Abandonar-se em parcelas.

Quem dera um dia poder entrar em uma sessão (seja ela qual for) e sair de lá com alma lavada, renovada e cheia da verdadeira eu. Quem dera também, dormir e acordar sentindo que o ego “se foi” de uma vez por todas. Seria incrível, não é?

Bom, talvez você não saiba (e eu estou descobrindo agora), mas o ego não precisa ser assassinado ou expulso, chutado e/ou maltratado (até porque é possível que ele goste e daí você/eu passaremos a gostar de emoções degradantes).

O ego, de acordo com algumas leituras, nunca deixará de existir. Ele permanece conosco e cabe a nós seguir a trilha interna para que ele saia do centro humano, ou melhor, desse falso centro. Quando começamos a digeri-lo, o ego sairá dos pontos de maior concentração emocional, perderá o tal foco que buscamos enquanto sociedade e é possível que sintamos um ar de perdido durante essa trilha. Mas o ego (no meu caso) sairá da fala, sairá do peito e sairá do estômago, no momento em que o ego descer para outras partes menos vindouras e nada centrais, ele perderá o seu grande e falso poder. Tome nota e guarde a seguinte consequência: quando removemos o ego do centro e passamos a reconhece-los em nós, o outro e a sociedade também nos perderão nesse caminho. Afinal, dizem que o ego é construído e pautado pelo ambiente exterior, necessita e depende quimicamente do sistema para existir.

Como seria lindo despir-se do ego integralmente, no entanto, o conhecimento íntimo tem mostrado que não funciona bem assim. É capaz de sermos a própria vida em abundância e ainda assim encontrarmos as mais variadas faces do ego e é no decorrer dessa trilha que você e eu teremos que, novamente, abandona-lo (ou ao menos tentar).

O abandono particular.

Recentemente, meus equipamentos e meu HD Externo morreram, deram pau. Você pode colocar aqui qualquer frase ou significado que represente um desespero alucinante de “perdi tudo que produzi a minha vida inteira”. Sim, lá se foi uma quantidade de documentos, arquivos, dados, fotos, histórias perdidas. Hoje mesmo procurava umas fotos das aulas de fotografia que fiz há 12 anos e lembrei que elas estavam naquele HD Externo. Que dor! Mas quem dói? Minha verdadeira eu ou o ego?

Quem de fato está sofrendo com essa perda inesperada? E na real, o quanto era importante ter todo o histórico dos meus trabalhos? Quando eu os usaria novamente? Perdi conhecimento ou perdi informação? A quem pertencia essa informação?

Noto nestas tantas perguntas que o ego (vaidoso e totalmente excêntrico) tenta falar que devemos fazer um alarde, chorar, espernear. Gritar aos quatro cantos: “Eu perdi tudo, meu deus, meu deus! O que vou fazer agora?”. Na outra mão disso, há um ser observante e ativo questionando se é mesmo necessário todo esse apego ao que se perdeu.

No apavoro dos fatos externos, há uma bela calmaria no peito. Ao mesmo tempo que sinto escoar das mãos toda uma profissão ao qual lutei e muito para obtê-la, também sinto uma libertação de todo um passado cheio de “o que você faz da vida?” e eu me limitar a responder essa pergunta apenas pelo viés profissional.

Hoje, morreu completamente uma vida profissional muito bem construída e ela foi linda enquanto durou. Um amanhã diferente se desperta em mim e eu não faço a menor ideia do que desejo ser, profissionalmente falando. A única coisa que ainda sobrou é a vontade ininterrupta de comunicar. Talvez, muito talvez, esta seja a verdadeira essência do eu, frente ao ego vangloriador das mais diversas marcas e arquivos gráficos que produzi.

No fundo, no fundo, eram só ARQUIVOS.

Quando a pedra se quebrou, eu me afoguei!

Semana passada um dos meus colares mais preciosos e ao qual era muito apegada caiu e transformou-se em pequenos pedaços. Minha gata derrubou da pia e minutos antes eu havia sonhado com uma corredeira aonde uma cachoeira mortal estava a frente e se eu não me segurasse, cairia.

Quem caiu? Eu acordei com gosto de água e de lágrima. Não saberia dizer ao certo quem caiu. Já o talismã, era a pedra da estrela, em textos que eu não levo tão a sério diz que:

O cristal Pedra da Estrela reflete um céu estrelado, tem uma cor azul muito escuro e milhares de pequenos brilhantes. Este cristal ajuda a concretizar os seus maiores desejos e sonhos. A Pedra da Estrela serve para nos fazer acreditar no poder da fé, e lembra-nos que os milagres acontecem e que existe algo que nos protege, mesmo quando não o podemos ver. A Pedra da Estrela desenvolve também a nossa intuição e a nossa capacidade de vermos a luz ao fundo do túnel, mostrando-nos o caminho quando nos sentimos desorientados e perdidos. Mesmo na noite mais escura, as estrelas não deixam de brilhar.

Se a pedra faz tudo isso? Não sei! O que sei é que meu apego por ela era muito forte. Quando a usava, sentia-me como se estivesse protegida de fato, era comum eu usa-la em dias que me seriam emocionalmente difíceis. Outro motivo que senti muito a quebra da pedra, em especial, foi por Ana (uma criança linda e iluminada de 3 anos) que em suas brincadeiras lá em Fortaleza, teria segurado fortemente em suas mãos, fechado os olhos e ao abri-los novamente dizer que era “mágico” e que me protegeria, que eu deveria cuidar dele como ele cuidaria de mim.

Mas no fundo, no fundo, era SÓ UMA PEDRA.

Por estes fatos vividos é que me confronto com o ego (vaidoso igual ao Temer) e o que isso representou para mim? Neste momento foi a necessidade de abandonar-me (mais uma vez) do que a sociedade e o ego me fizeram construir, achando que esta era a única eu existente.

Talvez agora, eu reencontre mais uma parte de quem sempre fui e que esteve aqui por todos esses anos.

Meu apego, meu ego: minha vida. (minha?!?!)

Sendo assim, não há o que sofrer (ou não deveria de haver), quando se está consciente no presente. E se há sofrimento maior do que o esperado e pouco reflexivo pelos acontecimentos, é possível que seja o ego tentando as duras penas te impedir de abandona-lo.

Acredito que, enquanto estivermos no presente ativo, poderemos retornar aos traumas do passado, senti-los e permitirmos a nós a possibilidade de abandonar o sofrimento: re-significando em e por nós. Se a cura, será total ou parcial, quanto a isto não teremos certeza (e qual é a certeza que temos?). No entanto, acredito que um dos primeiros passos para nos encontramos em nós, é quando abraçamos e aceitamos que ego existe, é vívido e tem nos causado dor.

É, aceitando as inconscientes negações que poderemos nos libertar do que estamos apegados e que tomamos como primordial para a nossa existência. Todo o apego nos deixam presos nesta lemniscata do ego.

O conflito interno é ego.
A paz vem da verdadeira eu.

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