Tudo é uma questão de ponto de vista

Imagem por Jeremy Bishop

Afinal, toda história é contada a partir de uma perspectiva, seja ela qual for.

Dito isso, a escolha correta de um ponto de vista pode transformar uma narrativa sem graça em uma experiência única para os seus leitores.

Digamos que você esteja diante de outra pessoa, frente a frente. Entre vocês, presa por um fio invisível no teto, uma moeda. Se escolhermos o seu ponto de vista, veremos um lado da tal moeda. Se escolhermos o da outra pessoa, veremos o outro lado. Cara ou coroa, certo?

E escolher um ponto de vista adequado para a sua história, seja ela ficcional ou não, é essencial para atingir seus objetivos.

Toda história é contada por alguém para outra pessoa.

O que nos leva a um ponto importante antes de falarmos sobre pontos de vista:

Foco narrativo & narradores: uma história de amor

Imagem por Zakaria Ahada

Pois é.

Segundo o linguista José Luiz Fiorin, foco narrativo, ou ponto de vista, é a maneira com a qual você irá narrar a sua história. E sabe quem determina isso? O narrador.

Em Dom Casmurro, quem nos conta a história não é Machado de Assis, mas Bentinho. É nosso protagonista quem determina:

  1. Nosso nível de proximidade com ele e as outras personagens e
  2. quais ações e sentimentos serão expostos

Se pararmos para pensar, estamos completamente à mercê do narrador que nós, autores, escolhemos para contar a história.

Segundo Norman Friedman, autor de O Ponto de Vista Na Ficção, precisamos fazer algumas perguntas para definir o foco narrativo. E elas têm muito a ver com o narrador escolhido. São elas:

  • Quem conta a história? Como ela é contada?
  • Qual é a posição/ângulo assumido por quem conta a história?
  • Quais são os canais utilizados por quem conta a história?
  • Qual a distância estabelecida entre leitor e narrador?

Para Friedman, essas perguntas criam um norte mais estabelecido para a definição do foco narrativo e até dos narradores. Quer um exemplo?

Em Dom Casmurro, Bentinho é quem nos guia pela história. Se quisermos entrar em detalhes, ele é o que chamamos de narrador-protagonista. Todas a ações e sentimentos giram em torno dele. Sabemos tudo — ou quase tudo — sobre a história e suas subjetividades porque Bentinho estava sempre no centro dos acontecimentos. Ele é, de certa forma, a história.

Mas aqui vale ressaltar um ponto bem importante sobre Dom Casmurro. Além de ser um narrador-protagonista, Bentinho é um dos maiores exemplos de narradores não confiáveis da nossa literatura. Ou seja, a credibilidade dele é comprometida seja por mentir ou apresentar um estado mental meio… debilitado.

No entanto, se pegarmos outro livro como, por exemplo, O Grande Gatsby, temos em Nick, primo de Daisy Buchanan, um clássico exemplo de narrador-testemunha. Nick estava lá, presenciou os acontecimentos, mas não era o protagonista da ação que, nesse caso, era Jay Gatsby.

Qual narrador é o melhor? Depende. Histórias diferentes demandam narradores e pontos de vistas diferentes.

Lembre-se das perguntas de Friedman:

Quem conta a história? Como ela é contada? Qual é a posição/ângulo assumido por quem conta a história? Quais são os canais utilizados por quem conta a história? Qual a distância estabelecida entre leitor e narrador?

E, aos poucos, defina quem será o seu narrador e seu ponto de vista.

Mas antes que esse artigo fique longo demais, aí vão mais três coisas importantes para você pensar antes de escolher o ponto de vista da sua história:

I. Pense nos “olhos” da narrativa

Escolher um ponto de vista é como decidir quem vai contar a história.

Se estamos dentro da cabeça de um personagem — ponto de vista também conhecido como primeira pessoa — temos a acesso a todos os sentimentos dele.

No caso de segunda pessoa, com o uso de “você”, como se nos dirigíssemos a alguém, puxamos o leitor para dentro da história.

Na terceira pessoa, narração que usa “ele” e “ela” para se referir às personagens, o autor fica sempre por perto, limitado a somente uma visão por vez.

Se você quer brincar de Deus e conhecer os pensamentos de todos, talvez o narrador onisciente seja uma boa escolha.

Nenhum ponto de vista é melhor do que outro. Todos eles servem a um propósito.

II. Cada ponto de vista = um sentimento

Como eu disse, nenhum ponto de vista é melhor ou pior do que outro. Todos são necessários.

Se você quer mais intimidade, talvez seja uma boa escolher a primeira pessoa. Ou talvez você queira mais abrangência? Vá com o narrador onisciente.

Não existe certo ou errado quando o assunto é ponto de vista.

Como sempre, a ficção é feita de escolhas que funcionam ou não.

Qual tipo de emoção você quer causar nos seus leitores? A escolha do ponto de vista certo pode ajudar a criar esse clima na história.

Pense nessa escolha como a “câmera” da narrativa. Ela vai ser mais próxima ou mais afastada? Qual vai funcionar melhor?

Só você pode dizer.

III. Experimentação é a chave

Como você vai saber qual ponto de vista funciona melhor para a sua história? Testando.

Escreva uma cena em primeira pessoa e depois a reescreva em outros pontos de vista. Somente essa pequena mudança vai impactar todo o tom da narrativa. Você, como escritor, saberá quando se sentir confortável

Decidir o ponto de vista certo é o primeiro caminho para construir uma história forte. Lembre-se: personagens e situações vêm e vão, mas seu ponto de vista é quem vai estar com o leitor do início ao fim.

Ah, e deixa eu contar uma coisa pra você…

Eu escrevo comédias românticas que se passam no sul do Brasil e deixam o coração dos leitores quentinho. Para conhecer meu trabalho é só acessar meu site ou assinar minha newsletter gratuita ✍🏻☕

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Redatora, escritora e fã de Shrek. Aqui você encontra escrita criativa, livros e produtividade. Acesse https://rachelfernandes.art :)

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Rachel Fernandes ✍🏻

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