Mind games da música: Leitmotiv

É primoroso como uma única palavra nos permite referenciar signos muito distantes que se encontram em sua essência. E a intenção de abrir esse post com uma frase digna de introdução no “Mais Você” não é em vão.

Quem me acompanhou durante os anos de blogosfera e CdP (que nada tem a ver com esse texto) já está habituado a ler sobre essa tangente entre o significado habitual e o não-usual. E sim — constantemente mirando na música.

Surpreso? Duvido.
Por isso estamos aqui novamente, naquele mesmo ponto de virada.

Mas antes avalio alguns débitos e concluo que, depois de tanto tempo sem publicar nada, encarguei um compromisso comigo mesmo de explicitar as memórias que suscitaram a vontade de escrever esse post (talvez para futuras auto-análises, quem sabe).

Quando criança alimentava um singelo mantra imaginativo que até hoje não encontrei uma boa desculpa para deixar de praticar, apenas extraviar os meios.

(Leitor, talvez nos identifiquemos a partir desse ponto, já que nas minhas pesquisas de opinião a originalidade desse hábito se provou quase nula)

Explico: antes mesmo do Spotify, eu já tinha o costume de criar uma playlist mental que se enquadraria em momentos específicos da minha vida, dos mais banais aos mais significativos [para uma criança de 5 anos, vale lembrar].

Per se não há muito o que explicar se não que adorava imaginar Backstreet Boys estourando no volume máximo da minha mente (em algum lugar entre o subconsciente e aquela outra área que onera nosso senso de ridículo) enquanto encaixava despropositadamente peças de LEGO ou rolava no lixo do prédio.

O que meu “eu-jovem” estava construindo naquele momento era mais significativo que poderia conceber naquela fase pouco intelectual da vida. E é por isso que vale tentar entender.

Felizmente para mim, os termos mais fáceis de se assimilar são os que estão mais inseridos nos meus próprios hábitos. Hoje quando penso nessa situação, imediatamente me vêm à mente leitmotiv.

Leitmotiv é o tema musical que acompanha um personagem, local ou situação durante uma narrativa.

Para quem não é familiarizado com o termo, não é difícil pensar em exemplos. Afinal, quando bem feito, o leitmotiv escancara o próprio significado da coisa. Basta ouvir a Marcha Imperial e apenas tentar não se lembrar do personagem à ela associado (a imagem do vídeo pode te ajudar caso você tenha vivido dentro de uma caverna pelos últimos 50 anos).

(quando escrevia no CdP, chamaria isso de “vídeo-farofa”)

Esse recurso normalmente é associado à obras de longa-duração que exprimam uma progressão narrativa (ex.: filmes, discursos, peças, etc).

Mas nada nos impede de ampliar esse conceito para a vida.

Para 95% das pessoas que nasceram pós anos 90, é visceral escutar The Final Countdown ou We Are The Champions e associar à bailes de formaturas com muita pompa ou partidas de futebol embaladas por um coro de tios bêbados. Basicamente porque esse é o leitmotiv desses eventos [e já que não estou aqui para ser complicado, por que não dizer “tema”?].

Um bom músico ainda notaria que assim como nas mídias, esses temas podem ser o quão óbvios precisarem ou quão inusitados quiserem!

Falando em obviedades, a ópera talvez seja o maior arcabouço de redundâncias e discrepâncias que a música já construiu. E isso (quando não pelas tramas malucas envolvendo fantasmas, traições premeditadas e mortes dramáticas) se deve ao uso dos temas musicais cantados.

Você quer que o espectador associe um momento a um traço específico de um personagem? Faça-o cantar sobre isso (mais uma vez).

Em La Traviata, sempre que o tema narrativo é o sentimento que motiva Alfredo, o tema musical ressurge. E ele não poderia ser mais claro quanto a esse sentimento:

É amor
É o pulso do universo, do universo inteiro,
Misterioso, misterioso e orgulhoso
Tortura, tortura e deleite
Deleite para o coração.

Quantas vezes esse trecho aparece na ópera inteira? Várias. Mas apenas quando é claro que ele surgirá.

Ao tentar se posicionar como libretista ou o compositor, seria uma ofensa à inteligência do público dizer que depois da primeira repetição o tema tem o propósito de explicar algo. Isso porque a intenção verdadeira é reforçar a conexão da canção com o momento.

O que está acontecendo ali é um trabalho manual do artista em induzir a mesma sensação que temos quando uma música ativa nossa memória. Um verdadeiro mind-game musical. Assim, sempre que lembrarmos do amor de Alfredo por Violetta associaremos ao tema; e vice-versa.

Interessante, não?

Fica melhor quando percebemos que na vida real não precisamos do tema fisicamente tocando. Apenas o fato da música ter nos marcado uma vez é suficiente para que sua imaginação seja o compositor da sua própria ópera e faça a música “tocar” de novo para associá-la a determinada situação.

E pronto. Você construiu um leitmotiv.

Por isso que quando deslumbramos nossas adolescências pode nos vir a mente Simple Plan ou Blink-182, mesmo sem nunca termos sido fãs de ambas as bandas e ouvido-as uma única vez (estou certo, não é mesmo?).

Numa visão geral, talvez a ideia de ficar recorrendo à mesma melodia várias vezes na tentativa de emocionar o espectador não seja o artifício mais nobre que existe — , criativamente falando.

Podemos associar esse recurso a simples repetição exaustiva que se vê na música pop, mas o diferencial está na falta de um padrão cíclico e principalmente na associação contextual.

Por isso quando funciona, é efetivo.

A ideia de poder associar uma música diretamente à uma ideia ou sentimento é incrível, e pode guiar o espectador para sentimentos que são intransitáveis quando não se tem uma situação para abordar.

E esse é o poder desse recurso. Quando o tema é utilizado no momento correto, é como encontrar uma fotografia dentro de um antigo baú e ser remetido à uma emoção que você não sabia que precisava no momento.

Na música, o leitmotiv é o totem que nos transporta para uma memória que parecia quase apagada.

Por isso ele está lá nos momentos mais emocionantes do filme ou da peça, se consagrando como um artifício extremamente recorrente; simplesmente porque você se lembra de produtos que utilizam (bem) esse recurso.