Escrever por escrever

Há alguns dias eu baixei um app — MUITO legal, aliás! — chamado Pacifica, que ajuda a controlar sintomas da ansiedade e da depressão (condições com as quais eu lido há pelo menos uns doze, treze anos).

Ele faz isso por meio de desafios, monitoramentos de humor, tabelinhas interativas e logs de avanços diários, entre outros métodos. É bem divertidinho, intuitivo, gostoso de mexer. E a melhor parte: te dá vontade — ou pelo menos me deu — de melhorar, nem que seja só pra deixar ele todo completinho.

Quem vive ou já viveu com transtornos mentais e/ou faz controle para evitar recaídas sabe que existem dias em que é difícil buscar energia até para tomar banho ou comer alguma coisa que não seja refrigerante quente e um pacote de Trakinas.

mas esse aí de chocolate com morango e mais recheio, RAPAZ…

E o aplicativo tem me ajudado a reconhecer e valorizar as pequenas vitórias que acontecem todos os dias — hoje, por exemplo, eu não tive nenhum ataque de pânico, fiz tudo que precisava fazer no trabalho, cozinhei, não tomei mais café do que deveria, almocei direito, comi frutas, bebi água suficiente e ainda brinquei com os meus cachorros! — , dando aquele lembrete amigável ao cérebro de que eu sou capaz, inteligente e produtiva, por mais que ele tente me fazer acreditar no contrário.

Pois bem. No campo de “hábitos saudáveis”, que são as pequenas coisas básicas que a gente pratica pra viver e se sentir melhor (dormir, comer, interagir de maneira saudável com outros seres humanos), existe uma lacuna para ser preenchida com “hobbies”. E aí eu parei pra me perguntar com muita hesitação e inúmeras interrogações na cabeça, em primeiro lugar: o que conta como um “hobby”? Em segundo, eu tenho algum? E em terceiro, isso faz mesmo diferença no cotidiano?

Porque veja bem: eu adoro fazer várias coisas que em tese contariam como um “hobby”. Adoro cozinhar, ler, dançar, cantar, bordar, desenhar e fazer coisinhas tipo DIY. Até mexer com plantinhas eu gosto. E absolutamente adoro TV e cinema.

Só que na minha cabeça, um “HOBBY” sempre foi um negócio meio de gente rica e desocupada (e daquela entrevista do Jô com a Carla Perez que eu nem nunca vi, só ouvi falar e acho que é meio lenda urbana). É uma coisa que eu agruparia no mesmo círculo semântico de “excêntrico”, sabe? A palavra “hobby” no meu imaginário está intrinsecamente ligada à imagem de uma senhorinha de chapelão de palha, óculos escuros maravilhosos e luvas chiques mexendo em um jardim florido, ou um véio rico de bigode branco montando aquelas miniaturas de navios dentro de um garrafão.

mais ou menos como isso, mas num escritório com mais paredes de mogno e bigodes e menos marcas d’água da istock em cima

Sempre tive uma abordagem mais prática e mais “meios-para-um-fim” em relação às coisas que faço, então a ideia de fazer uma coisa apenas por fazer sempre me pareceu meio doida e sem sentido. Eu cozinho porque estou com fome, danço porque quero queimar calorias, bordo porque quero uma toalhinha de tal jeito, assisto TV e leio porque quero me distrair. Nas poucas vezes em que me dediquei a fazer alguma coisa pelo *efeito terapêutico*, até elas tinham o fim específico de proporcionarem esse *efeito terapêutico*. Fiz yoga, meditação controlada, exercícios e mais um monte de coisas para diminuir a ansiedade, mas só essa semana, com o app, é que a obviedade mais óbvia de todas me bateu na cara com toda a claridade que só uma redundância dessas consegue:

A única coisa que eu já fiz “terapeuticamente” — além da terapia de fato — que fiz sem motivo ou razão, apenas por fazer e porque aliviava o famoso “peso do mundo”, sem pressões ou stress para encontrar logo os *efeitos terapêuticos*, foi escrever. E é ridículo, completamente ridículo, que eu tenha demorado tanto para entender e me aproveitar disso.

Eu tinha uns seis anos quando decidi que queria ser escritora. A vida toda escrevi amadoramente e compulsivamente em diários, blogs, agendas, tumblrs, livejournals, blocos de notas de verdade, blocos de notas do windows, entradas no app de Notas e até em logs para mim mesma no telegram. E já há alguns anos escrevo profissionalmente e ganho meu suado dinheirinho sendo redatora publicitária.

Meu fluxo de pensamento e meu jeito de conversar comigo mesma é completamente calcado em “escrita” e em como cada coisa ficaria no papel. Mesmo quando passo meses e meses sem escrever “para mim” no papel ou na tela, eu redijo os famosos TEXTÕES o tempo todo na cabeça — o que é ridículo e não conta, eu sei, mas é de verdade a forma como os meus pensamentos se organizam. Eu componho livros inteiros no banho, durante viagens e até sentadinha no metrô ouvindo Ru Paul. Todo dia.

Só que aí entra um ingrediente de ciclo vicioso que eu nunca tinha percebido — e que só foi notado com a entrada do Pacifica na minha vida: a mesma ansiedade que eu posso combater usando meus escritinhos bobos é a que me faz acreditar que não vale a pena fazê-los.

É ela que diz “seu vocabulário está terrível porque você não lê há meses”, “suas construções frasais parecem saídas da sétima série”, “cê jura que em algum momento alguém te deu dinheiro pra você escrever?!”, “tá bem cafoninha essa metáfora, hein?”, “tá treinando pra escrever autoajuda?”, “bem se vê que cresceu lendo jk rowling e sidney sheldon no lugar de machado, né?”. É ela que me envenena e me faz esquecer que o ponto todo de bater os dedos no teclado não é escrever O GRANDE ROMANCE BRASILEIRO, nem (deus que me livre e guarde) SER A VOZ DE UMA GERAÇÃO. Que eu não tenho que impressionar ninguém ou mesmo ser minimamente interessante pra qualquer alma além de mim. Que não tenho compromisso absolutamente nenhum quando escrevo para mim mesma, a não ser, de fato, o compromisso de escrever.

Ao constatar isso tudo e o tamanho da minha autossabotagem, primeiro fiquei muito triste. Dei a famosa choradinha, fiquei com pena de mim mesma (como a gente faz, né), olhei pros céus e gritei “OH DEUS, POR QUE EU?”. E aí veio aquela percepção que não falha jamais: o que é mesmo que muda quando a gente fica assim, paralisado e se chafurdando em autocomiseração? É, exatamente um total de zero nadas. E aí, como uma personagem clichê no segundo ato de um filme barato, eu decidi que isso vai acabar (corta para a montagem com música animada de eu malhando e aprendendo a **SUPERAR MEUS OBSTÁCULOS!!!**).

E aí fica naquelas a partir de agora, né? O vocabulário tá ruim? Bora assim mesmo — infelizmente ainda não fiz o download do Houaiss no meu pobre HD cerebral. As construções e linhas não estão muito sofisticadas? Que chato — mas Proust tá aí pra quem quiser requintes literários.

E o que vai ter então? Vai ter textão no medium, vai ter textão de declaração pro namorado, vai ter análise de um monte de coisa nos sites pros quais já escrevi e escrevo, vai ter carta pros amigos, vai ter produção. Vai ter Rachelzinha passando vergonha escrevendo mediocremente aqui e ali sim, vai ter analogia cafona demais em tudo quanto é canto, vai ter um monte de coisas que vou me arrepender de ter escrito. E se reclamar ainda resolvo que vou virar poeta, abro um instagram cafona e poetizo umas lixeiras por aí (mentira, gente, prometo que não vou chegar tão fundo no poço).

Mas é isso. Escrever por escrever. Para escrever. Para desenferrujar, para me divertir, para passar o tempo. Para me distrair, para cuidar da minha cabeça (que a trancos e barrancos vai aos poucos se curando). Para criar um hábito saudável. Para fazer alguma coisa da vida que não seja trabalhar, ficar no metrô, cozinhar e me agarrar/ver TV com o namorado-futuro-marido.

E também para ter, enfim, um hobby que eu possa catalogar no Pacifica e que faça o coraçãozinho do log de health ficar verdinho todos os dias.