Dê uma segunda chance aos clássicos da literatura brasileira. Sério.

Estátua do escritor Carlos Drummond de Andrade
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Desde que iniciei minha jornada como leitora, os clássicos sempre tiveram um espacinho de destaque no meu coração.

Durante minha adolescência, eu passava as tardes lendo Jane Austen, Alexandre Dumas, Tolstói e inúmeros autores franceses mortos há mais tempo do que a minha cabecinha podia imaginar.

Fosse qual fosse a nacionalidade, lá estava eu, folheando as páginas, terminando os livros e pedindo para a minha mãe, pelo amor de Deus, por mais um livro de algum autor que cheirava a mofo.

Mas nunca consegui me conectar de verdade com a literatura brasileira.

Depois das aulas intermináveis de literatura, abrir “A Moreninha” ou qualquer outro clássico brasileiro, nas minhas horas de lazer, parecia a extensão de um trabalho escolar, uma obrigação terrível.

E eu não queria passar as minhas tardes assim, lendo por que eu deveria ler.

Entretanto, depois de muito ignorar a nossa literatura, fiz as pazes com ela.

Nunca é tarde para isso, e listei 4 motivos para voltarmos aos clássicos brasileiros de peito aberto.

I. Entender a importância das segundas chances

Uma das reclamações mais frequentes dos jovens leitores é a seguinte: por que as aulas de literatura não nos apresentam livros mais simples, que se conectam com o que queremos hoje?

Ou, em luzes menos gentis: pra que ler essa porcaria que ninguém entende quando posso ler Jogos Vorazes?

Durante muito tempo questionei isso, mas recentemente entendi que o papel da escola é fazer a gente conhecer os clássicos, e não cair de amores por eles.

A primeira vez em que li os contos de Lygia Fagundes Telles, eu tinha quatorze anos. Como toda adolescente, achei um saco do início ao fim.

Quase quinze anos depois, me lembrei dessa professora de português — que eu adorava e era uma apaixonada pelo trabalho da Lygia — e tentei de novo.

O resultado? Lygia Fagundes Telles se tornou uma das minhas autoras preferidas.

Os clássicos brasileiros são apresentados a nós durante uma idade de experimentação, mas merecem uma segunda chance alguns anos depois, quando temos certa maturidade para encarar leituras um pouquinho mais complexas.

Voltar a eles é uma experiência que recomendo.

II. Entender a nossa história

Todo movimento literário existiu por um motivo.

Ler os expoentes do Romantismo, por mais insuportável que seja em alguns momentos, nos mostra o retrato de uma época.

Os livros de história tratam dos fatos, mas os livros de ficção trazem a visão de alguém inserido no período.

Dar uma chance aos clássicos brasileiros é complementar as aulas de história com um tempero especial.

III. Entender a nossa realidade

Por que certas coisas são como são? Muitas vezes, podemos encontrar a resposta na literatura.

Ler os clássicos é investigar o passado para entender como vivemos hoje. O que mudou? O que pode mudar? O que era aceitável antes, mas condenável hoje?

Muito do que lemos, quando observado de perto, reflete diretamente o meio em que estamos inseridos.

IV. Entender a nossa língua

Muita coisa se perde na tradução.

Ler direto da fonte, exatamente como o autor escreveu, é um prazer adicional.

Para quem se aventura em autores mais regionais, como Érico Veríssimo e Mario Quintana, percebe direitinho as referências a Porto Alegre e ao modo de falar do Rio Grande do Sul.

Quem lê Jorge Amado, tem um retrato vívido da Bahia nos anos 1940.

Quer conhecer o Rio de Janeiro e os dramas íntimos de uma época em ebulição? Por que não tentar Clarice?

Além disso, não existe língua mais bonita do que o português.

Foi por isso que eu voltei aos clássicos brasileiros de coração aberto. E não pretendo abandoná-los tão cedo.

Tá, conseguiu me convencer. Mas por onde eu começo? E se for difícil? 😥

Boneco Lego em fundo neutro, com expressão desesperada
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Eu confesso: iniciar nos clássicos, para quem não tem o costume ou a paciência, pode ser assustador num primeiro momento.

Mas certa vez, na faculdade, tive um professor que disse o seguinte:

“Não tenham medo de ler livros difíceis, aqueles que vocês não vão entender na totalidade. É assim que amadurecemos quem somos.”

E por mais estranho que possa soar, o professor Jacques estava certo.

Dependendo do livro que você escolher, é quase certo que muita coisa vai se perder pelo caminho. Aliás, , de James Joyce.

Mas se você parar para pensar, é um motivo idiota.

Afinal, do que temos tanto medo? De não entender a história? De achar a leitura chata? Felizmente, são problemas que podemos resolver:

  1. Não entendeu? Pergunte.
  2. Achou chato? Troque de livro.

Na era da internet, não temos mais desculpas: todas as nossas dúvidas, maiores ou menores, podem ser resolvidas com uma pesquisada rápida no Google.

Além disso, existem pessoas fazendo trabalhos incríveis para estimular a leitura dos clássicos brasileiros e internacionais. Uma delas é a influenciadora Isabella Lubrano, que faz leituras guiadas e comentadas em seu canal, o .

E se você achou a leitura que escolheu meio chata, troque de livro. Não é só porque é um clássico que você precisa gostar.

Até porque, como eu disse lá em cima, você sempre pode voltar a ele alguns depois para ver se o tal livro era realmente chato, ou se apenas não fazia parte do seu gosto. Quer um exemplo?

Eu adoro as obras de Clarice Lispector. Tenho um fraco pelos romances, pelas crônicas e por vários contos dela. Mas não consigo me identificar com a parte mais experimental das obras da autora porque eu, Rachel, não me interesso por literatura experimental.

O que eu faço, então? Simples: eu não leio.

E você pode fazer o mesmo. Aceite, logo de cara, que você não vai gostar de tudo. Mas dê uma chance primeiro. Vai que você, lendo a obra experimental de Clarice, caia de amores por ela?

Tudo por acontecer.

Beleza, mas e por onde eu começo? 🤨

Bonecos Lego numa loja de música também feita de Legos.
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Como tudo na vida, a resposta é um sonoro depende.

Correndo o risco de recorrer ao papo digno de coaches baratos, digo para você começar por tudo aquilo que chama a sua atenção.

Você adora um determinado período da história? Escolha um autor desse período, pegue o livro mais famoso dele, leia a sinopse e caia de cabeça.

E lembre-se: não entendeu? Pergunte. Não gostou? Troque de leitura.

Outras pessoas preferem se aproximar de autores clássicos lendo as obras menores, como contos e crônicas. Pode funcionar? Sim. Aliás, foi lendo as crônicas e contos que me apaixonei pelos romances de Clarice.

Não existe um caminho certo. Redescobrir os clássicos é um trabalho de garimpo, algo extremamente pessoal, ditado pelas suas preferências e pelo seu ritmo de leitura.

Mas existe uma dica de ouro que serve para todo mundo:

Escolha boas edições.

Sério.

Eu sei que parece extremamente elitista dizer isso, mas a escolha de uma boa edição, seja ela digital ou física, vai facilitar a sua compreensão de um texto clássico em 90%.

A primeira vez em que li , de Dostoiévski, foi numa edição da Martin Claret. Além de uma diagramação apertada e dos erros de ortografia horrorosos, não havia notas explicativas ao longo do texto, para facilitar a compreensão.

Se você está iniciando no mundo dos clássicos, escolha boas edições. As minhas preferidas são as da , que trazem textos de apoio e notas explicativas de professores de literatura. E o preço, pelo material entregue, é muito bom.

Edições de bolso mais simples, apesar de saírem mais em conta, podem ser traiçoeiras para quem está começando porque, na maioria das vezes, elas não trazem notas ou textos de apoio. E aí, para entender, você vai precisar pesquisar algumas coisas antes, durante e até depois da leitura.

Iniciar no mundo dos clássicos — ou retornar a ele — pode ser uma tarefa difícil, mas recompensadora.

Correndo o risco de soar repetitiva, aí vai: dê uma segunda chance aos clássicos da literatura brasileira.

Quem sabe você, assim como eu, possa se surpreender e se apaixonar no processo? :)

Ei, deixa eu contar uma coisa pra você

Eu escrevo comédias românticas que se passam no sul do Brasil e deixam o coração dos leitores quentinho. Para conhecer meu trabalho é só ou ✍🏻☕

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Redatora, escritora e fã de Shrek. Aqui você encontra escrita criativa, livros e produtividade. Acesse https://rachelfernandes.art :)

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Rachel Fernandes ✍🏻

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