Amizades, cotas e o futuro.

Outro dia eu estava pensando sobre a vida. Algo que faco uma frequência absurda e deveria parar.

A realidade é assustadora.

Comecei pensando nos amigos que eu ja teria ajudado de alguma maneira a super alguma barreira. Comecei a pensar nas pessoas que ja passaram pela minha vida de algum jeito me marcando, positiva e negativamente, e como eu lidei com todas essas situações. Até que comecei a pensar no meio onde vivo.

Desde muito novo estudei em uma escola dita elitizada. A galera era muito bem de vida, todos viajavam para fora do país todo ano, era intercâmbio aqui, uma festa ali, tudo parecia muito fácil. A realidade era outra. Por mais que a gente tenha noção das amarguras do mundo, quando estamos em um meio desses, as vezes deixamos de perceber a real dimensão das coisas. Foi quando entrei na universidade que pude perceber diversas realidades no mesmo ambiente. Alguns assuntos que para mim era normais soavam como pedantismo da minha parte para algumas pessoas. Mas meu ponto aqui não é esse, e sim as amizades que formamos e como elas se desenvolvem e, muitas vezes, não percebemos como nos somos engolidos de alguma forma por algum grupo.

Meu curso é tido como curso de mulheres e viados, mesmo sendo possível contar nos dedos das mão a quantidade de gays presentes no prédio. É aquela coisa, basta ser gay para lotar um local, para incomodar ou para chamar atenção. Ao menos a galera é mais desconstruída, com algum certo nível de erudição e é capaz de entender que nada de errado existe em se encontrar fora da normatividade imposta. Pois bem.

Meu círculo de amigos na universidade é constituído basicamente por heteros. Não que isso seja problemático para mim. Sempre me respeitaram e Deus sabe o tanto que eu gosto deles. Mas comecei a pensar em tudo que faco junto deles e como nada daquilo me fazia me sentir sempre confortável. Principalmente os locais frequentados fora dos arredores universitários.

A partir deste ponto vou problematizar o fato de ser o único diferente no meio dos amigos heteros, e espero que você caso seja meu amigo, não se sinta ofendido mas sim entenda o que eu estou expondo aqui.

Comecei a perceber que todas as vezes em que eu sou chamado para fazer algo com meu grupo de amigos da faculdade, o lugar normalmente já é pré-estabelecido de acordo com a vontade da maioria. Ok, justo. A ditadura da maioria existe. Mas comecei a pensar em todas as vezes que eu dei a ideia de um lugar/uma balada e como a ideia foi completamente esquecida. É bem chato quando isso acontece, mas a gente segue em frente porque acredita estar fazendo a coisa certa pelo bem das amizades. Mas essas coisas acontecendo repetidas vezes começam a criar um certo pensamento crítico quanto a tudo isso. Eu me sinto sim desconfortável em um ambiente onde não posso expor meu eu real pelo medo de ser confrontado, novamente, por ser quem eu sou. Isso não quer dizer que eu não me diverta com meus amigos. Claro que me divirto, mas acontece que nem todas as vezes eu me sinto confortável. É como se existisse uma cota para amigos diferentes no meio normativo, você é quase que um bichinho de estimação.

Meu ponto é, caros amigos; aceitar um amigo gay vai muito além de respeitar quem ele é. Talvez sair para um lugar onde ele se sinta mais confortável, onde outras pessoas na mesma condição também se encontram, facilite um bocado.

Uma das coisas que mais me irrita é quando chamo todos para uma balada X e a resposta de alguns é “mas e se um cara chegar em mim? Será que não vão pegar na minha bunda?”. Claro, porque gay nao pode ver um homem que ja quer pegar. Um pouco de resiliência não mata niguém. Olha só, to bem até hoje sendo super resiliente e calado. Mas agora não mais. Não vou mais aceitar ser a cota do grupo. Não quero ser meio aceito. Não quero ter que ficar escondendo minhas vontades.

Aparentemente tudo se resume em “nossa, porque você não falou isso antes? A gente dava um jeito”. Olha, se fosse fácil expor quando você se sente deslocado no meio de amigos, provavelmente eu ja teria falado antes. Mas porque eu tenho que falar como eu me sinto sempre e vocês não pode pedir minha mera opinião sobre algo? É bem simples.

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