#08

Eu vi uma pessoa muito parecida com você hoje.
Ele tinha seu cabelo bagunçado, seus olhos cansados, seu sorriso tímido e sua barba cheia. A primeira vez que vi, inclusive, achei que era você. Olhei de novo pra confirmar.

- Você parece muito com um cara que conheci.
- Um cara bom ou um cara ruim?
- Um cara bom e ruim
- Como todos nós, então.
- Sim, como todos nós.

Por várias vezes na tarde, me peguei a te olhar nele. Audacioso ter tanto do seu jeito naquele rapaz levando em conta que um dia me afirmou que ninguém seria como você.

A temperatura de hoje ficou na média dos 14 graus. Nada demais pra sua terra natal, mas bem diferente da época que nos conhecemos. Você dizia que mais quente que o sol, só minha pele com a sua e eu ria da suas cantadas ruins antes de provar que de fato nós éramos mais quentes que o sol.

Eu corri pra esteira pra esquentar. Forcei a barra pra logo cansar e tirar sua visão da minha cabeça (e talvez também pra compensar as últimas duas semanas de fast food intenso). Apesar do esforço, até meu Spotify parecia não colaborar e tocar aleatoriamente as músicas que você me fez gostar.

50 minutos depois, me rendi ao cansaço físico e mental. Sem me trocar, sai na noite fria paulista de regata e shorts e senti o vento frio abraçando meu corpo quente e arrepiando cada centímetro de mim. No lugar de subir a rua, desci pra sua casa. Por seis quarteirões, não sabia bem o que fazer além de me questionar o motivo de você teimar em morar tão perto de mim, me deixar saber disso e mesmo assim nunca me ver. Por seis quarteirões eu me perguntei o motivo daquele cara parecer tanto e tanto com você.

Eu toquei sua campainha — curiosamente, seu apartamento tem o mesmo número que o meu — e aguardei ansiosa por uma afirmação de que não poderia me ver. Ao seu comando de “oi, sobe”, entrei no elevador ainda sem saber e sai em direção a você.

Sua porta abriu e sem perceber já estávamos no seu chuveiro, ainda de roupa. Você ansiava por tirar o gelado de São Paulo do meu corpo com aquela água quente, seus beijos quentes, seus abraços quentes e seus pedidos de desculpas fervendo em cada movimento.

Meia noite no seu quarto, com cabelo sendo levemente entrelaçado pelos seus dedos, me peguei pensando que aquilo era ao mesmo tempo bom e ruim. Sem pensar muito no lado mais forte, me deixei levar no sono.

- Você demorou pra voltar.
- Você nunca me chamou de volta.

Três da madrugada, despertei, me arrumei e te acordei sem querer ao sair.

- Onde você vai?
- Você nunca me pediu pra ficar.

Eu continuo vendo a pessoa parecida com você todo dia e me perguntando se ela é uma forma de nunca me deixar te esquecer ou apenas uma constatação simples de que existem sim pessoas iguais a você.

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