Jogos Paralímpicos Rio 2016 e alguns bloqueios

No meio dessa minha última viagem ao Rio de Janeiro, trabalhando em uma cobertura dos Jogos Paralímpicos Rio 2016, eu tive um dos piores bloqueios criativos da minha vida.

Parece uma coisa besta, mas desde pequena eu me lembro de tentar escrever mesmo quando ainda não sabia fazer isso. Eu pegava os desenhos, fazia uns rabiscos e lá estava minha história. Escrever sempre foi minha distração, minha rota de fuga, meu hobbie e, no caso, minha profissão. Imagina como é pegar a única coisa que você acha que faz bem e simplesmente não conseguir fazer. Por uma noite, aquilo me destruiu em mil pedaços — bem na noite onde aquilo não podia acontecer.

Pra ajudar meu bloqueio passar, mergulhei em todos os vídeos do youtube possíveis pra achar inspiração. Foram músicas, depoimentos e histórias de superação até chegar em uma banda diretamente da minha adolescência, em um clipe com atletas com diferentes deficiências. No meio dele, em um depoimento, um “o limite tá mais na sua cabeça do que no seu corpo” me pegou em cheio. Soco no estômago mesmo, dos fortes.

Esse é o clipe, no caso.

Eu acompanhei aqueles pessoas sem braços, pernas ou visão deixando tudo de lado para serem apenas atletas que pulam mais longe, correm mais rápido e nadam feito peixes no mar. Eu vi gente dando o melhor de si, ignorando o que uns disseram ser limitações. E bem no meio desse momento incrível, eu fiz de um bloqueio criativo besta minha fossa.

Obviamente, naquele momento eu percebi que eu era bem idiota.

Eu não me sentir idiota por causa dos meus bloqueios em si, mas por deixar que eles se tornassem maiores do que eu sei fazer, do que eu gosto de fazer. Eu me senti babaca por acumular em mim coisas que me disseram um dia, por cultivar defeitos como se fossem virtudes, por colocar a cada dia um tijolinho a mais nos meus bloqueios. Eu me senti uma idiota por criar uma barreira que nunca existiu e acreditar nela enquanto via gente com barreiras reais ganhando medalhas de ouro.

Jessica Long (USA) -Photo by Iliya Pitalev/Sputnik via AP

Tento tirar de todo trabalho que faço algo pra mim. Desse eu não consegui tirar nada. Pelo contrário, dessa vez, algo que foi tirado de mim.
Meus bloqueios — criativos, pessoais, físicos, profissionais e emocionais — continuam lá, exatamente no lugar onde nasceram. Mas aquela fonte que alimentava eles, os fazendo mais fortes do que eu mesma em alguns dias, foi arrancada de mim. No lugar, esses atletas colocaram um “deixa de ser idiota, você é maior que isso que tá na sua cabeça”.

E eu só tenho a agradecer por isso. 
Valeu por mostrarem que quem eu realmente quero ser vai muito além das minhas barreiras.

Lucas Sithole of South Africa and Ymanitu Silva of Brazil — Photo by Lucas Uebel | Talisson Glock of Brazil — Photo by Simon Lodge