Sobre o suicídio

Após um longo período de relutância pessoal, finalmente assisti a série norte-americana 13 reasons why. Confesso que relutei pois há alguns poucos anos convivi pessoalmente com um episódio de suicídio de um amigo próximo. Não peso aqui sobre as questões que motivaram o desfecho trágico, mas compartilho um sentimento de responsabilidade enorme por não ter conseguido impedir a concretização do ato. Não digo que não percebi que o meu colega pensava em tirar a própria vida, pois infelizmente eu percebi. Percebi tanto que procurei ajuda por ele frente os profissionais da minha faculdade que coordenavam um núcleo de saúde do estudante. Coincidentemente, um psiquiatra coordenava o núcleo, mais coincidentemente ainda era a sua postura em negar de todas as formas que tal desfecho não seria possível, pois os suicidas dão indícios de seu plano. Os sinais que percebia não era da ordem do falado, era justamente no não falado. Eram nas promessas e nos avisos que meu colega me dava que queria conversar comigo e nunca levava a cabo a conversa. Eram pelas aulas nas quais faltava sucessivamente sem aviso, eram pelos olhares dispersos, pela fala entrecorta, pelo gestos tremidos e grande ansiedade que demonstrava. Eu via cada sinal claramente, mas do que ver, eu sentia que seus pensamentos estavam perturbados, alias, sua vida caminhava de maneira torta. Para mim, estes eram indícios. O psiquiatra, contudo, negou veementemente. Convivi desde aquele dia, com esse sentimento de algo que poderia ter feito. E aquelas palavras do psiquiatra: O suicida dá indícios de seu plano, nunca mais saíram da minha cabeça.

A série mostra bem o que é essa degradação gradativa do entorno da pessoa que se suicida. É como se aos poucos os laços sociais fossem afrouxados, um sentimento de não se sentir importante para ninguém, uma dificuldade enorme de construir uma narrativa de sí. É como se os nossos laços, aquilo que fazemos, nossa função social, fossem a justificativa para que possamos prosseguir com a existência. Cortando isso, não sobra nada mais, sobra uma vida do corpo em um contexto onde a subjetividade já se encontra morta. A Hannah, personagem principal da série descreve bem por meio de seus discursos esse sentimento de desagregação dos laços. Em um dado momento do último episódio ela chega a testar se sua vida realmente é digna de preocupação, levando a cabo um teste de uma denúncia sobre o abuso que sofreu ao conselheiro estudantil de sua universidade. O profissional a aconselhou, tentou a ajudar, mas não acreditou nela, não foi atrás dela. O telefone tocou no exato momento em que ela saia da sala solicitando uma intervenção ativa que demonstrasse a ela mesma que sua vida valeria a pena de ser vivida. Intervenção essa que jamais aconteceu. A porta se fechou e com isso as possibilidades de se sentir digna também.

Por trás dessa degradação social da vida subjaz uma outra questão importante e pouco notada pelo enredo da história: O fato de que por vezes, a morte é mais importante do que a vida. Dentro da nossa cosmologia social, por vezes nos referirmos aos mortos como se eles estivessem aqui. A morte é a possibilidade de uma existência na eternidade. Uma existência que esse mesmo contexto social nega aos vivos e que, contudo, se abre aos mortos. Por meio de sua morte Hannah seria lembrada, seria homenageada, estaria mais presente e com mais reconhecimento do que esteve em sua vida. Na nossa sociedade quantos não são os mortos eternos. Quantas páginas de jornais rendem o suicídio de um estudante de medicina. Quando um atendado é realizado na Inglaterra, nos EUA ou na França, em pouco tempo temos conhecimento do nome, do endereço, da profissão e até mesmo de momentos mais agudos das histórias dos mortos. Por outro lado, diante de uma chacina da periferia, das vítimas de atropelamento nos bairros populares das grandes metrópoles, no máximo tomamos conhecimento por meio de um fragmento de canto de página de algum jornal do bairro. Com isso, por trás dos aspectos da morte, ainda nela, se escondem os mesmos simbólicos que operam nas nossas vidas. A morte também é carregada de função social, e é também um importante reflexo dos atores sociais. Existem mortes que devem ser lembradas e mortes que serão eternamente esquecidas. Os aspectos trágicos mórbidos de nossa contemporaneidade se encarregam enormemente de dotar de valor simbólico e de importância as mortes dignas de serem mortas, independente dos aspectos indignos que vida tenha assegurado aos atores que falecem.

Após a série, tive a infelicidade de assistir um trecho de uma conferência da sociedade brasileira de psiquiatria - ABP acerca da série e do suicídio. A psiquiatra que discursava falava que a grande limitação da série era não terem evidenciado como deveria os aspectos da doença mental que acometia a personagem Hannah. Ao ouvir esse discurso, me trouxe de volta a lembrança do psiquiatra da minha faculdade e também do conselheiro da série a quem Hannah recorreu, ainda hoje, é preciso tratar o suicídio como questão de uma doença. Carece a psiquiatria a humildade de procurar em outros campos epistêmicos as respostas que não lhe competem atribuir. Tratar como doente o sujeito que põe um fim a sua existência é por demais limitado. É ao meu ver um típico discurso de quem munido de sua autoridade e de seu conhecimento acredita que pode agir para intervir na vida. Enxergar como uma doença os aspectos trágicos de um esvaecimento progressivo dos laços sociais é culpabilizar ainda mais o indivíduo pela sua inadaptabilidade em uma sociedade, esta sim, doente.

O filosofo e um dos fundadores da sociologia Emile Durkheim tratou do suicídio em uma de suas grandes obras. Ele partiu do pressuposto do suicídio como um fato social, ou seja, um fenômeno que ocorria na sociedade e de certo modo interferia nas ações práticas dos indivíduos. Partiu de sua pesquisa a ideia de que se suicida aquele que é triste. Triste ao ponto de pôr um fim à sua própria existência por não enxergar nela motivos para viver. Dentre os fatores que revelou importante influencia no desfecho encontrou: as pessoas casadas se matam menos, as pessoas com filhos que dependem financeiramente idem, as pessoas com trabalhos estáveis, e aquelas com trabalhos que envolvem grandes teias de relacionamento dentre outros. O que considero importante na análise e na comprovação de seu método sociológico, é a evidencia encontrada de que os relacionamentos sociais à medida em que se fortaleciam tendiam a diminuir a incidência do extermínio à própria vida das pessoas e, no contrário, a medida que se afrouxavam os elos sociais e de sociabilidade, a tendência do comportamento era aumentada.

A despeito da limitação de dos vieses da visão sociológica acredito ser de fundamental importância a ponderação dos fatores sociais e intersubjetivos na abordagem desse tema, especialmente para prevenção de fins trágicos. Enxergar como doença os fatores que levam o indivíduo a se matar é aumentar ainda mais o abismo entre ele e a sociedade que o compõe enquanto ser inserido em um ambiente coletivo. As marcas subjacentes a configuração do doente colabora ainda mais para a criação de estigmas que interferem negativamente na possiblidade de configuração de laços socialmente estáveis. Com isso não digo que todo indivíduo que se suicida o faz por causa do contexto social e nem tampouco nego a existência de doença por trás de alguns indivíduos que encontram na morte sua solução, não é essa minha proposição. Defendo apenas que a ideia que as redes e os laços de sociabilização podem e devem ser utilizadas como instrumentos de atuação na prevenção de fins indesejáveis. Nesse ponto a série trata com grande ênfase os aspectos que o meio poderia ter tido em diversas etapas para que Hanna não tivesse chegado às vias de fato, o que se repete no final da série no personagem Alex e o que também dá indícios de repetição por meio da coleção de armas que o personagem Tyler, que também sofria bullying e enfrentava uma desagregação social, escondia em seu quarto.

Por fim, deixo enfático a ideia que não acredito que o suicida dá indícios de sua ideação. Ao meu ver se os indícios existem eles são sutis e podem ser muito mais percebidos pelo seu entorno e por aqueles que compartilham a vida cotidiana da pessoa do que notado por meio de marcas corporais ou alterações súbitas de comportamento. Evitar um suicídio não é simples, nunca será, mas exercitar a atenção naqueles que nos circundam; emprestar um olhar atento aos aspectos imponderáveis e incomensuráveis de nossas redes de relacionamento é muito mais eficaz do que inferir uma doença diante de uma pessoa que não se adapta a uma sociedade em constante processo de adoecimento.