Sal et motus

Abro os olhos e estou em pé. Agua por todos os lados, cristalina. Azul, la ao longe. É muita agua. Devo estar no mar. Provo, é salgada. Não ha praia, so ha azul. Começo a andar e olhar e vejo que a agua se aprofunda para onde quer que eu ande. As ondas me levam e me trazem, as ondas aumentam, a maré sobe. Estou perdida, sem referência, nessa superficie linda e monótona, nessa imensidão de movimento.

As ondas batem em mim. Por vezes as acompanho, mas elas aumentam. Estou cansada, resolvo boiar. Toca na minha mente aquela música do Modest Mouse “and we’ll all float on, ok, and we’ll all float on anyways”. Mas o mar parece querer brincar comigo, porque ele aumenta o sobe e desce e boiar agora fica perigoso, tanta agua entrando no meu nariz. O chão quase não da mais pé. As ondas me desafiam. Tento enfrenta-las e por vezes não consigo. As ondas vêm muito fortes.

A verdade é que as ondas são um reflexo do que nos afeta na vida. Quando você pode se erguer junto, funda-se à onda: sera uma sensação de vôo, de salto. Quando a onda é maior do que você, o único a fazer é antevê-la e, antes que ela chegue e te arraste, mergulhar dentro dela. Você se torna parte do movimento mais profundo. Quando a gente está dentro da onda, mesmo indo contra ela, o baque se dispersa. Enfrentar onda grande de peito cheio, achando que vai passar tranquilo é coisa para iniciante, que acha que é maior que o mar. So serve para levar caldo.

Em um desses mergulhos, vejo o quanto viajei e fui viajada pela superficie marítima, pois o mar me trouxe para corais, que abrigam peixes, moréias e uns naufragios. Fico contente pela companhia, pela possibilidade de me repousar quando a maré baixar. Exploro. Vejo o colorido, sinto as texturas, ainda o movimento. A maré abaixa, sento-me em um coral depois de assegurar-me de que ali não ha ouriços. Contemplo. Pergunto-me onde estou, o que farei para voltar. Chove. Desco o corpo e olho a superficie, tão calma e ainda tomada por movimento. O céu alimenta o mar. Subo e deixo a chuva me dessalgar o rosto, os labios, tão castigados por esse sal. O mar é mais bonito quando chove, sempre vi da minha janela. Fica verde claro neon, fica violeta, antes da chuva, que se descortina como se fosse revelar algo de sublime depois que passa.

Mergulho, decidida a encontrar saida. Estou cansada, ainda. Nado pelos corais, meio sem saber onde estou indo, mas seguindo em uma direção, a favor da maré. Então enxergo, ao longe, alguém que vem em minha direção. Com pés de pato e snorkel, chega até mim Gabriel, meu amigo mais novo e mais positivo. Da-me a mão e me guía, aliviando meu cansaço e me levando até a praia. Atinjo a areia , saio do mar e Gabriel me deixa so, porque ele sabe que o mar estava, nesse tempo todo, falando comigo. Era Deus, onipresente na natureza, me mandando o recado. De que o movimento é continuo, de que a gente tem que saber mergulhar, enfrentar, observar. De que ha chuva, e ha peixes, e ha corais para o descanso. De que ha amigos, também, para ajudar a gente a nadar. De que ha fim.

Naquela noite, quando eu me deitei, as ondas ainda se faziam sentir, me berçando o corpo e o espirito. O movimento é eterno, me disse o mar, e é ele que te faz ver, navegar, esperar e descobrir.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Nina Queiroz’s story.