Mundanices

Férias. A vida sempre continua, penduramos a roupa no varal, lavamos nossas louças, assistimos filmes bobos, comemos sorvete direto do pote e saímos pra tomar cerveja gelada no frio. Na verdade essas são algumas coisas — do vasto espectro das coisas — mundanas que ainda me prendem, com um estranho fascínio, à realidade.

Não foi sempre assim. Há cinco anos atrás, se me dissessem que sabiam o significado de tudo, confesso que não hesitaria. Seria o primeiro a querer descobrir. Hoje, já afirmo com tranquilidade que não estou nem aí. Algumas caixas devem permanecer fechadas. Em nome das coisas belas e, ainda mais, em respeito às feias. Abraço a tristeza e repudio a felicidade, e vice e versa, pois me completa viver de tudo um pouco e parar de crer em sucesso.

Com sorte, por mais que para mim sorte seja ficção, eu sou uma pessoa de extrema sorte. Principalmente por ter tudo o que tenho, tive, não tenho e jamais terei. Sem pensar em matéria. O conceito de ter me move bastante. Aliás, sabe todas aquelas coisas que vocês sempre desejam uns aos outros em aniversário, natal e ano novo? Tenho todas elas. Só que não faço questão de segura-las com paixão… ou medo. Tem dias que elas estão por aí, com vocês, com os amigos de vocês, com as pessoas que vocês viram no ônibus, no clube, nas baladas comuns e incomuns.

Na verdade eu nem entrei de férias ainda. Estou sempre antecipando algumas coisas, alguns insights necessários para justificar as rugas. Não que eu seja ansioso (até sou bastante), mas é que curto mundanices. Já decidi! Quero aprender a cuidar da casa agora que meus pais foram seguir alguns sonhos — à propósito, essa é para os tolos que sonham. Quero conversar com gente estranha na rua e arrancar algumas emoções mundo afora, quem sabe fazer uns amigos improváveis. Navegar por aí e virar o mundo de cabeça para baixo.

Dia desses, me sentei em um mirante que não é oficialmente um mirante, mas é um lugar aleatório que da pra ver boa parte da cidade. Já era aquela hora em que o sol quer se apropriar das superfícies de concreto uma última vez antes de permitir que a lua o fizesse.

Belo Horizonte, Minas Gerais (2017)

Acontece que, lá, eu pude sentir uma coisa bem semelhante ao que sinto sempre que vejo essa cena de “American Beauty”, do Sam Mendes, que não seria nada sem a trilha sonora maravilhosa do Thomas Newman.

https://www.youtube.com/watch?v=gHxi-HSgNPc

Comentário mais popular, faço das suas palavras as minhas:
“May my life be filled with people that are deeply touched by this video.” — Nolan Nortje

Boa noite, bom dia e boa tarde.