Ele chafurdava-se nos papéis de sua mesa, com aquele paletó de flanela puído, que soltava fios de lã cardada ou fibra sintética… Impossível dizer ao certo. Só sabia que o objeto espanava a poeira dos livros no ar. Ela, que sentava à sua frente, perscrutava a porta, agora trancada. Afundava no couro, tendo dúvidas se aquele porco intelectual não estava mais para confuso do que para visionário. Afinal, ele era só um professor. Se fosse algo grandioso, ela não teria dúvidas. Mas, não. Era só um professor. Quem escolhia ser aquilo? No entanto, se questionou: quem escolhia ser algo? Tinha 13 anos e muitas dúvidas.
Quando o docente levantou a face acima da montanha de papéis e livros, as lentes de seus óculos embaçavam e aquilo lhe deu um aspecto mais louco que o normal. Não porque não enxergasse seus olhos dilatados, mas porque ele sorria, dementemente. Sentou-se incontido e trêmulo, observando a luz do sol iluminar o pó, que, àquela altura, parecia mesmo mágico.
“Então”, sua voz era quebradiça, “se todo mundo fosse igual a você, comesse as mesmas comidas que você come, bebesse a mesma bebida que você bebe, preferisse os mesmos livros, as mesmas músicas, os mesmos filmes e se deitasse na mesma cama em que você se deita, para ter os mesmos pensamentos com os quais você se advoga, você, sabendo disso, ainda seria você?”.
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