Delimitação do Bairro da Aparecida

Uma Viagem dos Condados Americanos do Século XVIII ao meu Bairro — Ou: Breve Ensaio de Investigação Política para Elaboração de um Federalismo Radical

Uma investigação sobre o pensamento político de Thomas Jefferson teve em mim um “efeito rebote”. Vendo mapas dos EUA do século XVIII, a curiosidade bateu e voltou para o meu próprio bairro santista, onde ora resido.

Thomas Jefferson

Quero dizer com isso que, estudando os condados dos Estados Unidos desde os primeiros tempos até hoje, as palavras de Jefferson sobre o tamanho ideal de distritos (espécie de bairros que ele queria delimitar) e de condados (algo próximo de municípios, mas desta vez não só na cabeça dele — era a divisão administrativa oficial), trouxeram-me à mente questões sobre a perda dessa unidade entre as pessoas que moram próximas umas das outras, e sobre a possibilidade (ou impossibilidade) de reatar o seu convívio social e político.

Jefferson dizia que para preservar a liberdade era preciso ter um republicanismo de distritos, mais que aquele da grande República dos EUA. Infelizmente, esse “sistema jeffersoniano” não deu muito resultado nem lá, mas a meu ver tem parte de razão.

O estadista americano defendia que todo homem que vive numa República deve participar diretamente das assembleias que decidem sobre o que diretamente lhe diz respeito. E os poderes mais distantes deviam ter pouquíssimas funções e relativas a atividades que não se atrevessem a mexer com a vida cotidiana das localidades. Um exemplo é a questão escolar: para ele, as escolas deveriam ser organizadas e geridas pelos pais, que convidariam quem eles quisessem para ser professores, JAMAIS por governos distantes, porque ninguém deixaria o governo cuidar de sua fazendo ou de sua arte.

*

Sempre que me perguntam onde moro, pensam que sou rico porque é um bairro de praia. Mas professor mui raramente é rico; nas melhores hipóteses, vira-se com desenvoltura. E, note bem: este é o bairro mais populoso e caleidoscópico da cidade — tem de tudo aqui! Ricaços e pobretões. Grandes empresários e operários. Magnatas e professores. Gente culta e gente muito simples. São 40 mil habitantes.

O Caleidoscópio da Aparecida

A sua delimitação de fronteiras foi feita apenas em 1968, pela união de partes de outros bairros, a partir da praia até a Igreja de Nossa Senhora Aparecida, que deu nome ao bairro (Aparecida).

Foto da equipe do jornal A Tribuna publicada em 2/9/1982

Como professor de História apaixonado pelo ofício, natural que antes da investigação sobre a possibilidade de formarmos cá uma assembleia eu tenha buscado informações históricas para eu saber da identidade local, e de seus processos formativos para chegar no que é hoje (mesmo porque, vim para cá recentemente — fui criado no Embaré, estudei no Boqueirão e passei muitos momentos de lazer e cultura no Gonzaga; à Aparecida eu ia para visitas periódicas a parentes, amigos e outros chegados).

As curiosidades são inúmeras: hoje, o bairro é imenso — tem o maior Shopping Center da cidade, um clube enorme, três conjuntos habitacionais, prédios moderníssimos que cortam os céus, a escola mais cara de Santos (além de muitíssimas outras, públicas (em uma das quais, lecionei por dois anos) e privadas, incluindo uma universidade), e chalés de madeira, no chamado “fundão do bairro”, que serve para nos lembrar como foi Santos noutros tempos.

Entrada do SESC. Foto de Ricardo Ferreira.
As luxuosas piscinas do SESC.
O teatro do SESC, elogiadíssimo pela sua acústica.
Praça de Alimentação do SESC
Shopping Praiamar

Só 80 anos atrás, tínhamos uma outra configuração. O bairro era cheio de campos de futebol e de clubes futebolísticos menores. As crianças brincavam sobretudo de futebol, mas também de catar coquinho, de lutas (com luvas de lã), de roubar frutas e legumes das chácaras adjacentes. Havia um português leiteiro que recebia bem as crianças que, após partidas de futebol que se transformavam em batalhas, estavam sedentas e cansadas. Ele sempre lhas dava leite quente.

Havia também um cinema! Não um cinema oficial — um padre comprou a maquinaria e costumava fazer apresentações à molecada dos filmes de “O Gordo e o Magro”, e outros análogos.

Falando na igreja, ela superlotava, e ninguém ia embora após as missas do final de semana. O padre (outro) comprou uma cafeteira capaz de produzir sete litros de café, e convidava todo mundo para ficar mais tempo e conversar por ali mesmo. A igreja é ampla e fica defronte a uma praça.

Os clubes que começavam voltados ao futebol, acabavam dando espaço à natação, ao judô, ao buraco. Nas tardes e noites de sábado, abriam para bailes, que lotavam.

As transformações começaram quando os campos de futebol foram se transformando em conjuntos habitacionais.

Conjunto Habitacional BNH

Os últimos campos estão se transformando num prédio mastodôntico que terá passarela para o Shopping e heliporto. Antes desses, os que havia ao lado transformaram-se no Shopping de que falei, o Praiamar. Outro dos últimos “campos” que quase resistiram, transformado em clube para proteção dos interesses futebolísticos locais décadas atrás, era o do Clube Brasil, que foi recentemente modernizado. Ainda não o visitei para saber se tem campo ali, mas dizem que sim.

Passavam bondes aqui, desses que o meu pai tanto valoriza, contando-me lembranças e trabalhando no Bonde Histórico.

Alguns dos chalés foram construídos com madeiras que embalavam os carros que eram trazidos do exterior. Bastava pedi-las no porto. Pelo bom preço, os chalezinhos se transformaram em reduto operário, bem como os conjuntos habitacionais.

Chalés

Uma escola foi fundada aqui pertinho, por ideia de uma moça que gostava de estudar e lecionar. Seu pai a uniu com suas irmãs no esforço de chamar quem quisesse aprender com elas para a cozinha de sua casa. De graça. O número de alunos cresceu tanto que a Prefeitura descobriu e sugeriu a formalização, mediante pequena cobrança de mensalidade para cobrir despesas.

Agora, o bairro sedia as escolas que provavelmente são as mais procuradas por alunos de toda Baixada Santista: as ETECs Aristóteles Ferreira e Escolástica Rosa.

ETEC Escolástica Rosa

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Como se perdem histórias, tradições, modos de vida! E eu continuo sem saber como propor uma assembleia de bairro para um bairro tão grande, quase mini-município dentro do Município de Santos! Mas já tenho uma pista do motivo de tanta dificuldade: antigamente, havia vida em comunidade. Hoje, não há mais. Só há pessoas morando perto. A comunicação com os próximos acabou.

Mas não desistirei da questão. Acabei de encontrar a medida territorial preferida por Jefferson e vou procurar com afinco o tamanho da população a que ele dava preferência. Depois, pensarei em outra divisão que não a de bairro. Essa, aparentemente, não resolve o problema do republicanismo de graus, ou “sistema jeffersoniano”. O termo distrito também não ajuda, por já ser usado pelo voto distrital. E as novas formas de comunicação e de convivência, trazidas pela tecnologia, notadamente, pela internet e pelos meios de transporte, modificaram toda naturalidade entre vizinhos, e retiraram da proximidade residencial a primazia da convivência. Terei que inventar alguma coisa…

Obrigado por ler tudo isso, leitor. Seja sempre bem-vindo. Se tiver alguma ideia, diga-ma! Abraço.

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