Ainda sou eu? Ainda sou eu.

Sobre o ano mais difícil da minha vida

A Milly Lacombe publicou uns textos incríveis no site da revista TPM em que fala sobre morrer em vida e renascer como uma outra pessoa; não melhor nem pior, só mudada. Diferente. Alguém que enxerga o presente tendo aprendido muito com o passado, e sereno para aceitar o que o futuro trouxer. (Aqui, aqui e aqui).

Em 2015 eu morri duas vezes.

Na primeira, estava no consultório de um novo psiquiatra porque o anterior parecia não entender a minha angústia. Diferentemente da crises de depressão que haviam me devastado em 2011, 2012 e 2013, em fevereiro do ano passado minha sensação era de não conseguir controlar a torrente de pensamentos que invadia minha cabeça. Era como enfiar a cabeça embaixo de uma cachoeira, só que ao invés de água, eram ideias, pensamentos. Batiam no meu cérebro e desapareciam, quase instantaneamente. Era impossível responder a qualquer pergunta que o médico fazia porque eu nem chegava a processá-las. Fazia quase dois meses que eu tinha essa sensação de aceleração até a velocidade da luz, em que poderia fazer ou ser qualquer coisa que quisesse, que era uma mulher linda, foda, de sucesso, no ápice (sabe-se lá do quê).

De certa forma era ótimo, mas era também um pouco desordenado. No trabalho, não conseguia cumprir prazos, me planejar, organizar a agenda de reuniões e as entregas. Estava um pouco mais agressiva, irritadiça — na medida em que ~um pouco~ significava que eu tinha colocado minha vida em risco umas cinco vezes em seis semanas. Brigas de trânsito, discussões acaloradas, gritos, sensação de perda de controle. Eu sabia com todas as minhas forças que aquilo não era eu, e que aquilo não era uma crise de ansiedade, como o psiquiatra anterior insistia em dizer. Porém, eu não sabia o que era.

É muito difícil receber o diagnóstico de transtorno bipolar. É uma bosta, para falar a verdade, porque é um problema psiquiátrico que não tem cura e é cercado de muito preconceito e muita ideia errada.

Primeiro, vamos parar de falar que é uma doença~da moda~, porque sério, quem é que vai querer ou se orgulhar de ter uma doença? Sim, tem havido um maior número de pessoas diagnosticadas como bipolares porque simplesmente tem havido um maior número de pessoas com acesso a bons psiquiatras, e porque a própria doença caiu de nível na classificação psiquátrica, passando de Psicose Maníaco-Depressiva, um troço tipo o Mundial de Clubes da FIFA das doenças mentais, para Transtorno de Afeto Bipolar, que tá mais para uma Libertadores da América.

Segundo, transtorno bipolar não é coisa de gente louca. Loucura, como gosto sempre de lembrar, é um termo pejorativo e preconceituoso que agrupa uma série de transtornos, processos e comportamentos, a maioria deles tratável e perfeitamente controlável.

Inclusive, foi isso que me aconteceu naquele mesmo dia em fevereiro de 2015. Comecei a me tratar adequadamente, tomando um medicamento específico para equilibrar o humor e sair da crise de mania horrenda em que estava, e entrei num período super controlado e normal da minha vida. Um período em que estava novamente organizada, calma, focada e estável.

Durou oito meses.

Em novembro, sem nem perceber, voltei a ter momentos de descontrole. Como para muitos pacientes de vários transtornos psiquiátricos distintos, a primeira coisa que desanda em mim é o sono. Passei a ter mais dificuldade para dormir, porém não percebi, de bate-pronto, que estava num crescente de mania. As leves irritações e o aumento da agressividade passaram despercebidos, principalmente porque não chegaram ao ponto aterrorizador do começo do ano.

Nos primeiros dias de dezembro eu já estava com os dois pés fincados no início de uma crise de mania e tive que voltar ao consultório, dessa vez completamente apavorada pela sensação de estar perdendo o controle de novo. O que me deixava mais angustiada (desesperada, para ser sincera) é que dessa vez eu estava em tratamento. Estava tomando a medicação certinho e fazia apenas oito meses que tinha tido a primeira crise. Seria aquela a minha vida dali por diante: curtos períodos de calmaria se sucedendo a uma sequência interminável de maremotos?

Foi um mês terrível. A crise foi abortada logo no início e em uma semana eu já estava mais organizada novamente. No entanto, ficou o receio. O medo profundo e desolador da perspectiva de um futuro sem sanidade mental consistente, sólida, duradoura. Um futuro em que eu não voltaria a confiar em mim mesma, na meu bom senso, na minha capacidade crítica.

Na virada do ano, tomei a decisão de que faria tudo, absolutamente tudo que estivesse ao meu alcance para reduzir as possibilidades de crise. Voltei para a terapia, voltei a fazer atividade física com intensidade e regularidade, voltei a me alimentar de maneira quase obsessivamente saudável, comecei praticar meditação. Parecem atitudes banais, mas quando olhei para 2015 em retrospecto, percebi que fui me perdendo da minha lucidez quando confiei apenas nos remédios e não me ajudei ativamente.

A Rachel de antes, de 2014, de janeiro de 2015, mesmo de outubro último, não existe mais. Ela deu lugar a outra mulher que, honestamente, não acredito ser melhor que qualquer versão da anterior. Existe agora essa sombra que me acompanha aonde quer que eu vá. Às vezes, a sombra me dá um medo terrível, uma solidão incomparável com qualquer outra que eu tenha sentido. Em outras, me mostra quão forte eu posso ser, quão experiente já sou e quão preparada ainda serei.

E é essa segunda face da sombra que não me deixa desistir.