(Tradução) A Depravação do Negacionismo Climático

Arriscando a civilização por lucro, ideologia e ego.

Por Paul Krugman. Texto original.

Um estacionamento de trailers destruído pelo fogo que varreu Paradise, Califórnia, neste mês. Imagem por John Locher / Associated Press

A administração Trump, desnecessário dizer, é profundamento anticiência. Na verdade, é anti-realidade objetiva. Mas seu controle sobre os vários ramos do governo permanecem limitados, pois não se estenderam longe o suficiente para evitar a publicação da última “Avaliação do Clima Nacional”, que detalha os impactos, atuais e esperados para o futuro, do aquecimento global nos Estados Unidos.

É verdade que o relatório foi publicado na Black Friday, claramente na expectativa de que seu conteúdo seria perdido na confusão. A boa notícia é que a manobra não funcionou.

A Avaliação basicamente confirma, com uma grande quantidade de detalhes adicionais, o que todos que estejam seguindo a ciência do clima já sabiam: a mudança climática é uma enorme ameaça à nação e alguns de seus efeitos adversos já estão sendo sentidos. Por exemplo, o relatório, escrito antes do último desastre na Califórnia, destaca o risco crescente de incêndios florestais no sudoeste; o aquecimento global, não alguma falha em varrer folhas, é o motivo das chamas cada vez maiores e mais perigosas.

Mas a administração Trump e seus aliados no Congresso irão, é claro, ignorar esta análise. Negar a mudança climática, a despeito de qualquer evidência, se tornou um princípio republicano fundamental. Tentar entender como isto aconteceu aos Republicanos e tentar entender a completa depravação implicada em ser, neste momento, um negacionista, vale a pena.

Mas espere, não seria depravação um termo muito forte? As pessoas não têm o direito de discordar da sabedoria convencional mesmo quando esta sabedoria é apoiada em um esmagador consenso científico?

Sim, elas têm o direito — desde que seus argumentos sejam feitos de boa-fé. Mas praticamente não há negacionistas climáticos de boa-fé. E negar a ciência por lucro, vantagem político ou satisfação do próprio ego não é algo OK. Quando a incapacidade de agir baseado na ciência pode ter consequências terríveis, a negação é, como eu disse, depravada.

O melhor livro recente que li sobre isto é “The Madhouse Effect”, de Michael E. Mann, um proeminente cientista do clima, com ilustrações de Tom Toles. Como explica Mann, o negacionismo climático segue, de fato, os passos de anteriores negacionismos da ciência, começando com a longa campanha das companhias de tabaco para confundir o público sobre os perigos do hábito de fumar.

A verdade chocante é que ao redor da década de 1950 estas companhias já sabiam que fumar causa câncer de pulmão; mas gastaram grandes somas sustentando a aparência de que havia uma controvérsia real sobre esta ligação. Em outras palavras, elas estavam conscientes de que o produto que vendiam estava matando pessoas, mas, para que pudessem continuar angariando lucros, tentaram impedir que o público entendesse este fato. Isto qualifica como depravação, não?

Em muitos sentidos, o negacionismo climático se parece com o negacionismo do câncer. Empresas com interesses financeiros em confundir o público — neste caso, empresas de combustíveis fósseis — são os motores primários. Tanto quanto sei, o punhado de cientistas bem conhecidos que expressaram ceticismo climático recebeu, cada um, grandes somas de dinheiro destas companhias ou de canais de dinheiro obscuro como o DonorsTrust — o mesmo canal, aliás, que apoiou financeiramente Matthew Whitaker, o novo Procurador-Geral em exercício, antes dele se juntar à administração Trump.

Mas o negacionismo climático construiu raízes políticas mais profundas que o negacionismo do câncer jamais foi capaz. Na prática, você não pode ser um republicano moderno em boa posição sem negar a realidade do aquecimento global, ou afirmar que possui causas naturais, ou insistir que nada pode ser feito sobre isto sem destruir a economia. Você tem que ou aceitar ou aquiescer em alegações estapafúrdias de que a evidência avassaladora da mudança climática é uma farsa, fabricada por uma vasta conspiração global de cientistas.

Por que alguém concordaria com tais coisas? Dinheiro é ainda a principal resposta: quase todos os negacionistas climáticos proeminentes estão no bolso das empresas de combustíveis fósseis. Entretanto, a ideologia também é um fator: se você leva a questão ambiental a sério, será levado à necessidade de regulação governamental de algum tipo, logo, ideólogos mais rígidos do livre mercado não querem acreditar que as preocupações ambientais são sérias (embora forçar os consumidores a subsidiarem o carvão esteja aparentemente tudo bem).

Finalmente, eu tenho a impressão de que há algo de uma postura de cara durão envolvida — homens de verdade não usam energia sustentável, ou algo do tipo.

Tais motivos importam. Se atores importantes se opusessem, motivados por um desacordo de boa-fé com a ciência, à ação pelo clima, isto seria uma pena mas não um pecado, demandando melhores esforços de persuasão. Como de fato acontece, contudo, o negacionismo climático está enraizado em cobiça, oportunismo e ego. E opor-se à ação por tais razões é um pecado.

De fato, é uma depravação, numa escala que faz o negacionismo do câncer parecer trivial. Fumar mata pessoas, e companhias de tabaco que tentaram confundir o público sobre esta realidade estavam sendo malvadas. Mas a mudança climática não está apenas matando pessoas; ela pode muito bem matar a civilização. Tentar confundir o público sobre este mal está em outro patamar. Algumas dessas pessoas não têm crianças?

Sejamos claros: ainda que Donald Trump seja um excelente exemplo da depravação do negacionismo climático, esta é uma questão na qual todo o seu partido foi para o lado negro há muitos anos. Os republicanos não apenas têm ideias ruins; a este ponto, eles são, necessariamente, pessoas ruins.