O Peso das Rosas
(Sobre Clipes, Grampos, Tônicos, show de Maurício Pereira)

Três pessoas fazem música em um palco por uma hora e trinta minutos. Ela que acontece em tempo real, se apresenta através do corpo dos músicos. Imaterial, se faz presente e dança entre e dentro dos instrumentos: metais, madeira e carne. O tempo dela é uma seta para frente. As letras ditas uma após a outra formam uma palavra justaposta à próxima, assim como cada nota do trompete se coloca ao lado da outra, não sobre. Nesse palco, apenas as cordas tem a possibilidade de construir verticalmente o som, empilhando terças.
Cada um dos três músicos, expostos pela ausência de banda (ou expostos pela mera presença de si), ergue um pilar que sustenta o tecido musical. Estruturas nítidas se formam para tecer as canções. A plateia tem visão privilegiada por conseguir ver a topografia que se forma sobre a superfície musical, e ao mesmo tempo, a estrutura que a põe de pé. Isso também significa despir as narrativas, expor seu esqueleto, vulnerabilizar a música, os músicos.
A seta que sai desde as cordas vocais lança o tempo para frente, sabendo que toda música é uma memória e só existe por um período limitado. Quando cessa e as luzes caem negras sobre o palco, o silêncio é o tempo necessário até que se comece a próxima melodia. Corre um texto na cabeça do compositor. Enquanto canta, pisa sobre chãos diversos, por vezes sólido feito de palavras paraleleptídicas, por vezes de terra solta de modo que o passo pode escorregar, tropeçar. Mas a estrada leva um lugar.
De todas as palavras possíveis, justamente aquelas foram escolhidas e organizadas para serem lançadas sobre a noite. Uma a uma, revelam um mergulho em um segundo, para alarga-lo até o tamanho do passado todo. Quando olha para o futuro, deseja: amor, pão, leite, atenção. Quando olha para o agora, não lamenta o poder exercido sobre quem não o tem, mas o reconhece e rebate com a luz do sol, mesmo que essa luz por vezes seja refletida pela lua dos amantes.
Três pessoas em um palco na cidade são tradutores de coisas invisíveis. Só mesmo algo impermanente como a música conseguiria segurar aquilo que não tem forma, que mora dentro da gente. Mas não é ingênua e percebe o mundo à sua volta, vê que a cidade bate no corpo junto com o som das coisas, fazem ritmo, tom. Trovoam os sentimentos contidos em palavras comuns, esbarradas todo dia.
No fim do dia, na compreensão pequenininha da realidade que cabe a cada um, três pessoas no palco oferecem um mundo que cabe no peito. Avisam: a gente tem que sonhar para estar brilhante e enfrentar os dias duros, transformá-los em diamantes.
