Contra o crime organizado

Breve reflexão sobre os níveis de popularidade da polícia e do PCC

Um amigo escreveu:

O PCC é hoje uma organização com mais poder de fogo que todos os particulares de São Paulo juntos e com mais poder financeiro do que a maioria esmagadora dos capitalistas da região. Diante de um quadro como esse, fazer campanhas contra a polícia me parece contraprodutivo; não seria mais racional agir como cidadãos responsáveis e apoiar o trabalho da PM, fazendo a devida fiscalização de seus eventuais abusos e irregularidades? Afinal, a polícia é, por definição, uma força auxiliar, que está aí para nos ajudar a cuidar de nossa segurança pessoal.
Alguém em sã consciência pode pensar que sem a polícia o PCC vai desaparecer, entregar as armas e doar todos os seus recursos materiais para caridade?

A isso, algumas pessoas responderam com protestos:

  • polícia é usada para toda e qualquer coisa, menos para defender os cidadãos;
  • policiamento significa repressão;
  • desmilitarizar a polícia é a solução;
  • a PM é uma instituição falida, e o PCC, um partido que se formou para ajudar a resolver problemas graves que ocorriam entre os presos e a organização extrapolou sua função entrando para os “negócios”.

Propus, então, algumas questões:

  1. Mandaremos “comissões diplomáticas” para lidar com aqueles que promovem o comércio ilegal de drogas, que criam seus próprios sistemas judiciários (usando livremente da pena de morte), que armam menores capazes de cometer os maiores descalabros?
  2. O termo “falida”, em sentido figurado, não tem nada a ver com endividamento, mas sim, com o não cumprimento de uma missão. A política brasileira também está falida, certo? Devemos, então, acabar com a política brasileira, retornando ao estado natural, sem lei nem governo? Ou há meios de reformá-la, ainda que devemos revisá-la e reestruturá-la?
  3. Existe alguma previsão legal para partidos políticos terem um “braço armado”? Ou é justo que se organizem a despeito da lei? Afinal, o que é um partido? É um agrupamento ideológico que “pode tudo” em nome de sua ideologia?
  4. Desde quando “negócios” são “crimes”? Não estou usando nenhuma palavra forte. Crime é um termo definido pela ciência jurídica. Temos de compactuar com o crime do PCC só porque eles tinham ideais nobres? Uai, mas a polícia nunca teve ideais nobres? Se teve, deve ser perdoada pelo que faz, por conta dos ideais do passado? Ou nunca teve mesmo? Então ela não “faliu”, sempre foi “falida”? Não entendo.
  5. Se os agentes penitenciários colaboram com o crime, eles estão cometendo crime, certo? Então, devem ser perseguidos, até que isso acabe. Mas não conheço nenhuma história de agentes penitenciários serem mandantes e chefes do crime organizado. Óbvio que pode ser ignorância minha. Se alguém souber algo a respeito e puder vazar informação, conte-me. Se eles são apenas um “elo” na cadeia muito maior da criminalidade, porque a punição deve recair só sobre eles? Temos que atacar os bandidos e, fazendo isso, eles se enquadram na bandidagem, certo?

O meu ponto é que o PCC inteiro tem de cair, ainda que, com ele, caiam policiais e agentes penitenciários. E a polícia tem de ser mais respeitada em sua função ideal, mesmo que deva ser completamente revisada e reestruturada. Policiais que cometem abusos devem ser duramente perseguidos. Mas se um policial age de acordo com as regras de “estrito cumprimento do dever” e “legítima defesa”, não há que encher o saco deles.

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