Bitches, I'm back from hell

Eu não sei mais qual o protocolo disso de blogar. É assim que chama?

Parece que agora existe essa burocracia sobre postar textos. Tem uma história de frequência de postagem e estudo da volumetria que vai interessar o seu público e zzzz…

Aqui no Medium vejo sempre textos longuíssimos, super elaborados e o caralho a 4. Eu vou me atrever a postar pela segunda vez no mesmo dia. Porque tô com vontade de escrever e publicar outro texto, mais um, novamente, sobre mim. Porque eu escrevo praticamente todos os dias desde criancinha, e porque quando comecei a blogar, em 2005, isso era regular shit.

Parece que até o Twitter mudou e as pessoas estão lá buscando THE GREAT BRAZILIAN TWEET, aquele que vai ter milhares de RTs e favs em poucas horas mesmo na gringa e vai ingressar as listas caidaças do jornalismo tradicional: "Brasil vai se desbarrancando no cenário político, veja memes".

Eu continuo no Twitter postando sobre almoçar no árabe e arrotar kafta de cordeiro o dia todo. Seila, acho que é porque quando cheguei em 2008 era tudo mato.

Hoje eu falei, registrei e sacramentei em todas as redes possíveis que chegaria em casa, tomaria um vinho e entraria na banheira; talvez não nessa ordem, talvez 2 garrafas, why not?. Pois eu fiz isso. Meti um Killers no iPhone (minha banda predileta, favor guardar quaisquer julgamentos), dei aquela chorada básica que vem se arrastando há dias e… É ISSO.

É isso.

Digo que "é isso" não porque PORRA AGORA TÁ TUDO EM PAZ. Não, certamente que não.

Eu fui estuprada em 2008 por uma pessoa que conhecia. Da minha roda de amigos. Saí de uma festa com o infeliz, uma galeeeera viu, e eu fui estuprada.

Levei uns 5 anos para entender e admitir que havia sido estuprada. Que aquilo não era sexo, não era consensual, que aquilo era uma das piores violências que se pode cometer contra alguém. Terrível, abominável, que me machucou brutalmente. Por 5 anos neguei para mim mesma que havia sido mais uma vítima desse crime que destrói 1 em cada 14 mulheres — estatísticas. Acredito que esses números podem ser ainda mais absurdos.

No entanto, mesmo depois de aceitar, eu não elaborei. Eu não me deixei comover, abalar, entender de maneira emocional. Escondi no porão do cérebro, lá numa gaveta cheia de outras mazelas, num armário do cantinho à direita, com passagem completamente atravancada por outros sofrimentos que eu não quero sofrer.

E tava lá o estupro, fossilizado.

Até uma semana atrás, quando sofri um abuso sexual. Dentro da minha casa. Dentro do meu precioso quarto de moça, com lençóis cor-de-rosa e quadro da Marie Antoinette, cheio de luzinhas de natal como nos boards do Pinterest.

E tudo reapareceu e ardeu e queimou. E eu sofri cada minuto desde esse momento. E vou sofrer mais, porque violência não é algo que se cura de forma rápida e garantida. Tem muito flashback. Tem pesadelo e insônia. Tem muito, muito choro. Tem ansiedade, angústia, tristeza, culpa, medo, vergonha.

Tem muito sentimento ruim e inferiorizante. Mas tem também um renascimento indescritível.

Porque a Rachel de agora em diante vai ser taaaaao diferente da Rachel de uma semana atrás… (eu já disse isso várias vezes aqui; eu mudo muito, ainda bem).

Me dá insegurança sobre essa Rachel do futuro? Porra, se dá. Será que ela vai ser ainda mais emocionalmente inacessível, para amigos, amantes, familiares e etc.? Mais emocionalmente instável? Será que ela vai ser ainda mais desconfiada? Será que…? Será será será será?

O que me tranquiliza é que, pela primeira vez, há perspectiva. Boa, ruim, estranha, vantajosa, não sei. Mas a Rachel de agora já sabe que tem uma história que merece ser contada. Que precisa ser compartilhada. Uma voz que provavelmente vai incomodar e agredir e chatear e insistir.

Mas é uma voz. A minha voz. Sobre a minha história. E eu acho que você precisa ouvir.

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