Postura

Sobre essa postura que eu tinha, que tia Rose dizia pra ajeitar, e o pilates tentou, e a reflexologia também, mas ela foi encolhendo e encolhendo. E esse ano, em que eu falei em uns dias “enhorabuena” e outros dias eu so deitava no sofa de casa e mirava o teto, ou a tela do celular de candycrush, pra não pensar nos problemas. E sabia que a postura ia ficando mais fechada, uma castanha, e meu coração se oprimindo, se oprimindo.

Ai meu coração me disse, Rachel, ou bem você bate, ou bem eu paro de bater. Eu tô aqui, no frangalho, Rachel, reaja.

E ai veio piolho e eu raspei a cabeça, porque aquele cabelo, daqueles meses, eu não ia doar não. Não era cabelo bom, não era cabelo de força. Os piolhos atacaram ja pra defender.

E eu toda entortada, como uma velhinha, não porque cheia de vida, mas porque perto da morte.

Raspei e tirei, junto com os cabelos, os meses que passaram de Rachel encolhida.

Tirei o peso, renovei. E o cabelo cresceu, e cresceu no meu ritmo, que é muito mais rapido do que parece. E conforme ele ia crescendo, tive que aparar umas besteiras no cabelo e na minha vida. Mas segui, enfrentei, fiz exercicio pro corpo e fiz exercicio pra vida, atirando pra longe o que era peso morto, trazendo pra perto o que era peso vivo.

Gritei antes, gritei agora, se não gritei no grito, gritei na palavra. Não me dei por vencida, senti o golpe do destino, mas cai não.

e hoje vi que meu cabelo ja pode ser preso atras. Esses meus 27 anos que começaram com uns planos que morreram, uns que renasceram. Aprendo italiano, escuto elogio, faço ioga e sinto mudar, sinto meu ser mudar. Olho pros meus cabelos e vejo eles selvagens. Sinto tudo dentro de mim muito mais intenso. Caminho não mais melancolica, mas sigo vertical. Um vertical que sempre esteve dentro de mim, so nao tinha tido sol pra crescer. Esse ano teve, abri as janelas, e as portas, e o teto.

Minha postura teve que se livrar do passado, do seu peso, pra retomar quem era, chegar ao que não sei se algum dia foi. minha postura vai linda, essa que a gente vê e essa que so eu vejo, mais forte, mais apontando pro céu, esses olhos que olham ao longe, essa cabeça que é puxada pra cima pelo meu Eu maior, que me diz “the further up you look, the further up you’ll be.”

Esqueço pouco a pouco a existência do que veio de ruim, porque, como diz Marli, o que vem de ruim é pra melhorar, e eu soube me colocar diante disso tudo. Me reerguendo. Com tantas mãos que me ofereceram agua, carinho, direção. Esses 27, de movimento pro alto e avante, vão terminando, indeléveis, mudando minha postura para todo o sempre.