Menstruação, absorventes e uma semana num acampamento de férias

Hoje eu tinha um date com grande possibilidade de sexo, porém fiquei menstruada ontem e tive que desmarcar. Tomo anticoncepcional desde os 18 anos, de modo que, há 14, sei exatamente quando ficarei menstruada. No entanto, dessa vez a bandeira vermelha foi hasteada sem aviso prévio.

Eu ia aproveitar o gancho para escrever sobre como está mudando (graças!) a relação da mulher com a menstruação. Sobre como os coletores menstruais parecem estar transformando essa trivialidade da vida feminina nisso que ela tem que ser mesmo: uma trivialidade. Eu não os uso, mas, pelo que entendi, eles permitem até algumas intimidades sexuais — contanto que não haja penetração vaginal. E se isso não é uma puuuuuta vantagem, olha, eu não sei o que mais pode ser.

Entretanto, lembrei de uma história ótima de quando tinha 14 anos e ia passar uma semana num acampamento de férias, a título de excursão escolar. Eram simplesmente os dias mais aguardados de todo Ensino Fundamental e eu, em abril, já tinha feito as contas e percebido que provavelmente ficaria menstruada DURANTE o acampamento, em outubro.

Isso significaria banimento total de qualquer atividade aquática.

Preciso fazer um vídeo mostrando o que acontece com um absorvente tradicional, externo, quando em contato com um montão de água? Espero que não.

Fiquei apreensiva. Ia ser um saco não participar das brincadeiras na piscina e no rio e um constrangimento sem igual ter de explicar que era porque estava menstruada. TODOS OS MENINOS IRIAM SABER e, para a minha pessoa aos 14 anos, tal ideia era sinônimo de pesadelo.

Não, definitivamente não. Não era uma simples menstruaçãozinha que ia estragar a viagem mais legal da minha vida (até aquele momento) e muito menos me fazer passar vergonha com toda a turma. Resolvi comprar um O.B., porém ainda na torcida para que o bendito ciclo atrasasse ou adiantasse uma semaninha, pelo amor de dels, não era pedir muito.

Só que, com 14 anos, seu organismo é um reloginho maravilhoso. Tudo funciona perfeitamente bem, conforme todas as regras da normalidade. Inclusive as regras. Sim, elas. E no terceiro dia de acampamento, eu acordei precisando de um absorvente.

O problema é que, nesse fatídico dia, teríamos uma disputa de CANOAGEM. Sim, num rio. Os quartetos já estavam separados conforme cada time; eu, inclusive, tinha tido a grande sorte de estar na mesma canoa que a Renatinha, minha melhor amiga na época, e dois moleques com quem eu não me dava assim tão mal. Ou seja: uma chance de diversão única na vida! Não era uma simples menstruaçãozinha que ia me fazer perder isso.

Perguntei às meninas do meu quarto se alguma delas já havia usado O.B. e teria alguma dica para me dar. Elas ficaram escandalizadas.

Mas você é virgem? Virgem não pode usar absorvente interno! Ele vai tirar a sua virgindade!

Devo admitir que eu era uma adolescente muito caipira, porém não era burra. Virgem é a pessoa que não fez sexo. O máximo que iria acontecer entre aquele O.B. e eu seria um rompimento de hímen. E já que tinha que escolher entre a competição de canoagem e meu hímen, sem sombra de dúvidas eu preferia a canoagem.

Sob protestos de todas as meninas de todos os quartos, fui para o banheiro só eu, minha coragem e o absorvente interno. As instruções do manualzinho minúsculo que acompanha a caixinha não ajudavam muito. Tenho certeza absoluta que rompi meu hímem eu mesma nesse dia porque, anos depois, na primeira vez que fiz sexo com meu primeiro namorado, ele não teve tanta dificuldade quanto eu tive com aquele O.B. Olha, foi uma luta, mas eu botei o troço lá dentro. E doeu bem, e sangrou outro tanto.

Valeu super a pena por dois motivos:

  1. Meu quarteto ganhou a competição de canoagem e, no fim daquela semana mágica, minha equipe foi campeã. \o/
  2. Eu nunca, nuuuuunca tive qualquer tipo de neura quanto a virgindade. Afinal, muito feministicamente eu mesma já tinha rompido meu próprio hímen — ou lacre, como se ouvia, pejorativamente, de vários caras escrotos daquela época.

Então, hoje vou dormir sem dar uma ~tranzada. Mas ao menos serviu para me lembrar dessa bela passagem da minha adolescência. No fim das contas, parece que aquela simples menstruaçãozinha me serviu de algo, né?