Sentir é mais difícil que explicar

Em 1945 C. S. Lewis publicou um Ensaio chamado: “Meditação em um galpão de ferramentas”, porém foi traduzido pela editora Pórtico no livro “Ética para viver melhor” como "Sentir é melhor que explicar".

Ali, Lewis relata uma experiência que teve em uma oficina escura. A grosso modo a experiência de Lewis o fez perceber que diante das situações e também de determinados sentimentos, nós podemos enxergar a partir de dois pontos de vista: por e para.

Lewis diz que o dia estava claro e um raio de sol penetrava por uma fenda na parte superior da porta. Do local que se encontrava, o feixe de luz e as partículas de poeiras voando pelo ar eram o que mais lhe chamavam a atenção. Tudo escuro. Somente um fio de luz. Ele o via, mas justamente por causa dele não conseguia enxergar os objetos na oficina. Mudou de lugar e o raio de sol veio de encontro aos seus olhos: tudo mudou. Não via a oficina, e acima de tudo não via a luz solar. Em vez disso, viu na moldura irregular da porta, as folhas verdes balançando do lado de fora. Concluiu: olhar pelo raio e para ele são experiências diferentes.

Um jovem apaixonou-se por uma garota, o tempo que ele passa com ela é o mais precioso do mundo, não a trocaria por mulher alguma, como se diz: está apaixonado. Lewis diz que, para um cientista, a experiência do rapaz -- vista obviamente por uma perspectiva externa -- não passa de estímulos genéticos, reconhecidos biologicamente. Eis aqui mais uma vez o olhar por e olhar para.

Rememoro-me que quando mais jovem, lendo um livro de poema, aqueles doados pelo governo Estadual, fui tomado de súbito ao ler um soneto de Vinicius de Moraes. Até hoje tenho uma relação de estranhamento com o Poetinha, e, principalmente de um vazio inexplicável. "Soneto de Separação" fez-me amar Vinicius. Eu era jovem. Fiquei encantado. As rimas, a métrica, toda estrutura e sentimento que haviam naquele poema eram impressionante. Olhei para.

Confesso... dificilmente um jovem olhará por quando se trata de separação. Às vezes nem sabemos -- ou melhor: eu não sabia -- o que isso queria dizer.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante”.

Assim como C. S. Lewis, penso que olhar por e para são ambos fundamentais para o amadurecimento e uma compreensão do que realmente é a vida. E “de repente, não mais que de repente”, como escrevia Vinicius, quando o amor que jurei eternamente amar, decidiu me abandonar... olhei por no que tange à separação. Já havia olhado por referente ao amor, mas não referente ao abandono. O poema tornou-se carne viva, criou forma, corpo, habitou em mim.

Num belo dia de sol, eu tive uma experiência semelhante a de Lewis. Numa cafetaria em lágrimas, lembrei-me dos versos do Poetinha:

De repente do riso fez-se o pranto”.

Pulei para o quarto verso da segunda estrofe "do momento imóvel fez-se o drama" e percebi que além de ser melhor, sentir é mais difícil que explicar.