não se perca

(ou porque fazer a unha hoje me fez chorar de emoção)

hoje na terapia (textos que começam com “HOJE NA TERAPIA” cê pode saber que serão 1 — confusos; 2 — mais honestos do que o normal; 3 — provavelmente muito, muito cafonas) a conversa girou muito em torno de IDENTIDADE. essa capinha que a gente assume pra dar conta de transitar pelo mundo em todos os papéis sociais que temos que interpretar.

no trabalho você é de um jeito, em casa de outro, com os amigos é um terceiro. e principalmente, você assume posturas internas que mudam também junto com cada situação, né. por isso é tão estranho quando seu chefe conhece sua mãe, por exemplo. você tem que ser um monte de coisas ao mesmo tempo e acaba sendo meio esquisito pra todo mundo.

especificamente hoje a gente falou muito sobre como criamos identidades que muitas vezes ficam escondidas até mesmo das pessoas com quem mais convivemos. minha mãe, por exemplo, desconhece completamente a maneira nada honrada com que me portei nas várias noites que virei bebendo nos copos sujos do centro, ou mesmo o meu jeito meio duro e esquisito com a inquilina do apartamento que aluguei em sp (é pra ela me achar mais adulta do que realmente sou, o que não funciona muito bem). meu marido não faz ideia de quem eu sou com meus amigos de infância lá em itabira, minha melhor amiga não sabe como eu sou enquanto companheira amorosa, todas essas coisas.

o negócio no final é tentar encontrar quem somos dentro de todas essas identidades e dessas posturas internas. eu hoje vejo que usei algumas cascas específicas durante diferentes momentos da minha vida: a ~alternativa-mas-nem-tanto~ no ensino fundamental, a ~wannabe~ no ensino médio, a nerd-desesperada no cursinho, a ~slacker-fuck-off-too-good-for-this-shit~ na faculdade, a estagiária-aplicada/vim-do-interior no meu primeiro trabalho, e ao mesmo tempo a cachaceira-inveterada-solteira-porra-louca-deprimida durante os fins de semana.

hoje em sp uso várias também, mas ainda não tenho distanciamento o suficiente para enxergá-las direito — principalmente porque aqui sinto que houve uma quebra grande.

em todas as fantasias que usei por todo esse tempo, eu conservei a minha essência. eu sabia quem eu era. a leitora inveterada, introvertida, fazedora de unhas, assistidora de friends e 30 rock, cozinheira, secretamente (porque acha que as pessoas vão achar brega) apaixonada por poesia, banhos de banheira com sais de banho e vinho branco, que escreve páginas e mais páginas sobre seus sentimentos, aplicada nos estudos, cantora de the who na estrada, que gosta mais de vestido do que de calça mas que ama uma calça jeans velhinha também, que é obcecada por maquiagem, musicais da broadway e dançar beyoncé de salto trancada no quarto. eu sempre AMEI essa minha parte só minha, independente, livre, e sempre soube que ela era meu refúgio.

mas essa parte meio que morreu em sp — vítima da depressão, da ansiedade, das mil tarefas, da correria, do pânico, do metrô, do monte de gente, dos passeios não dados, da passadinha diária no mercado, da roupa pra lavar, do banheiro com mofo, do trabalho, da falta da família, da saudade dos amigos. e eu me perdi. me perdi assim COMPLETAMENTE. comecei a ter comportamentos que não reconhecia em mim, o que é totalmente apavorante. é terrível você não reconhecer seus movimentos, seus sentimentos, suas ações. não saber mais quem você é, o que está fazendo ou para onde está indo.

hoje eu fui à terapia. hoje eu fiz as unhas pela primeira vez em quase dois anos (minha cor preferida, gabriela). hoje eu saí de vestido, passeei pelo parque. hoje eu comecei a respirar. hoje eu sentei e escrevi, mesmo achando o texto ruim. e acho que comecei, bem de leve, a me lembrar de verdade de quem eu sou. tô voltando a ser eu mesma. e meu deus, que alívio.

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