
O que é ética, afinal?
E que regras éticas podem ser verdadeiramente úteis para a boa convivência e para a busca da felicidade?
Tem-se falado muito de ética ultimamente. O artigo de Gustavo Ioschpe <http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/gustavo-ioschpe-devo-educar-meus-filhos-para-serem-eticos> publicado na Revista Veja, a entrevista de Clóvis de Barros Filho no programa do Jô Soares <http://vimeo.com/75703251> , e as minhas aulas, tem feito o tema ser constante aos meus ouvidos nos últimos dias. Mas cada um tratou do tema sob um ponto de vista diferente. Logo presumi que isso geraria uma confusão dos diabos.
Ética é uma palavra cheia de significados. Um que engloba a maioria deles é “forma de habitar o mundo” — uma das traduções do termo grego éthos é justamente “habitar”, que, no caso, se refere ao modo de se comportar consigo mesmo, com os outros seres humanos, com os outros seres (em sentido amplo), com a natureza e com o transcendente. Fica claro, então, que buscar a felicidade própria, a boa convivência e o respeito a tudo o que nos rodeia, a tudo o que depende de nós, e até a tudo de que dependemos, pode ser assunto da ética.
Como sou um antiquado, gosto também da velha definição que diz que a ética é sinônimo de filosofia moral — disciplina filosófica que examina as regras de comportamento mais diversas a procura das normas invariáveis.

Gostei muito do artigo de Gustavo Ioschpe. Inclusive, eu o compartilhei com o seguinte comentário: “Nunca desistirei de ser pontual”. Quem me conhece sabe do que falo. Mas se o ponto alto do artigo de Ioschpe — o diálogo com a consciência, em menção ao que diziam Sócrates e Hannah Arendt — for ignorado, seu artigo é apenas um chamado de atenção à ética num sentido mais próximo da polidez e da etiqueta social. Não é só isso que está no artigo, repito. Mas a repercussão indicou que foi precisamente isso que ecoou nas mentes dos leitores, como se pode ver aqui: http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/o-dilema-da-criacao-dos-filhos-a-etica-compensa.
Este eco é o da ética da convivência, mas de um tipo específico de convivência — a que respeita as regras morais vigentes. Esse enfoque da ética traz alguns problemas. Entre eles, o de fazer com que pareça mais importante não parar em fila dupla e ser pontual que desenvolver o entendimento mútuo, o respeito, a empatia e um conceito maduro sobre o que são o bem e a felicidade.
Os alemães da época de Hitler eram éticos, segundo esse conceito de ética. Eles obedeciam rigorosamente todas as regras e eram absolutamente pontuais. Acatamento às regras e pontualidade são virtudes, é inegável, mas são virtudes secundárias, segundo o filósofo político Eric Voegelin em seu livro “Hitler e os alemães”. Aquele que não entende a regra que obedece, bem como aquele que não percebe que é mais importante atingir os resultados que prometeu do que apenas chegar na hora para fazer lambança, não está sendo ético. Está sendo submisso e superficialmente polido.
Para não me alongar, direi apenas o que o próprio Gustavo já disse, sem desenvolver: o mais importante é lutar para fazer o certo, respeitando a própria consciência. E esse respeito não é nada mais que ouvi-la e tomar nota do que ela tem a dizer. Mas até as consciências funcionam melhor ou pior segundo o volume de conhecimentos e reflexões que o ser tenha feito. Pois, fica a dica: há que ler sobre o assunto, conversar sobre o assunto, refletir sobre o assunto e escrever sobre o assunto. O hábito de escrever algumas anotações simples sobre a vida, todos os dias, costuma dar bons resultados.
Trata-se de algo mais dinâmico, portanto. Não é só obedecer regras que todos presumem que todos sabem. Há muita ilusão aí. Nem todos conhecem todas as regras básicas da moral de seus grupos e nacionalidades. Nem todos as valorizam de forma idêntica. E, mesmo considerando uma sociedade culturalmente desenvolvida (que é o que buscamos, sem ainda ter) na qual todos são bem informados a respeito do que é certo e errado para aquele tempo e lugar, há aqueles que não conseguem ou não querem respeitar. E sempre haverá os filósofos que, mesmo conhecendo todas as regras de certo e errado de sua comunidade, farão o esforço de julgá-las para que elas se tornem mais adequadas, mais evoluídas, mais benéficas ou menos rígidas e superficiais. Daí que a grande regra que extraio disso é: informe-se, dialogue, reflita e pense.
Já o caso de Clóvis de Barros é diferente. Pareceu-me muitíssimo interessante a forma com que ele, falando de si mesmo, indicou caminhos para se buscar o desabrochar pleno da vida, ou, como ele chama, o “tesão pela vida”. O seu recorte, feito pela sua formação e pelas perguntas do Jô, encaixa-se na ética da felicidade. A consequência da vida realizada e feliz será a produção de frutos que são bens aos outros. A sua própria entrevista seria um momento de alegria proporcionado por ele, expressando sua potência vital, aos expectadores.

Ao falar do ineditismo de cada momento, acho que ele deu ensejo a confusões. Não é possível existir algo inédito se não existir um fundo de permanência. Só dá para perceber que algo é inédito porque uma série de coisas continuaram sem se alterar. Sabemos que uma segunda-feira foi especialmente boa porque houve outras segundas-feiras boas, mas não tão boas. A chegada das segundas-feiras é um dado de permanência, é um evento cíclico. Mas algo que mude a rotina pode acontecer, alterando todas as expectativas. Há que ter expectativas, e há que ter regras. Afinal, o que ele contou a respeito de como encontrar o tal “tesão” — pela identificação daquele tipo de relação com o mundo que não queremos que termine jamais — é uma orientação que pode ser aplicada a todos. E esse tipo de relação com o mundo (falar em público, dar aulas, entreter auditórios) tem de se repetir enquanto tal, ainda que o público, o assunto e o local sempre mudem.
Ambos, Gustavo e Clóvis, falaram de tópicos ligados à ética, mas partindo de ângulos bem diferentes. Procurei conciliar os dois discursos, esclarecer o que pode ter ficado caótico na mente do expectador ou do leitor, além de abrir (e fechar) algumas questões problemáticas.
A título de conclusão parcial, diria que eticamente maduro é aquele que reflete e pensa sobre a sua vida individual e de convivência. Refletindo, revisa com sua consciência, todo fim de dia, seus pensamentos, sentimentos, palavras e atos. Pensando, seleciona aquilo que quer evitar, aquilo que quer fomentar e o que quer manter. Esse exercício servirá tanto para realizar as excelências de seu ser, fazendo desabrochar o melhor de si, encontrando as fontes de felicidade e inspiração, bem como para regrar aquelas características insociáveis e irracionais. E servirá também para realizar o bem de forma inteligente, responsável e sem perigos de se ver enganado ou prejudicado pelos maus.
Estudar ética se torna uma maravilha quando se descobre que ser bom não é ser triste nem tonto. É justamente o contrário: é buscar ser forte o bastante para poder amparar e ajudar os outros a encontrarem suas próprias formas de realização excelente da vida.
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