Os desafios da música independente

Principalmente quando não se tem ideia de como dar o primeiro passo…

Ferdi no “Die Metzgerei” (Augsbug, ALE) // Ago, 2016

Um pouco sobre o que sou

Quando a produção me escolheu (e não o contrário), no fim de 2015, me vi no meio do furacão: o artista que represento, Ferdi, estava no meio da gravação do seu primeiro CD, e sua antiga produtora foi morar fora do país ao longo do processo. Sem ter ideia de como fazer um disco, assumi o “rojão”.

Resolvi mergulhar de cabeça nisso: enquanto o disco era gravado, produzi nossa primeira turnê internacional. Sul do Brasil e Uruguai, 28 dias, 13 shows. Uma experiência como músico, produtor e ser humano. Conheci grandes pessoas que se esforçavam muito para que tudo desse certo na nossa passagem.

Dias de hospedagem solidária, problemas na fronteira, tomar um café da manhã e um “almoço-jantar” no meio da tarde pra economizar. Na estrada, os acasos se tornam corriqueiros, e o melhor que fizemos foi explorá-los ao máximo. E se você pensa que a (gigantesca) maioria das bandas começam diferente disso, bem-vindx ao mundo real.

Se você quer se produzir, trabalhe de verdade e conheça as pessoas. Saiba com quem você está falando e porque você está falando.

Quando a gente trabalha duro, a “sorte” vem: convidei um grande produtor uruguaio para um dos shows, o que nos fez voltar pela segunda vez ao país em fevereiro de 2016: avião, entrevistas para TVs e rádios, festival com milhares de pessoas e um bom cachê. Foi ali que eu percebi que esse era o meu caminho.

Ferdi em Alfenas, 2016 // Foto: Ana Lívia

Depois disso, foram vários festivais e casas de show no Brasil, Virada Cultural, lançamento do disco com casa completamente lotada, turnê na Alemanha (que merece um capítulo a parte). Tudo isso em 2016.

Percebi que eu teria que abrir uma empresa pra cuidar de tudo isso e a “Música a Vapor” é fruto de todo esse suor.

O ano de 2017 já vem com Sescs, turnês nacionais e internacionais, e novos (e grandes) projetos.


Mas onde está o segredo?

Busquei a resposta pra essa pergunta durante bastante tempo. Trabalhei muito, conversei com muita gente, fui à grandes feiras de música no Brasil, viajei de norte a sul no último ano. Tudo isso pra conseguir finalmente dizer: não existe resposta.

Agora eu que te faço uma pergunta: ler tudo isso e descobrir que não tem resposta é frustrante? Se sua resposta pra isso for “sim”, desista enquanto há tempo. Como uma vez disse um amigo meu (pra deixá-lo citado aqui, o Rafael Di Francesco): “jogador de futebol sonha em ser músico, e músico sonha em ser jogador de futebol”. Em outras palavras, ser músico é o sonho de muita gente. A concorrência é grande e, por vezes, desleal. É realmente uma profissão muito difícil e extremamente instável.

Embora esse possa parecer um mundo mais frio do que o planeta Hoth (procurar a referência em Star Wars), posso tentar dar algumas dicas do que funcionou pra mim até agora:

  1. Conheça sua cidade. Seja presente na sua cidade, na sua cena. Ela é importante, não só pra sua base de fãs, mas também pro que vou dizer no item 3.
  2. Trabalhe, trabalhe, trabalhe. Escute de tudo, conheça todo mundo. Participe dos eventos, seja curiosx. Youtube, Facebook, Instagram, Google Maps e outras várias ferramentas estão aí pra serem usadas. Use-as o tempo todo.
  3. Conecte-se. Faça contatos com produtorxs, casas de shows, amigxs de outras cidades, outras bandas. Um produtor sem contatos não sai do lugar. E o que vai volta: as bandas independentes têm mais do que a obrigação de se ajudar. Traga-as pra sua cidade, vá para a cidade delas. Descubra bandas que têm a ver com a sua.
Conheci um grande ator e produtor brasileiro na Alemanha (pra também não deixar passar, o nome dele é Alex Mello), que uma vez me disse: “Produzir um filme é como sonhar. Você sonha e vai tropeçando em um pessoal que topa sonhar junto contigo. Quando você menos espera, tem muita gente sonhando junto, e então aquilo começa a se tornar real”. Conexões e contatos são tudo.

4. Priorize. Você pode até ter outro emprego, mas o que realmente importa é: qual é a sua prioridade? Se você não levar a sua banda e o trabalho de produção como prioridade, dificilmente isso vai funcionar.

5. Conheça o todo. Tenha pelo menos noções básicas de tudo o que você precisa: assessoria de imprensa, redes sociais, distribuidoras, burocracias chatas, conheça biografias de bandas (principalmente as novas), como se faz um disco, um clipe, um show. Como em outras profissões, existem aproveitadorxs, gente tentando te passar a perna. Se você sabe pelo menos o básico das coisas, dificilmente será enganadx.

6. Música é negócio. Uma coisa que você provavelmente já ouviu, mas eu reforço: uma banda é como uma empresa. Você precisa vender seu produto (show) para o consumidor. Se seu produto é ruim, sinto muito você ter lido esse texto até aqui, mas você não vai conseguir enganar o consumidor por muito tempo.

Como todo produto, a música precisa ser divulgada. Invista muito nisso. Não adianta nada seu produto ser maravilhoso se ninguém conhecer.

7. Seja original. Como dito antes, muita gente sonha em trabalhar no mundo da música. Ou seja, a concorrência hoje (graças à facilidade da internet) é muito grande. Se você oferece mais do mesmo, dificilmente sobrevive. Seja original e ofereça um produto que surpreenda as pessoas.

8. Faça. Não espere as coisas “caírem do céu”, porque elas não vão. Seja pró-ativx, ninguém vai fazer seu trabalho por você.

9. Paciência. Relaxa, as coisas acontecem pra quem trabalha. Se você acredita que sua banda cumpre todos os itens anteriores, é inevitável que você comece a tocar por aí. O resto, é um pêndulo eterno entre trabalho e paciência.

Xs produtorxs (de festivais, casas de shows, bandas) são pessoas, assim como você. Essas pessoas geralmente têm pilhas de e-mails, Cds e DVDs pra escutar. Tenha uma boa relação com elas começando por não encher o saco.

Uma vez, Fabrício Nobre me disse que ele desiste de bandas que fazem esse tipo de abordagem insistente. Nada mais justo. Imagine ter na sua caixa de e-mails (e em todo lugar que for), dezenas de pessoas interessadas em mostrar seu trabalho todos os dias?

Ferdi no Petit Festival, 2017 // Foto: Rodrigo Gianesi
Como disse Thomas Edison, genialidade (mas se o senhor me permite, senhor Edison, troco aqui “genialidade” por “arte”) é 1% inspiração e 99% transpiração. E esse “99%” se chama produção. Noventa e nove por cento, entendeu?

Pra terminar, deixo aqui uma nota importante: a insegurança sempre fará parte do trabalho (acho que, nos tempos atuais, não só no trabalho de produtor/músico), não há o que fazer. Como eu disse, relaxa. E claro, aproveite a viagem.

No mais, se você tiver alguma dica pra me dar, eu adoraria receber.