Sobre mães (e mães de cachorro e gato)

Aquela maravilhosa época do ano em que feministas se atacam pra decidir quem é mãe e quem não é…

Todo ano a mesma coisa. Esse ano eu vou fazer textão (é textão mesmo) porque cansa ver mulheres com medo (MEDO) de serem julgadas/xingadas/humilhadas por outras mulheres.

Eu tutelo um gato e um cão. Chamo os dois de filhos.

Passo noites em claro, gasto o que não posso, faço dívidas, deixo de sair, de viajar, falto trabalho, mudo de casa para me adequar a eles, me afasto de pessoas, pessoas se afastam de mim…

Mas eu tenho plena consciência de que, de forma alguma, o nível de responsabilidade que tenho é o mesmo de ser mãe de uma criança.

Até porque, se fosse igual, eu não teria bicho nenhum, já que escolhi não ser mãe de gente (um privilégio que reconheço) e não carregar essa enorme responsabilidade para o resto da vida.

Ser “mãe” de pet é não estar atrelada a homem nenhum, já que não há um “pai” envolvido (às vezes até há, com briga judicial e tudo). Mas eu não tenho que correr atrás de pensão, não tenho que cobrar afeto para o filho, não tenho que aturar homem nenhum eternamente por causa desta ligação. Ser “mãe” de pet é não ser questionada no trabalho sobre faltas e não ser preterida na hora da contratação. Ser “mãe” de pet é saber que eu posso ir para a balada e deixar os dois em casa sozinhos porque eles sabem se virar se eu passar algumas horas fora. Ser “mãe” de pet é saber que eles possuem uma certa independência que me permite ter mais liberdade e menos responsabilidade do que eu se eu fosse mãe de uma criança.

Mas ser “mãe” de pet também é saber que não basta colocar água e comida, que é preciso sim abdicar de muita coisa para cuidar de outra vida com responsabilidade, seja qual espécie for. É saber que o amor envolvido é real.

E dizer isso não diminui em nada as mães de humanos.

“Por que vocês precisam chamar de ‘filho’?”, “Por que vocês precisam se chamar de ‘mãe’?”.

Porque nós fomos criadas para a maternidade. Fomos “mães” de nossas bonecas, fomos “mães” de nossas amigas quando brincávamos de casinha e, agora que crescemos, somos “mães” de pets. Sempre nos ensinaram que o sentimento de amor e de cuidado por outro ser vinha do nosso instinto maternal. Além disso, muitos homens que amam e cuidam do seus pets também se denominam “pais” e ninguém vê nada errado, pelo contrário.

Precisamos desconstruir essa necessidade de atrelar cuidados à maternidade? Precisamos. Mas isso se faz atacando o problema, não atacando outras mulheres.

“Mas vocês comparam ter um cachorro com a maternidade”.

Eu tenho plena consciência de que maternidade não é a mesma coisa que tutelar um cão. A maioria das “mães” de pet também tem.

A ciência já confirmou que o amor é semelhante. O sentimento é o mesmo. Quando estou amassando o meu cachorro, digo carinhosamente que ele é o “nenezinho da mamãe” porque não seria fofo dizer “cachorrinho fofo da sua tutora”. Mas não precisam se preocupar porque eu sei que não pari o cachorro.

“O amor não é o mesmo!”

Eu não sou mãe. Não posso dizer que sei que o amor é o mesmo.

Mas a ciência diz que sim. E eu tenho relatos de diversas mulheres, que são mães e que tutelam animais, de que o sentimento é o mesmo.

Da mesma forma que eu não sei qual o sentimento de amar um filho, ninguém sabe sobre o sentimento de outras pessoas.

Dizer isso é bem parecido com dizer “você só conhece o amor quando é mãe” ou “você só será uma mulher completa quando for mãe”. Isso sim é diminuir outra mulher e querer empurrar a maternidade compulsória goela abaixo para que ela não seja eternamente incompleta e seca de amor.

“Diz que ama, mas se for se mudar não pensa duas vezes em dar para outra pessoa ou abandonar”.

Nem merece resposta esse tipo de “argumento”, né.

Quem ama não abandona. Nem filho e nem animal. Isso é coisa de gente irresponsável (e tem gente irresponsável abandonando todas as espécies).

“Mãe é quem dá a luz”.

Esse argumento é muito feio. Parem de menosprezar mães adotivas, avós que criam netos, tias que criam sobrinhos.

“Você não tem filhos e não sabe o que é ser mãe”.

Nem quero.

Por isso, repito, eu escolhi não ser mãe. Tenho plena consciência de que nem todas as mulheres têm o privilégio desta escolha, mas eu tive.

Ser mãe (e todo o resto que acompanha) não faz parte dos meus planos. É por isso que eu tenho só tenho um cão e um gato.

E é por isso que eu tenho plena consciência de que não é a mesma coisa.

“Mas tem mulher que diz sim que é a mesma coisa ser “mãe” de pet e ser mãe de criança”.

Tem mulher que diz que deve servir ao marido, tem mulher que odeia feminista, tem mulher que odeia criança… Infelizmente, tem gente pra tudo no mundo.

“Quem se diz ‘mãe’ de pet tem carência emocional”.

Tá certo, Freud. Senta lá.

“Quem se diz ‘mãe’ de pet humaniza o animal”.

Nem sempre. Tem quem humanize o animal, trate como bibelô e não pense duas vezes antes de se livrar dele quando fica velho ou doente.

“Não precisa criar pet como filho”.

Não, não precisa. Cada um cria como quer. Tem gente que acha que cachorro só serve para proteger a casa e tudo bem dormir do lado de fora. Tem gente que acha que gato só serve para pegar rato e tudo bem só receber água e comida. Ou seja, tem gente que acha que animais têm o único propósito de servir seres humanos e tem gente que acha que eles são parte da família e merecem o mesmo respeito e cuidado.

Aqui em casa os animais são da família. Fim.

“Vocês contribuem para que mães sejam oprimidas”.

Sério?

Quando uma mulher não é contratada num emprego por ser mãe, o problema é do empregador ou da outra mulher que tem um cão em casa?

Quando uma mulher é mal recebida num local porque está com uma criança, o problema é de quem discrimina ou da outra mulher que tem um cão em casa?

Quando uma mulher é impedida de estudar porque não tem com quem deixar o filho, o problema é da falta de creche ou da outra mulher que tem um cão em casa?

Quem oprime mães é o patriarcado ou a outra mulher que tem um cão em casa?

Por que os ataques são direcionados a outras mulheres mesmo?

Eu, sinceramente, não me importo com quem acha que estou errada, mas há mulheres com medo de postar foto com cachorro e gato, com medo de escapar uma legenda com “filho” ou “mãe”, como medo de dizer que amam seus bichos de estimação. Mulheres com medo de outras mulheres.

Como se não bastasse viver com medo pelo simples fato de ser mulher…

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