozes de séculos de exploração eurofila das camadas populares mestiças e indígenas do país. Desse contexto a eleição do ano de 1958 foi de caráter fundamental. Allende pode não ter sido eleito, mas muito antes de Fidel e Raul Castro dispararem as primeiras balas, logo, antes de se alinharem a URSS, Allende já era a voz da esquerda chilena e contava com o apoio de seus fiéis Allendistas. A eleição de 1958 viu o retorno do PCCH, que junto ao PS formou o FRAP, que futuramente se transformaria na Unidade Popular(UP).
Nessa eleição Allende enfrentaria Alessandri, eleito nessa eleição, mas do qual ganharia em 1970 e Eduardo Frei, que venceria as eleições de 1966. Cada um respectivamente das três alas esquerda, direita e centro, além também de presidentes do Chile. Pode-se notar então a grande efervescência política que era o Chile dos anos 60 e porque pouco se notou que quando Radomiro Tomic, sucessor de Eduardo Frei, ficou em terceiro nas eleições de 70, isso foi na verdade novamente o efeito de Catapilco agindo.
Radomiro Tomic, havia sido escolhido dentre a ala esquerda do partido cristão que a pouco havia perdido boa parte da mesma ala para a aliança de Allende, logo ele seria um tampão na debandada do partido. O candidato defendia a nacionalização das minas de cobres chilenas, o que havia defendido por toda sua carreira parlamentar e também defendia a continuação da reforma agraria que seu partido começara em 1966. Se olharmos as medidas de Tomic, elas o aproximam mais de Allende do que o transformam em seu opositor, sendo de centro o candidato cristão seria uma via plena a revolução allendista-socialista. Dessa forma nós podemos olhar a Tomic, como olhamos para Zamorano. Dessa forma, unindo os quase 37% de Allende com os 28% de Tomic, de semelhante proposta sócio-economica temos que 64% da população chilena, não se via disposta a votar na direita, embora todas as propagandas enganosas ao candidato da esquerda. O que demonstra que o caso da política chilena em 1970 era muito mais sério que os americanos imaginavam. Enquanto se enxergava a diferença de 1% entre Allende e Alessandri, o fato mais importante dessa eleição é o fato de 60% da população de uma forma ou de outra se posicionar contra a situação política oligárquica vigente do país.

[1] Carlos Altamirano Orrego, formado em direito e eleito senador da República nos anos da Unidade Popular, foi um imponente membro do Partido Socialista, do qual foi presidente dos anos de 1971 até 1979.
[2] ALTAMIRANO, Carlos. A Dialética De Uma Derrota. 1º. ed. São Paulo, Editora Brasiliense, 1979.
[3] WINN, Peter. A Revolução Chilena. 1º. ed. São Paulo, Editora Unesp, 2010.
[4] ALTAMIRANO, Carlos. Op. Cit. Pp.18–19.
[5] BARNARD, Andrew. Chile p. 113–145. In: BETHEL, ROXBOROUGH. A América Latina: Entre A Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. 1º. ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1996. P.125
[6] Triunfo de Los Partidos Anticomunistas En Las Elecciones Municipales chilenas. La Vanguardia Española, Barcelona, 09 Abr. 1947. Notas Hispaño Americanas, p.4 disponível em: http://hemeroteca.lavanguardia.com/preview/1947/04/08/pagina-4/33099718/pdf.html
[7] Triunfo Virtual Del Candidato Nacionalista, General Ibáñez. La Vanguardia Española, Barcelona, 06 Set. 1952. p.7 disponível em: http://hemeroteca.lavanguardia.com/preview/1952/05/18/pagina-7/32821807/pdf.html?search=Allende
[8] WINN, Peter. Op. Cit. P.51–52.
[9] NAVIA, SOTO CASTRO. El Efecto De Antonio Zamorano, El Cura de Catapilco Em La Derrota de Salvador Allende en La Ellección De 1958. Historia, V.1, n. 50, p. 121–139, Jan.-Jun. 2017. Disponível em: https://scielo.conicyt.cl/pdf/historia/v50n1/art05.pdf
[10] Paul Drake, Socialismo y populismo. Chile 1936–1973. Valparaíso, Universidad Católica de Valparaíso,1992, p. 279.
[11] Jorge Arrate y Eduardo Rojas, Memoria de la izquierda chilena. Tomo i (1850–1970), Santiago, Ediciones B, 2003, p. 182.
[12] NAVIA, SOTO CASTRO. Op. Cit. P. 133 Cuadro 2.
[13] Joignant, Díaz, e Navia, Diccionario de la política chilena. Momios, upelientos y operadores, Santiago, Sudamericana, 2011, p. 59.