Esfregões coloridos e Ms. Lauryn Hill

Quando era pequena adorava ir a aqueles lava a jatos de posto com meu pai. Era uma época boa, porque eu ainda conseguia me deitar sem nenhuma dificuldade no banco de trás do carro. Às vezes eu ficava a viagem inteira ali deitada, escutando aquele CD de black music do meu pai, e ao mesmo tempo conseguia ouvir os pneus rolarem sobre o asfalto meio surrado e esburacado das rodovias de Brasília.

Quando escutava meu pai dizer que precisava lavar o carro era como se ele dissesse que iria me comprar uma nova Barbie, ou roupas novas para as bonecas que enfeitavam a prateleira do meu quarto.

Quando o carro se posicionava dentro daquele quadrado e os esfregões gigantes começavam a cobrir o carro, era como se naquele momento eu provasse um pouco do paraíso. Mesmo naquela época, eu sempre gostei do silêncio; mas não aquele silêncio que deixa a gente meio paranoico, mas aquele silêncio que embala a gente nos braços, que dá um pouquinho de paz.

Eu colocava minhas mãos pequenas no vidro do carro e sentia o gelado do sabão e da água que era jorrada em seguida. Eu ficaria ali horas e horas com as bochechas coladas no vidro, fascinada com os esfregões, com o sabão que parecia neve, e com a água que descia dançando sobre os vidros.

Passaram-se só dez minutos desde que acordei. São cinco e meia da manhã agora, e talvez seja a terceira vez só esta semana que levanto antes do despertador.

O silêncio da rua me deixa louca. O tic-tac do relógio faz meu estômago ferver. Fumo um cigarro atrás do outro, pensando ansiosa sobre como será o meu dia. O frio corta meus pensamentos como navalha sobre a pele. O moletom vermelho parece não servir de mais nada, porque ainda sinto arrepios na pele, ainda sinto o peito doer de tanto tossir durante a noite.

É foda quando você sente que algo está faltando ou quando tudo parece estar dando errado, como se você estivesse o tempo inteiro andando sobre uma corda bamba.

Sentada aqui no chão frio do terraço eu vejo poucos pássaros voando no céu ainda meio alaranjado. Penso que deveria abandonar o cigarro, os dias de pileque, as noitadas a base de luz neon e música alta. Penso também que deveria começar a me alimentar melhor, tomar mais água, fazer exercícios e tentar ter uma noite de sono digna.

Besteira.

A vida adulta mexe com a gente, né?! Em uma hora você consegue deitar no banco de trás do carro, e em outra cochila com a bolsa no colo em um ônibus lotado à caminho de casa. Em um dia você sente orgulho de ter se tornado o ser humano que batalhou pra ser, e em outro se olha no espelho e não se reconhece. Em algumas noites você sente vontade de virar a noite dançando, e em outras só queria ter uma noite de sono plena.

Cochilo no ônibus mais um dia a caminho do serviço. O cérebro tenta me fazer pensar sobre onde estaria o crachá da empresa “na bolsa ou em cima da cama?” ou se chegaria mais um dia atrasada no trabalho. Na garrafa térmica metade de um copo de chá de morango, a barriga roncando.

“Se eu conseguir chegar pelo menos vinte minutos antes do horário eu consigo comprar uma salada de frutas e terminar de assistir aquele episódio no Netflix”

Droga.

Eu só queria estar com as mãos na janela, sentindo os esfregões coloridos limparem o carro, escutando Ms. Lauryn Hill.

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