#NÃOESQUEÇAMARIANA

Há 1 ano e 2 meses Arthur resgatava vidas em meio ao mar de lama

Em questão de horas talvez a potrinha Túlia não tivesse sobrevivido. Nem sua mãe. As duas podem ser consideradas hoje a personificação de Bento Rodrigues, distrito guerreiro, que após um ano do rompimento da barragem de Fundão em Mariana (MG) se reergue na força de todos os atingidos salvos principalmente pela coragem de voluntários que ali estavam nos dias seguintes àquele fatídico 5 de novembro de 2015. Túlia nasceu pouco depois de sua mãe ter sido resgatada da lama e um dos responsáveis pelo sucesso da vida em meio a todo aquele cenário de destruição é Arthur Nascimento de 29 anos, voluntário apaixonado por animais. Ele é médico veterinário, sabe lidar com bichos de grande porte e chegou ao Distrito de Bento três dias após os rejeitos da mineradora Samarco — controlada pela Vale e pela australiana BHP Billiton — terem invadido a comunidade. Fez o caminho de volta pra casa, rumo a Conselheiro Lafaiete, também em Minas, mais de seis meses depois. Foram cerca de 200 bovinos resgatados, 70 equinos, 30 cães e gatos, 70 aves e aproximadamente 25 suínos.

O trabalho não tinha hora, passou dias inteiros desatolando animais da lama acompanhado do corpo de bombeiros militar, civil e de pessoas que estavam dispostas a ajudar. É o caso do resgate delicado de quatro jumentas. Arthur conta que foi com uma equipe de 20 pessoas e ficou o dia inteiro pra retirá-las. Uma acabou morrendo. Outro caso comovente que marcou o trabalho dele em Mariana foi o salvamento de um potrinho. O filhote ficou 5 dias em Bento Rodrigues e quando foi resgatado estava com a pele toda podre: “Tiramos ele da lama de helicóptero, a mãe já era uma égua idosa de uns 23 a 24 anos. Ele chegou a ficar sem pelo nenhum no corpo e ainda necessitava de leite. Tivemos que fazer um leite especial pra ele. Ficou sob cuidados uns 4 meses; de 5 a 6 vezes por dia fazíamos a limpeza da pele. O Túlio — como foi batizado — virou um mascote nosso, junto com a Túlia”.

Quando Arthur chegou em Bento o primeiro impacto foi assustador, pois não sabia a proporção da tragédia e a quantidade de animais atingidos: “Por causa da lama tinha lugares que era preciso dar voltas de 100/120km pra conseguir chegar até o animal ferido. As vezes tínhamos que andar 10km a pé, porque estava tudo tomado pelos rejeitos”. De acordo com o médico, ao longo dos dias as equipes foram se organizando, fizeram treinamento e traçaram uma logística. Em janeiro de 2016, ele foi contratado por uma empresa terceirizada da Samarco para continuar o trabalho. Doações de medicamentos vinham do Brasil inteiro. O facebook e outras redes sociais de Arthur acumulavam mensagens de interessados em contribuir de alguma forma. Ele ressalta que todos os donativos foram importantíssimos, principalmente os iniciais, como os da AOPA — ONG de proteção animal de Lafaiete e do Centro de Controle de Zoonoses de Lafaiete. Mas uma doação especial de R$180 mil em remédios e suplementos alimentares foi crucial para o tratamento dos animais e veio de um laboratório renomado dos Estados Unidos que tem sede no Brasil, chamado MSD. “Ficamos com um estoque muito bom e eles deram toda linhagem de medicamentos que estávamos utilizando”, comenta.

Durante os trabalhos, enquanto bombeiros e veterinários atuavam em conjunto para retirar dali o máximo de vidas possível, Arthur recebeu um agradecimento do corpo de bombeiros militar de Minas Gerais na página deles na internet. Isso, porque o veterinário ensinou às equipes a forma mais eficaz de resgatar um animal de grande porte sem machucá-lo. A rotina e a técnica era a de “escavar cada membro retirando-os da lama, deitar o bicho de lado, amarrar as patas umas nas outras e arrastar até o leito”. Depois disso, o animal era colocado de pé. Antes de adotar essa medida, os profissionais estavam retirando os animais com retroescavadeira ou outros equipamentos e amarrando uma cinta para puxá-los da lama. Dessa forma, os bichos sofriam ainda mais. Os momentos mais difíceis para o médico veterinário eram aqueles em que tinha que decidir por fazer ou não a eutanásia de um animal. É o caso de uma mula, resgatada com retroescavadeira por pessoas inexperientes: “Tiraram ela da lama, mas o casco ficou todo no chão. Foi um animal que me marcou muito”.

Mesmo diante do drama vivido em Mariana, Arthur presenciou momentos de alegria e alívio, principalmente devido ao seu trabalho e de todos os outros voluntários. Senhor Mauricélio, morador de Bento Rodrigues, chorou ao ver que seus animais estavam vivos no centro de tratamento: “Ele viu a vaca dele descendo pela lama, toda machucada, e nós conseguimos resgatá-la. Quando reencontrou o animal, começou a chorar, abraçar, beijar a vaca e me agradecer; quando viu os porcos dele, foi a mesma coisa e os cães então; rolava com os cães e os bichos gritavam de alegria ao vê-lo”. Mais de um ano se passou da maior tragédia ambiental já registrada na história do Brasil e os animais de Bento continuam a fazer parte da vida de Arthur. “Um morador que eu converso direto, pelo menos duas vezes por semana, é o senhor Antônio. Ele foi um dos que mais perdeu equinos lá e me ajudou muito nos resgates como voluntário. Sempre entro em contato com ele pra saber como algum bicho está; qual piorou, qual melhorou e tudo mais”, conta.

Não era a primeira atuação dele em tragédias. Ainda como estudante, em 2011, o mineiro impulsionado por uma amiga veterinária partiu rumo à região serrana do Rio de Janeiro. Por lá, famílias choravam a perda de pessoas levadas pela enxurrada. Os bichos também sofriam. O médico ficou na casa de uma protetora de animais da região, dividindo o quarto e o banheiro com cães resgatados da enchente. Para ele os dois acontecimentos impactaram muito — em Mariana pela quantidade de animais que precisavam de ajuda e no Rio, pelo número de seres humanos mortos. De todo o trabalho em Mariana o que Arthur leva para a vida, segundo ele, é gratidão pelas pessoas que conheceu, que pôde trabalhar junto, pelo contato com as vítimas resgatadas e com o reconhecimento dos animais: “Túlia andava atrás de todo mundo, relinchava quando via a gente”.

** Fotos: Arquivo Pessoal.