o ladrão
eu cresci dentro de um ambiente religioso. sempre que digo isso, muita gente já entende mais de cinquenta por cento das guerras que travo. o problema em si não é a crença, a fé, a busca por espiritualidade, propósito e etc. e sim a imposição de viver debaixo de um ambiente cheio de regras.
pois bem, nem sempre foi assim. por muito tempo eu gostava disso, adorava por sinal. era uma seguidora assídua de muitos princípios e valores religiosos. mas nunca deixei o ceticismo perante muitas questões. mesmo sendo muito mais impulsiva e emotiva do que racional, sempre critiquei e me posicionei perante muitas opiniões e padrões que não aceitava dentro desse tipo de ambiente.
e com os anos passando, obviamente, fui ensinada que aquilo que começa com s só deveria ser feito depois que eu encontrasse a pessoa certa, sabe? a pessoa ideal, que realmente me quisesse bem e desejasse fazer isso comigo sempre. casar assim era a coisa mais linda do mundo. ah, a espera! o encontro! o famigerado momento!
mas ninguém nesse meio tempo, me ensinou sobre o que era realmente um relacionamento. ninguém me disse que a possessividade alcança níveis inexplicáveis e que abusadores nem sempre são esquisitões, mas podem sim ter sorrisos carismáticos e tratarem bem atendentes diversos. diante disso, com meus dezoito anos fui me levando aos poucos nas desilusões construídas a partir de bases religiosas. porque quando é amor, a gente tem que renunciar tudo porque o amor é tão difícil, mas vale a pena. eu preciso fazer o que for preciso pra dar certo, assim como haviam me ensinado.
começou com um flerte aqui e ali me fazendo acreditar que se eu levasse aquela pessoa comigo para aquele ambiente e ela acreditasse nas mesmas coisas que eu, poderíamos ficar juntos. mas nesse caminho, eu tive avisos. pessoas me diziam que aquilo poderia não me fazer bem, mas ninguém me mostrava o porquê com clareza.
de repente, aquele sorriso que eu aos poucos me apaixonei me trazia lágrimas. aquelas risadas que antes pareciam tão frequentes, agora quase nunca apareciam. tudo foi ficando tão obscuro. aos poucos, acreditei que não precisava de mais ninguém além dele, então me afastei de tudo e todos. as brigas eram frequentes e a todo momento eu cogitava um término, mas não conseguia porque afinal, ele me amava, não é mesmo?
era o que aquela voz que eu gostava tanto me dizia sempre que me fazia confessar estar errada e pedir desculpas. e pedia desculpas. e era culpada. e pedia desculpas mais uma vez. culpada. desculpa. eu já tinha me entregado da forma mais íntima para alguém porque ele me fez acreditar que iríamos sim nos casar e ficar juntos para sempre, então por que não?
um belo dia, eu me dei conta que aquilo fazia mais mal do que bem. não lembro como, mas o sofrimento por si só já era um alerta suficiente para isso. e foi libertador. por tanto tempo acreditei naquela mentira que ele contou sobre ser a única pessoa que me amaria e me aguentaria, que quando finalmente saí da relação dando o primeiro passo em direção a mudança, aquilo me destruiu.
o abuso nunca acaba com o afastamento. a pessoa ainda te controla quando o tempo todo você pede desculpa e deixa de usar determinada roupa porque ele não gostava. quando você olha para alguém que te atrai e se sente culpada pensando no que o abusador pode te fazer se descobrir.
lembro que um tempo depois que terminamos, ele tentou se reaproximar, tentou me fazer acreditar que eu era vulgar por compartilhar minhas histórias com outros caras, me xingou. apareceu no meu trabalho, caminhou até a faculdade comigo inventando histórias sobre como a vidinha dele estava tão cinza e sem graça. uma pena você nunca ter percebido, mesmo depois de anos de convivência, que quem roubou as cores que eu usava pra dançar foi você.
