Fessô filix! Fonte: https://bmccremmath.commons.gc.cuny.edu/.

EM DEFESA DA DOCÊNCIA

De por que não é tão ruim assim ser professor no Brasil

A cada duas centenas de alunos que formo, só dois ou três querem ser professores. Não exagero. A profissão é tão mal falada e parece maltratar tanto o ser humano que a exerce que todos a evitam. Mas façamos algumas comparações.

Uma das profissões mais almejadas pelos meninos brasileiros é a de jogador de futebol. Ocorre que oitenta por cento dos jogadores de futebol recebem só um pouco mais do que um salário mínimo. Isso um professor de escola pública faz em duas ou três manhãs de trabalho semanal.

Muitos advogados de empresas trabalham oito horas por dia para receber por volta de três mil reais por mês. Um professor de ensino de crianças de escola pública municipal, se tiver carga cheia, faz mais.

Pensemos, então, no topo. Um jogador de futebol famoso ganha cifras que são até difíceis de conceber matematicamente. Um advogado famoso e que enfrente grandes causas pode se encher de dinheiro. Um alto funcionário público pode fazer o valor mencionado no parágrafo anterior em apenas um dia.

Se não estou mal informado, tudo isso é verdade. Mas não vim aqui convencer todo mundo a seguir a carreira docente. Vim apenas mostrar aos que têm essa vocação que passar fome não será destino obrigatório. Aliás, vejamos o topo salarial da educação.

Professores de escolas particulares bem reputadas geralmente ganham bem, embora sejam muito cobrados, o que é natural. Professores de pós-graduação de alto nível podem ganhar muito muito bem, ainda tendo tempo para algum outro trabalho ou emprego. Há também os professores de cursinho — como o professor Pier, que fez fama ao aprovar muitos alunos em Medicina — , e os pesquisadores famosos por suas pesquisas, livros e conferências. Isso tudo sem contar os professores independentes, classe na qual me incluo, que aproveitam a demanda que a péssima qualidade da educação traz para tutorar crianças e adolescentes, para oferecer aulas especiais e para montar cursos livres (presencialmente ou a distância).

Repito, porém, duas coisas: (1) professores de escola bem estudados, bem capacitados e que conseguem resultados dos seus alunos, ainda que não estejam no topo, pagam suas contas e vivem, não só sobrevivem; (2) a carreira é sim difícil e pode ser sim que o profissional não consiga se destacar e fique ganhando mal, numa escola longe de casa, sendo mal tratado por um alunato que não gosta de estudar, portanto, lembre-se de que o recado é dirigido aos vocacionados, porque há inclusive aqueles cuja vocação é se enfiar nos locais mais distantes e carentes para levantar os ânimos e espalhar luzes pelos rincões do Brasil.

Uma crença que considero ruim tem se infiltrado na classe docente e não tem ajudado ninguém: a de que o professor tem de se fazer de coitado o tempo inteiro para que lhe ajudem e lhe paguem melhor, no maior estilo “Oh, e agora quem poderá me defender?”. Se isso era chamar pelo Chapolin Colorado na famosa série de comédia mexicana, no caso que ora analiso, é chamar um Colorado (um vermelho!) para ajudar, porque sindicalistas, políticos socialistas e arruaceiros tentarão aproveitar essa demanda social para os seus fins, mas dinheiro que é bom, nunca virá, por um motivo muito simples: NÃO É ASSIM QUE O MERCADO FUNCIONA!

O mercado privilegia os que têm resultados, os que sabem se vender, os criativos, os arrogantes, os famosos, os que têm currículos grandes e muitos títulos. Não é o mundo dos meus sonhos (nem a utopia socialista é o mundo dos meus sonhos, aliás, é muito menos!), mas é o que temos. Prudente é aquele que se esforça por conhecer a realidade e, em seguida, por obedecê-la, tentando mudar o que é possível mudar, nos limites do razoável e das próprias forças.

O primeiro passo para os professores serem mais valorizados — e, por lógica consequência, para serem mais bem pagos — está na auto-valorização e na renovação dos quadros por jovens que assumam a missão docente com coragem, seriedade, espírito de mercado e coração aberto. Quem sabe uma geração assim não humanize mais o mercado também, não é mesmo?

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