All these things that I’ve done

If you can hold on, hold on

Este ano foi bastante duro para mim.

A depressão que eu sentia em maio se tornou a maior espiral de merda da minha vida a partir de junho. Aquela Rachel, da violência sexual, da tentativa de suicídio, da automutilação, da lama completa, eu a reconheço. Ela é assustadoramente trágica e, ao mesmo tempo, visceralmente forte. Ela me ensinou muitas coisas.

A mais importante é que eu tenho direito de viver minha fragilidade.

Não preciso bancar a durona, não preciso reagir aos meus pesadelos com cinismo e desprezo. Eu posso, e devo, experimentar as pérolas da sensibilidade. Eu sou sensível, muito mesmo, e isso não me faz menos forte.

A segunda é que, bom, eu sobrevivi.

Cheguei ali, na sarjeta da esquina onde morte e vida se encontram e eu não a atravessei. Ao contrário, comecei a caminhar no sentido oposto. E eu seria hipócrita de dizer que essa bagagem não me faça ver a vida sob outra luz agora.

Não, eu não virei um tipo de Poliana do novo milênio. Mas algumas coisas estão diferentes.

Porque eu consegui me manter viva, agora poderei comemorar mais um título do Corinthians.

Porque eu consegui me manter viva, vou para meu quinto show do The Killers, minha banda favorita.

Porque eu consegui me manter viva, eu posso brincar com meus cachorros como há muito, muito tempo não fazia. E o tanto que eles me divertem agora! O tanto que eu aprecio esses momentos!

Tem uma expressão em inglês muito boa: to take for granted, que mais ou menos significa tomar por certo. Sabe aquelas pequenas coisas da sua vida? Tipo comer seu prato preferido, rir até a barriga doer, ouvir uma ótima notícia sobre um amigo querido… a gente nem percebe como essas coisas são incríveis e o quanto deveríamos ser gratos por tê-las. O quanto deveríamos de fato saborear cada um desses momentos. Não porque um dia você vai morrer e tem que aproveitar a vida e o escambau, mas só porque esses são os presentes do cotidiano.

É claro que ver seu filho nascer, casar-se, fazer a viagem dos sonhos, tudo isso é fantástico e nós damos o peso correto a esses acontecimentos. No entanto, eles são raros, muito raros. O que nos faz continuar nessa jornada são as pequenas coisas.

Ouvir A SUA MÚSICA. Dançar até estar exausto. Ver o jogo do seu time e voltar para casa completamente rouco e com as palmas das mãos doendo. Perceber as mudanças das estações do ano. Ler um livro muito bom e esquecer da hora. Tomar um drink depois de uma semana puxada. Dormir cedo e acordar tarde. Toalha com cheirinho de amaciante.

Há pequenas situações que são como pedrinhas preciosas ao longo da vida. Nossa memória não vai retê-las, mas percebê-las cognitiva e emocionalmente torna tudo muito mais palatável, né?

Enfim, pode ser apenas porque eu esteja ficando velha. Ou pode ser que todas aquelas experiências realmente me ensinaram algo. E por esse aprendizado, tão dolorido e tão rico, sou muito grata.

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