O que não te contaram sobre a "mídia golpista"

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Por diversas vezes vemos nas redes sociais, nos papos de bar ou até em conversas cotidianas algum comentário como "a mídia manipula", ou "a TV quer que fiquemos burros" e por aí vai. E longe de mim discordar disso, de fato a mídia manipula. Mas existe algo um pouco mais profundo que ainda não te contaram…

Primeiro, pra entender sobre mídias no geral, precisamos entender um pouco sobre comunicação. A comunicação possuía, em seu modelo clássico, três diferentes etapas: uma emissor, um meio e um receptor. O emissor enviaria uma mensagem por um meio que chegaria até o seu receptor.

E é daí que vem o termo mídia (do latim, media, que é o plural de medium que quer dizer "meio"). E é por isso que conhecemos os grandes veículos de comunicação — canais de TV, jornais, revistas — como "grandes mídias".

Dito isso, vamos nos aprofundar um pouco mais. Já em um modelo mais moderno de comunicação, começamos a entender que não basta um emissor enviar uma mensagem por um meio que chegue até o receptor. Entendemos que, para existir comunicação, o receptor deve entender essa mensagem.

"Comunicação é mais sobre o que você entende do que sobre o que eu disse." Enfim, entendeu-se, então, que uma mensagem deveria ser construída de maneira que levasse em consideração diversos fatores subjetivos e objetivos afim de garantir o entendimento do seu receptor.

E foi aí que surgiu a famosa "mídia golpista". É uma matemática simples: se a mensagem é construída de maneira minuciosa para garantir o entendimento, ela pode ser contruída de maneira minuciosa para garantir o desentendimento e a alienação. E isso fazia total sentido, até algo maior surgir.

Desculpem, não achei o logo antigo em alta qualidade

Ele mesmo! O nostálgico Orkut. O surgimento dele foi uma revolução na cultura da internet e na forma como nos comunicamos, sendo um divisor de águas na era da internet 2.0.

Eu imagino que todos se lembrem de como era o Orkut, mas se você não se lembrar, ele era mais ou menos isso aqui. E a grande revolução causada pelo Orkut foi a total democratização da comunicação.

Todos são iguais perante as redes sociais

O que o Orkut promoveu, naquela época, foi algo já tentado por outras mídias, mas até então sem tanta popularidade. Não importa se você era rico ou pobre, gordo ou magro, branco ou negro, você tinha direito às mesmas coisas que todos os outros. Você discutia o mesmo tema e tinha sempre direito de responder. E até mais: você, sendo ninguém na internet, podia criar uma comunidade que mobilizasse milhões de usuários.

Por mais que os spams tentassem, era impossível se destacar no Orkut por algo que não a própria comunicação. Não era possível ter uma conta premium ou um Orkut gold.

E isso nos trás até as redes sociais de hoje, onde todos comentam sobre tudo, têm opiniões sobre e tudo e, acima disso, querem ser ouvidos. As marcas vêm sofrendo com casos e mais casos de consumidores que querem ter suas vozes ouvidas e promovem verdadeiros boicotes que podem fazer a marca sumir em pouquíssimo tempo. Temos como exemplo recento o caso Quitandinha.

Entendeu-se, assim, que não bastava construir uma mensagem de maneira que o receptor entendesse e enviá-la pelo meio correto. Mas agora, era necessário ouvir o que o receptor tinha a dizer sobre aquilo. Transformando a comunicação em uma via de mão dupla.

Tão influente quanto a mídia, só o seu público

Usando esse conceito contemporâneo do modelo de comunicação, podemos, finalmente, entender os motivos de nem sempre podermos classificar uma mídia como golpista e atribuir a culpa simplesmente a ela.

Nós entendemos, então, que a mídia nada mais é do que um meio usado para enviar uma mensagem de um emissor para um receptor (e agora vocês já estão mais por dentro de como o processo funciona). E, da mesma maneira como uma mensagem pode influenciar um receptor, um receptor pode influencia uma mensagem.

Explico: não adianta nada eu enviar uma mensagem de maneira que meu receptor não entenda, certo? Da mesma forma, não adianta nada eu enviar uma mensagem que meu receptor não esteja interessado em receber.

Se as grandes mídias falam sobre uma determinada visão política, é porque o seu público concorda com aquela determinada visão política. E se essa mídia fala com a maioria do público do país, é porque a maioria do público do país concorda com essa opinião. Se eles não concordassem, a mídia teria que mudar seu posicionamento.

Por isso vemos tanta hipocrisia quando analisamos a mesma mídia falando sobre assuntos parecidos em dois períodos diferentes: ela trabalha com a opinião do seu público, que é mutável. E se a opinião do público for alienada, colocar a culpa na mídia seria jogar o problema pra debaixo do tapete.

Agora que já coloquei todos os pontos em debate, algo ainda deve ser falado. Sabe o que, de fato, não te contaram sobre a "mídia golpista"? Os pequenos blogs, as fanpages e até as pessoas públicas no Facebook se tornaram mídia: eles agem da mesma maneira. Trabalhando com opiniões que a maioria do seu público concorda. Por isso figuras como Jair Messias Bolsonaro e Luciana Genro, que possuem visões extremamente distintas, possuem públicos que acham que o público do outro está extremamente alienado e errado, e culpam a mídia por isso.

Vale encerrar com a máxima: "Nunca seja cego a tudo, nem, tampouco, cego a nada."

Obrigado pela leitura :)