O corpo da mãe não lhe pertence.

Ou: o corpo da mulher não é praça pública.

Eu já sabia que as pessoas se achavam no direito de contestar escolhas pessoais, que não lhe dizem respeito. Já sabia que algumas pessoas acreditam que a sua verdade é melhor que a verdade do outro. Já sabia também dessa sensação que algumas pessoas possuem em descobrir algo que lhes cabe tão bem que, na inocência, acabam achando que todas as outras pessoas precisam ser “salvas”.

Vi amigas que escolheram parir à seu modo serem massacradas. A família, os parentes, o tiozinho da padoca, todos eles sabem parir melhor que você. Parir sem anestesia? Doida. Na piscina? Maluca. NA SUA PRÓPRIA CASA? Eita, interna essa daí. Pagar um boleto que é bom, ninguém quer. Só se metem, ignoram completamente que esse tipo de escolha só surge depois de muito estudo, muita conversa, muita confiança e muita certeza.

Nessa minha jornada de mãe já escutei muita merda. Algumas por praticar cama compartilhada, algumas por ter escolhido amamentar em livre demanda, algumas por acreditar que não faz muito sentido deixar neném chorando, pq não acredito em neném “mimado”. E todas essas crenças e escolhas se dão dentro da minha realidade. Quando tive Juan, a vida era outra. Não teve cama compartilhada quase. Teve creche aos seis meses, teve o encerramento precoce do aleitamento, pq a distância do trabalho para a creche era grande. Depois a realidade foi outra. E agora é de outro jeito, pq minha vida é outra também.

Tudo isso pra dizer que esses dias me senti muito invadida ao ser questionada sobre a minha escolha nesse parto: uma cesárea agendada. Percebem como nunca tá bom? Não importa a sua escolha, você está equivocada. Ignoram tudo o que eu ponderei. Ignoram meus saberes, minhas vivências, minha autonomia. Ignoram que o mundo não é acessível para o meu corpo, e eu preciso ter em mente que se algo der errado, eu coloco duas vidas em risco. Eu preciso checar se existe uma maca que me comporta, preciso checar coisas que muitas mulheres sequer cogitam, pq meu corpo é sim diferente. E tá tudo bem.

Nós somos as melhores mães que podemos ser.

Suas escolhas não te fazem mais ou menos. Busquem informações, saibam das possibilidades. E digo tudo isso dentro de um recorte, pensando em mulheres que possuem o privilégio de escolher. Existem outras realidades, mas não é o meu ponto nesse texto.

Respeitem as escolhas. Eu não quero ser salva.

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