Bandido é bandido porque é pobre?

Uma breve reflexão sobre a desigualdade social

A desigualdade social é um dos espetáculos mais feios que o Brasil apresenta ao mundo. Ele parece nos dizer que uns poucos ricos exploraram (e ainda exploram) multidões miseráveis. Ou, na melhor das hipóteses, parece nos informar que alguns espertos (ou sortudos, ou ladrões, dependendo da perspectiva) encontraram “a manha” de subir na vida, enquanto outros amargarão para sempre vivendo abaixo na linha da pobreza e da dignidade, legado que deixarão aos seus descendentes.

As aparências enganam.

A situação é lamentável e o problema e sério, mas daí a justificar a criminalidade pela desigualdade é um salto mortal.

Ninguém nega: toda pessoa normal quer que a desigualdade diminua. Mas lutar contra ela fortalecendo e ajudando quem precisa para que se sustente, estude e prospere (e oferecer um emprego não é fazer isso?) é diferente de aceitar o crime como manifestação legítima de protesto ou de ascensão social.

Se a desigualdade social faz aparecer o crime, é correto dizer que pobreza leva à criminalidade. Chamar pobre de criminoso é, no mínimo, um insulto indesculpável. Todo mundo sabe que pobre não é criminoso por ser pobre, e que rico não é honesto por ter dinheiro. Isso não é só um insulto. É uma grande mentira. Os políticos que roubam dinheiro público não parecem muito pobres. Os incontáveis pobres pais de família que trabalham dia e noite para sustentar os seus não são criminosos. A criminalidade NÃO É CAUSADA pela desigualdade social.

Só dá para considerar a desigualdade como fator causal do crime quando falamos de furtos contra farmácias e padarias, no maior estilo “Os Miseráveis” e “Dilema de Heinz”.

A moral da história do livro de Victor Hugo, se entendi foi, não foi justificar o crime, senão, defender com toda a eloquência a possibilidade de reforma do ser humano, mesmo quando a lei e a ordem são contrárias ao bom senso. Note o leitor que os revolucionários de sua obra não conseguiram nada pela via da violência.

Só aumenta a criminalidade em países de grande desigualdade quando, aproveitando-se de profundos rancores ancestrais, de ressentimentos, de inveja, de incultura, de alienação, alguns seres interessados no caos (ou simplesmente irresponsáveis) metem nas cabeças das pessoas ingênuas que não só não é tão errado assim roubar — porque uns têm muito e elas têm pouco — , mas que é o mais justo a se fazer. Se novelas, jornais, livros e professores martelam isso nas mentes de todos há décadas, como não transformar a cultura brasileira numa cultura criminosa? Sim, cultura criminosa! Celebrada por programas de TV, por artistas de todo gênero, por escritores e professores. E a culpa recai na desigualdade, no capitalismo, no rico.

O caminho da prosperidade não passa pelo crime. O caminho da perdição individual e social sim. E o Brasil está a cada dia mais perto do buraco.

Tomar conhecimento das biografias daqueles que conseguiram passar da pobreza à riqueza é o suficiente para constatar a verdade da tese que defendo. Em sua autobiografia, Benjamin Franklin afirma ter vivida apenas de pão e água por muitos anos; e ler de madrugada, sacrificando o sono, era sua forma de aprender para prosperar. Ele é o símbolo do capitalismo. O inventor do mote “time is money”. A figura estampada na nota de cem dólares.

Essa história de que qualquer um que não seja miserável nem criminoso é culpado pela situação dos pobres e, portanto, pelas estatísticas criminais, é um absurdo asqueroso e nenhuma pessoa de bem deve aceitar essa culpa. Mas não sejamos cegos a esses discursos, a esses trabalhos de desinformação, e não endossemos teses escabrosas. Além disso, combatamos juntos os problemas sociais! Não vivemos sozinhos. Nem podemos. Não é normal aquele que se não sente a dor do outro. Mas tampouco é normal aquele que aceita calado os atos dos demagogos que o injuria e o calunia.

Muitas pessoas sofrem coisas horríveis. Ninguém normal nega; ninguém normal deixa de se compadecer. Conheço relatos dolorosos de alunos de baixa condição social. Conheço relatos horríveis de pessoas de condição social elevada. Mas essas famílias têm mais meios de disfarçar, de esconder, de fazer pose. Uma família socialmente hierarquizada não vai expor um episódio obsceno ocorrido em seu meio. Por isso, tudo é varrido para as novelas, que não são outras coisa senão uma exposição do que há de podre nas classes altas. E há drama mais comum que do playboy cheio de dinheiro sofrendo de depressão, pânico e neurastenia?

O problema contra o qual eu luto não é o da distribuição desigual das riquezas. Do ponto de vista econômico, acho até que riquezas não devem ser distribuídas, devem ser produzidas e merecidas. Gosto da ideia da dignidade do trabalho, do estudo, do esforço, enfim, das conquistas graduais advindas do próprio suor e talento. Mas essa é só a parte econômica do que eu procuro estimular. Luto contra causas mais profundas dos problemas humanos, e acredito que elas estejam na ignorância, na inconsciência, na incultura. Estimulo o amor ao conhecimento e à realização pelo conhecimento (prática inteligente). Por isso, embora eu sofra ao tomar conhecimento desses relatos, eu não me junte às lutas sociais violentas, que não ensinam nem preparam, mas que se propõem a colocar a distribuição de renda como causa e como solução de tudo, esquecendo que se dividimos o que temos sem produzir nem inovar, consumimos dia a dia os bens de que dispomos até eles acabarem. Depois, chamarão esse momento de “crise”.

Eu me compadeço da situação dos que sofrem por conta das desigualdades sociais, mas não consigo ver na luta violenta a melhora, nem consigo ver que isso justifique o crime. Acho bem difícil eu mudar a posição a respeito dessas três coisas — prosperidade não vem por revolução violenta; desigualdade não justifica o crime; igualdade não traz prosperidade — porque são ideias lógicas.

As pessoas não perguntam aos pobres o que eles pensam. Chegam já ensinando revolução socialista. Depois, vão reclamar do que jesuítas faziam com os índios — como eles não têm muita instrução, não conseguem se defender e o pensamento revolucionário os vampiriza, transforma-os em indignados, mas nunca lhes dá os meios intelectuais, morais e materiais de prosperar. Ainda assim, muitos ficam imunes ao apelo comunizante e concordam com tudo o que estou dizendo. Afinal, muito disso eu aprendi conversando com pessoas que passam (ou passavam, graças a Deus) severas dificuldades.

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