O espelho

Eva olhava-se no espelho. Usava bastante de seu tempo para ver aquele rosto que não desejava: a cicatriz feita pelo seu ex-namorado com uma faca de cozinha ainda doía. Não no rosto, mas na alma. Uma triste cicatriz retilínea, uniforme, cirúrgica, transcorrendo o percurso entre a narina direita e a bochecha, também à direita.
 
 Eva não perdoaria nunca o Juca, seu ex-namorado. Não por tê-la cortado o rosto, mas por não matá-la, já que preferia estar morta do que viver com esta face macabra. Deixou de estudar assim que seus colegas de turma lhe puseram o apelido “scarface”. Já não saía de casa há muito tempo. A vida para Eva era pior que qualquer pesadelo infernal. Tudo o que ela queria era ter uma vida nova, retroceder estes dias e viver à sua maneira: uma nova chance que o espaço-tempo nunca lhe daria.
 
 “Vem comer, Eva. O almoço tá na mesa!”, grita Edwiges, sua mãe, ao pé da escada. Foi o som que despertou Eva de seus devaneios em frente ao espelho. Desceu a escada em passos medidos, como sempre. Verificou se sua mãe não havia convidado ninguém para almoçar — mania maternal que deixava Eva muito irritada –, viu que só estavam ali ela, sua mãe e Desdêmona, sua gata. Sentou-se para comer. Qual a sua surpresa que, depois de meses, Edwiges fez batatas fritas, a comida dos sonhos eternos de Eva. “Ah, Dona Edwiges, não precisava!”, dizia (na verdade, precisava sim).
 
 As duas conversavam e o morro de batatas fritas entre elas diminuía lentamente. Edwiges não ousava falar dos traumas de sua filha e da necessidade de superá-los, apesar de querer muito. Eva não ousava perguntar sobre a visita de sua mãe à mãe do Juca e a tristeza daquela, apesar de querer muito. Então, conversavam sobre novela, política, metafísica, filosofia, chocolate, física quântica. Edwiges falava daquela casa, abrigo da família há gerações e que, dizem, guarda mistérios. Eva falava que isso era conversa, história para impressionar criança.
 
 “Mas sabe, Eva, seu bisavô dizia que o espelho do sótão é mágico…” dizia, crédula, Edwiges. “Bobagem, mãe! Aquele espelho me deixa bonita, por acaso?” dizia, cética, Eva. Cética mas incomodada com aquelas palavras, inéditas para ela. Pensava no espelho lá no sótão e as horas que gastava em frente a ele, remoendo lembranças dolorosas. Pensava o quanto aquele espelho a ajudava a pensar. Mas sabia que o mundo gosta de fazer coincidências para confundirmos com destino ou mágica.
 
 Depois de dar boa noite à sua mãe, Eva subiu para o sótão. Lá, ficou novamente encarando o espelho, pensando em como seria sua vida se não tivesse conhecido o Juca. Mas aí entrou um elemento novo à sua quimera: as palavras de seu bisavô repetidas por sua mãe. Olhava para o espelho e, desta vez, sentia como se o espelho olhasse para ela também. Encarava sua imagem refletida que, agora, parecia ter vida própria. Humanamente, quis tocar sua mão com o reflexo e, neste instante, viu um grande clarão, sentiu-se desmaiar e lembrou-se subitamente do que havia apagado de sua memória: a noite em que Juca a cortou.
 
 Parecia estar lá, novamente, como se tivesse voltado no tempo. A discussão, o hálito impregnado de cachaça na boca do Juca, o exato momento em que pegou a faca. Sabia o que ia acontecer, segundos depois, minutos, horas, dias, anos depois. “Vou rasgar tua cara, vagabunda!”, repetiu ou disse pela primeira vez Juca, Eva não sabia ao certo. Como se tudo estivesse em câmera lenta, Eva pegou uma chave de fenda, daquelas compridas. Assim que recebeu o golpe de Juca em seu rosto, Eva enterrou a ferramenta no peito do namorado. “Você conseguiu mudar tudo, né, vagabunda?”, disse Juca sua última frase, já na verdade-epifania dos mortos.
 
 Eva viu novamente um clarão. Desmaiou. Acordou estranhamente de pé, no sótão. Olhava-se no espelho. Usava bastante de seu tempo para ver aquele rosto que, apesar de tudo, desejava: a cicatriz feita pelo ex-namorado com uma faca de cozinha já não doía. Nem no rosto, nem na alma. Uma ínfima cicatriz assimétrica, até mesmo charmosa, transcorrendo o percurso entre a narina esquerda e o lábio superior. Também não doía sua consciência por ter enterrado uma chave de fenda no peito de Juca, tirando-lhe a vida. “Legítima defesa!”, repetia a si mesma. Legítima defesa de sua vida, sua honra, sua dignidade, seu universo.


Originally published at www.racoski.com on February 19, 2016.

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