Clausura

Substantivo feminino

Recentemente instalaram no meu prédio um sistema de abertura de portões e garagens pela leitura das digitais dos moradores. Em cada apartamento há uma pequena tela ligada às várias câmeras de segurança e, por ali, posso permitir ou não a entrada de um visitante.

No dia da instalação propriamente dita, o técnico me explicava:

Aí a senhora fala pelo interfone, confere pela câmera e libera o primeiro portão. Aí com a pessoa na clausura, a senhora libera o segundo portão.

Clausura. Isolamento. Encerramento. Quem tá dentro não sai; quem tá fora não entra. Cadeias são utilizadas em todo o mundo porque não precisa mais do que a ideia de aprisionamento para se ter uma sensação amplamente democrática de ansiedade e angústia e medo.

Há alguns dias tenho tentado lidar com a clausura emocional em que fui pega. Acordo fazendo listas mentais das pequeníssimas obrigações das manhãs: alimentar os cachorros; comer sucrilhos; lavar o pote de sucrilhos; verificar se tem leite na geladeira; …; fim. É uma lista minúscula, mas que me ocupa bons 3/4 de hora.

Dirijo 12 minutos para a agência elencando tudo o que preciso resolver ainda antes do almoço e quais outras tarefas vão aparecer assim que máquina do expediente estiver na velocidade de cruzeiro, com toda tripulação ocupada em suas atividades.

À noite me abrigo nas migalhas de afazeres, no jantar, na comida para os cachorros, na troca dos cestos de lixo, na louça e em outras besteiras do tipo. Até a hora em que os remédios misericordiosamente me apagam e eu esqueço a minha clausura.

A minha clausura tem rostos, nomes, datas e locais. Ela reaparece vezes sem conta por dia, trazendo pequenos embrulhos de presente.

Num deles, me lembra que tive que usar mangas longas e gola alta em dias de calor, para esconder as marcas que denunciavam o meu estado.

Noutro, me traz a contradição que senti ao poder tomar banho, aliviada que assim começaria a limpar o corpo abusado, mas sentindo uma imensa dor de ter a água invadindo espaços machucados e feridos.

Minha clausura me mostra no reflexo do espelho tudo o que eu tentei esconder e apagar e enterrar por nove anos e que renasceu como brasa viva agora. Eu estou presa com aquela Rachel. Tudo que posso e devo fazer agora é aceitar o que aconteceu com ela-comigo, consolar a ela-a mim, cuidar dela-de mim, acolher a ela-a mim.

Porque neste momento nós somos vítimas. Mas um dia seremos sobreviventes.