mentiras bonitas

Arthur me acolhe com a palma da mão sobre o pescoço, como de costume. Custo a dormir — então uso o tempo da noite para desfrutar do silêncio.

Acompanho o balançar do chaveiro, pendurado na porta. As rufadas de ar passam pelas frestas das janelas e dão força ao movimento que vai e vem. Não é como o bater de um relógio, cujo ritmo é constante. É mais como a percepção humana do tempo. Imprecisa.

Mergulhada na inconsciência, a mão de Arthur passa a pesar mais e me entregar ao sono — a maior entrega de todas. Penso também que deveríamos fazer um pacto. Vamos ser revolucionários! E como? Revolucionários, oras. Me diz quando doer e eu cuido de você. Depois a gente troca. Você faz o mesmo em mim e a gente repete isso. Vamos. Vamos.

Não te ouvi direito. Você disse que não teve tempo de ler meu último texto? Podia jurar que essa era uma daquelas mentiras baratas, insustentáveis, que se forjam numa resposta rápida, porque está se sentindo preso, com medo!, medo de viver aquilo que não sabe o que é. Ora! Não me diga que você foi enquadrado pelo sentimento sufocante, aquele mesmo que desejou tanto enquanto morria de tédio? Preparo o café. Medito possibilidades.

Afundo a cabeça na água da piscina até o nariz. Você também. Me imita. Rio embaixo d’agua e o espelho do mundo distorce. Você viu? Me imita, estou dizendo! Tá muito frio, vamos sair. Não! Olha isso. O maiô faz o som vácuo. Olha aqui. O elástico marca a pele de xadrez. Aperto com o dedo e faz um círculo vermelho. Viu? É sangue.

Você abre a porta e me encontra sem roupas, olhos tortos de ódio, cobrindo a sala com papéis, com letras! Olha desconfiado, enquanto digo. Você não acha de bom tom que eu extirpe os vermes alojados na nossa casa, meu amor?

Mãe. Mããããe. Vem ver. Aqui atrás. Não, mãe, vem agora! É uma surpresa.

Arranco as páginas daquele livro ruim, de autoria medíocre, cheia de palavras substitutas. Quanto desprezo! Deveríamos cuspir na cara de quem fez isso. E sabe o que mais? É uma ameaça dentro da nossa casa! Quem vai escrever uma linha decente depois disso?! Veja! VEJA! Sente o cheiro! Tá sentindo? Já passou pela mão de muita gente. Se esfregou em muito pau por aí. Essa filha da puta nunca deveria ter nascido, eu te falei! Você não teve tempo de abortar? Não seja burro. O tempo aqui dentro não existe. Fala logo o que você veio me dizer, porque ainda tenho muito papel pra arrancar.

Estou grávida, te digo. Grávida com o quê, você pergunta tedioso, enquanto assopra o café.